6 de março de 2011

Vi na Livraria: A Ninfa Inconstante


A NINFA INCONSTANTEGuillermo Cabrera Infante
Estela ainda não tem dezesseis anos nem entende o palavrório do crítico de cinema que por ela caiu de amores. Ele é bem mais velho, e tem uma esposa que cansou de esperá-lo acordada. Mas essa não é outra história de amor em que um intelectual maduro se deslumbra pela beleza de uma adolescente ingênua. Porque Estela é tudo, menos inocente. Ao ritmo do bolero e dos sons ruidosos e sensuais da Havana pré-revolucionária, 'A ninfa inconstante' é construído sobre a mais sólida fundação do processo criativo, a memória. O livro desdobra-se sob o olhar do leitor como o palimpsesto vitalista de uma época única na história de Cuba, em que as referências e alusões pessoais, literárias, musicais e cinematográficas adquirem uma importância primordial.

A Ninfa Inconstante está aqui no Vi Na Livraria mas, pensando bem, é capaz que eu adicione o livro à minha extensa (e interminável) fila de leitura, tamanha a minha vontade de lê-lo. Sempre fui admiradora da América Latina e tenho bastante interesse pela literatura e cinema latinos, embora meus conhecimentos a respeito de ambos sejam ainda bastante superficiais. Um dos meus escritores favoritos é latino (trata-se do mestre García Márquez) e realmente acho que devo abrir um espacinho – ou melhor, um espação – a mais na minha fila de leitura para incluir mais autores latinos.

27 de fevereiro de 2011

Relações de Sangue

Maria Clara Baumgarten levava uma vida bem normal até conhecer a vampira Lucila, cujos olhos castanhos grandes e inocentes enganariam até o mais desconfiado dos humados, quanto mais a pobre Clarinha.
Um vampiro traz o outro, e logo ela está às voltas com Daniel, um inescrupuloso vampiro de programa. Moreno, alto, bonito e sensual, ele precisa da ajuda da humana e da vampira para encontrar o assassino em série que está atacando suas "clientes".
Mas... e se o assassino encontrar Clara primeiro?

A sinopse acima é a original da contracapa de Relações de Sangue (de Martha Argel), do qual postei o release editorial anteriormente. De uns tempos para cá, mistério e vampiros têm sido dois ingredientes que parecem mais que certeiros para cair no gosto dos leitores. Relações de Sangue une essas duas características, mas não de um jeito tão óbvio como vemos aos montes por aí. A ideia principal do livro é original e a capa também me atraiu bastante. Antes de iniciar a leitura, já achava que provavelmente iria gostar do livro, mas não foi exatamente assim. Sendo simples e direta: o livro não me agradou.

Não gostei das personagens, achei-as insossas. Os acontecimentos são narrados em primeira pessoa por Clara, protagonista da história, que é a personagem que mais me irritou no decorrer do livro. Todo o tempo Clara utiliza-se do sarcasmo e de tiradas que tentam ser engraçadas; em vão, devo completar. E é assim em todo e cada comentário da personagem, o que faz com que o sarcasmo fique batido e óbvio demais; Clara me pareceu uma adolescente querendo ser a palhaça da turma, o que não condiz com a personagem em si.

Podemos olhar pelo ângulo de que o real objetivo é que os acontecimentos sanguinolentos, unidos ao mistério e medo, tenham uma pegada cômica. Ok, faz sentido. Mas ao final do livro, temos reflexões um tanto melancólicas por parte da protagonista, referindo-se a todo o ocorrido como algo que ela jamais poderá apagar da memória, como se tudo tivesse sido um grande ferimento cujas cicatrizes permaneceriam eternas. Tudo isso para depois finalizar com mais um super comentário cômico de Clara. Ou seja, como Clara realmente encarou os fatos vividos? Foram trágicos, porém cômicos? Ou foram traumatizantes de verdade? Terminei o livro sem saber ao certo o que verdadeiramente sentiu a protagonista acerca de tudo aquilo que viveu. Prefiro concluir que nem ela mesma sabia o que pensava e o que desejava, mesmo depois, ao final da história.

A segunda edição, da Giz Editorial, traz um bônus no final. Trata-se de um conto que nos revela como Clara e a vampira Lucila se conheceram. Achei-o interessante, nada além disso.

Apesar de minha opinião negativa, o livro é de fácil leitura, nada cansativo. Além disso, o fato de toda a história se passar em São Paulo foi algo que me pareceu atrativo. Como disse antes, a ideia toda do livro é interessante, mas acredito que poderia ter sido melhor explorada. Para mim, a história permaneceu em um nível bastante superficial, e as personagens em nada ajudaram para fazer com que eu me envolvesse. Este, decididamente, não é um livro que eu recomendaria; exceto no caso de leitores aficionados por vampiros que procuram e têm curiosidade por tudo relacionado ao tema.

Título: Relações de Sangue
Autor(a): Martha Argel
Publicação original: 2010

15 de fevereiro de 2011

Estrela Píer - O tempo, a chuva, o outro

Depois de longos meses, estou de volta aqui no blog! Abaixo escrevo sobre um livro que li há meses e que é queridinho de todas as blogueiras literárias por aí. Trata-se de Estrela Píer, de Kamila Denlescki.

Em meio à onda Crepúsculo, devo confessar que, de início, o livro não me chamou atenção; parecia só mais uma história de amor proibido, vilão que é mocinho (ou mocinho que é vilão, como preferirem), e algo de macabro permeando os acontecimentos. De fato, Estrela Píer tem todas estas características, mas a obra não é tão previsível, e segue caminhos que chegam a surpreender e deixar um gostinho de “quero mais”.

O livro narra, em primeira pessoa, a história de Lucia Píer Eli, garota amante de literatura e que trabalha na biblioteca de uma escola. Sua vida com a avó e a irmãzinha parece normal e insossa, até que vence um concurso para conhecer o astro juvenil Richard Clevehouse em Londres.

O desenrolar da paixão entre Lucia e Richard é algo gostoso de ler, divertido, e é impossível não torcer por eles. O clima de tensão e perseguição se mostra presente durante todo o tempo, dando ao livro certo ritmo e fazendo com que não se torne entediante. Além disso, Londres e Santorini como background dos acontecimentos dá um colorido a mais e, ao mesmo tempo, uma sensação etérea, como se tudo estivesse perdido em algum lugar entre sonho e realidade.

É interessante ver como a autora dá um toque de ficção científica à história, o que vi como positivo mesmo que, em vários momentos, sentisse falta de algo mais aprofundado sobre o tema. Finalizei o livro com muitas perguntas que não foram respondidas e, de fato, o livro termina de uma forma que sugere que a história ainda não chegou ao final. A percepção que tive é a de que o livro foi concebido já com planos de uma possível continuação. É inevitável não ficar curioso quanto ao futuro de Lucia e Richard e, se me perguntarem, diria que tenho vontade/curiosidade de ler uma “parte II” disso tudo; porém gostaria que mais detalhes tivessem sido esclarecidos e que mais respostas tivessem sido dadas.

Recomendo o livro, acho que está super dentro do molde para o público pré-adolescente e adolescente. A linguagem é simples e a leitura flui de forma nada cansativa, além do livro possuir diversas características que, em minha opinião, fazem com que o público se identifique facilmente.

Não posso deixar de comentar que a Kamila é uma fofa (recebi o livro autografado por correio há muitos meses atrás e peço sinceras desculpas por publicar a resenha somente agora). Aliás, o breve texto sobre a autora na aba do livro ganha a simpatia de quem o lê no mesmo instante.

Finalizo o post dizendo que torço pela carreira da Kamila. E tenho certeza de que não são poucos os leitores que aguardam ansiosamente por uma continuação de Estrela Píer!

Título: Estrela Píer
Autor(a): Kamila Denlescki
Publicação original: 2009

14 de agosto de 2010

Vi na Livraria: O Anatomista


O ANATOMISTA - Federico Andahazi
Os anatomistas - na Renascença - eram estudiosos do corpo humano. Mateo Colón era um desses anatomistas e, em meados do ainda obscuro século 16, se apaixona por uma meretriz veneziana - Mona Sofia. Mas a cortesã desdenha friamente dos sentimentos de Mateo. Ele inicia, então, a busca por uma poção, uma substância, qualquer coisa que possa fazer com que Mona se apaixone por ele. Pensando na mulher amada é que ele descobre as maravilhas operadas por uma parte da anatomia - e da alma - feminina totalmente desconhecida até então - o Amor veneris, ou, como é mais conhecido hoje, o clitóris. Porém, para transmitir seus novos conhecimentos a Mona, Mateo precisa antes enfrentar a Inquisição. Neste romance, Federico Andahazi combina todo o ardor e a elegância do seu estilo com uma visão do ser humano, atingindo a fórmula da sedução irremediável do leitor.

6 de agosto de 2010

Lolita [Vladimir Nabokov]

A mais famosa obra do russo Vladimir Nabokov, Lolita é um best-seller polêmico. Ao menos o era na época de seu lançamento, em 1955. Claro que hoje causa menos impacto, mas a falta de pudor e o aspecto imoral da obra são características impossíveis de ser ignoradas.

O livro nos traz Humbert Humbert (é assim, repetindo mesmo) narrando em primeira pessoa sua obsessão por meninas púberes (entre 8 e 14 anos), às quais ele denomina “ninfetas”. Após uma série de insatisfações na Europa, Humbert, então um homem de meia-idade, muda-se para os EUA, e acaba por hospedar-se na casa de Charlotte Haze. A partir do momento em que conhece a filha de 12 anos de Charlotte, Dolores Haze, Humbert desenvolve uma grande paixão e obsessão pela menina.

O protagonista nos fala abertamente de seu lado pedófilo, de forma até “natural”, o que pode espantar um pouco os desavisados. Mas, ao contrário do que podem pensar, não considero a narrativa como sendo vulgar, e palavras de baixo calão não são utilizadas. A franqueza, essa sim dá as caras em todos os momentos, já que Humbert detalha seus atos, pensamentos e opiniões.

(...) ao longo de toda uma vida de pedofilia, já adquirira uma certa experiência, havendo possuído visualmente incontáveis ninfetas salpicadas de sol nos parques e me espremido, com depravada cautela, nos cantos mais quentes e apinhados de ônibus repletos de escolares.

Em primeira pessoa, Humbert dirige-se ora ao leitor ora ao júri (do crime do qual ele é acusado). É um protagonista com o qual é impossível haver uma identificação da parte dos leitores por razões óbvias, mas ao mesmo tempo é inevitável torcer para que ele fique bem, de alguma forma. Humbert sofre bastante, e é claramente notado algum desvio de ordem psicológica em sua personalidade; suas adoradas ninfetas perceptivelmente representam a menina Annabel por quem Humbert se apaixonou ainda criança, e ele parece buscá-la em cada garota que cruza seu caminho.

Humbert não se sente atraído por mulheres adultas; ainda que reconheça a beleza de algumas, constantemente refere-se a elas de forma repulsiva. Sente também notável aversão por garotas universitárias. No trecho abaixo vemos um exemplo de como ele se refere – de forma um tanto machista, inclusive – às mulheres com quem saía ("satisfazendo" suas necessidades sexuais):
As fêmeas humanas que me era permitido manusear eram apenas agentes paliativos.

Lolita me pareceu uma obra bastante completa, na maior parte do tempo envolta em uma atmosfera densa, mas com direito a pequenas aberturas através das quais o espírito do protagonista parece inundar-se de felicidade – efêmera e um tanto questionável, porém sincera.

Sendo o próprio Humbert quem narra o romance, a personagem de Lolita fica restrita à visão dele. Somente sabemos dela o que Humbert nos conta, e é particularmente interessante como não conseguimos enxergar Lolita como uma “criança” de 12 anos (eu, pelo menos, não consegui). Apesar de ter lá seus momentos infantis, a meu ver, a garota assemelha-se mais a uma adolescente ou jovem adulta que alterna momentos de malícia, rebeldia e inocência conforme suas necessidades e interesses pessoais. Mas isso é o que Humbert nos permite – ou nos direciona – a enxergar. Ele pinta uma Lolita cínica, até interesseira, que mostra aversão a atitudes que sugerem romantismo e que parece brincar com os sentimentos dele o tempo todo. Apesar disso, não descarto a hipótese de Lolita ser apenas uma criança travessa, por vezes confusa com a série de acontecimentos em sua vida durante a puberdade, tendo que lidar com a descoberta do sexo e de sentimentos tão novos na vida de qualquer menina de sua idade. Ao mesmo tempo, acredito que a falta da figura paterna e o aparecimento de Humbert, a princípio como namorado de sua mãe, a faz projetar nele sentimentos que teria por seu pai.

Apesar de finalizarmos a leitura com uma sensação de não conhecermos direito quem é Lolita – não sabemos o que ela pensa nem o que motiva seus atos –, acabamos nos flagrando sensibilizados por um Humbert triste, incompleto e que busca incansavelmente por alguma peça perdida em sua vida.

Lolita é uma obra imperdível, capaz de fazer com que nos deparemos com opiniões e sentimentos conflitantes acerca das personagens e acontecimentos. Não é possível odiar completamente o homem que relata as tantas situações repugnantes do livro, mas de igual forma é impossível defendê-lo. Esse clássico de Nabokov me faz pensar que a relação entre Humbert e Lolita, além de possuidora de peculiar beleza, assemelha-se à vida de uma forma geral: contraditória, difícil de ser julgada, e irremediavelmente incompreendida em sua totalidade.

Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo.

Título: Lolita
Autor(a): Vladimir Nabokov
Publicação original: 1955

9 de julho de 2010

Release Giz Editorial - Relações de Sangue, de Martha Argel

Giz Editorial relança Relações de Sangue, romance de Martha Argel que é um clássico da literatura vampírica nacional. Publicado originalmente muito antes da recente febre de vampiros que arrebatou o coração dos leitores, o romance de estreia de Martha Argel ainda é adorado por uma legião de fãs.

Num estilo ágil e bem humorado, e misturando romance policial com vampiros, Relações de Sangue traz uma história de mistério, suspense e sedução ambientada na São Paulo dos dias de hoje, capaz de prender a atenção do início ao fim.

Com esta nova edição, uma vez mais a Giz Editorial brinda os leitores com a prosa elegante e tão característica de Martha Argel, que já há algum tempo firmou-se como um dos nomes mais importantes da Literatura Fantástica nacional.

Maria Clara Baumgarten levava uma vida bem normal, até conhecer a vampira Lucila, cujos olhos castanhos grandes e inocentes enganariam até o mais desconfiado dos humanos, quanto mais a pobre Clarinha.
Um vampiro traz o outro, e logo ela está às voltas com Daniel, um inescrupuloso vampiro de programa. Moreno, alto, bonito e sensual, ele precisa da ajuda da humana e da vampira para encontrar o assassino em série que está atacando suas “clientes”.
Mas... e se o assassino encontrar Clara primeiro?

LEIA A RESENHA AQUI

SOBRE A AUTORA:
Martha Argel é paulistana, escritora e bióloga com doutorado em Ecologia de Aves. Pela Giz Editorial, já participou da antologia Amor Vampiro. Entre vários livros de ficção e não-ficção, escreveu O Vampiro da Mata Atlântica e O Livro dos Contos Enfeitiçados. Também organizou a antologia crítica O Vampiro Antes de Drácula, junto com seu marido Humberto Moura Neto, além de ter colaborado em livros científicos, técnicos e didáticos.

SAIBA MAIS:
http://www.marthaargel.com.br/
vampirapaulistana.blogspot.com

3 de julho de 2010

Vi na Livraria: Coração Apertado


CORAÇÃO APERTADO - Marie NDiaye
Com uma linguagem e uma atmosfera que lembram o melhor de Kafka, Coração apertado é um romance perturbador, narrado em primeira pessoa pela protagonista Nadia. Ela e Ange são um casal de professores de escola primária no interior da França, extremamente dedicado a seu ofício. De uma hora para outra, começam a notar que seus vizinhos, alunos, colegas e desconhecidos passam a olhá-los e tratá-los de modo diferente e violento, sem um motivo aparente. Já no início da narrativa, Ange é ferido e seu corpo passa por metamorfoses visíveis – outro acento kafkiano.
Com uma escrita sóbria e densa, Marie NDiaye cria um suspense apavorante, com toque de humor ferino e dilacerante, que não se desvia das tensões sociais da França de hoje. Nas palavras de Beatriz Bracher, que assina o texto de orelha da edição, “Coração Apertado é surpreendente e terrível até o final”.

Coração Apertado no SKOOB

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