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30 de julho de 2012

Vi na Livraria: Triângulo das Águas, de Caio Fernando Abreu



Para o Vi na Livraria de hoje decidi escolher uma das obras de um autor que há tempos quero descobrir. Triângulo das Águas atraiu bastante minha atenção e me deixou curiosa, assim como alguns outros livros do autor (por exemplo, Morangos Mofados e Pequenas Epifanias, entre outros).


TRIÂNGULO DAS ÁGUAS, de Caio Fernando Abreu, ed. Agir

A janela escancarada abre-se para a noite enorme lá fora, onde ruge uma cidade estufada de rumores e procuras. Nesse ambiente, cinza e chuvoso, movem-se as personagens-zumbis de Caio Fernando Abreu.

Reconhecido com o Prêmio Jabuti – a naior honraria literária brasileira –, Triângulo é também um título exemplar do ponto de vista do estilo do autor: nas linhas das novelas que o compõem – Dodecaedro, O marinheiro e Pela noite – encontram-se cristalizadas algumas constantes na obra de Caio. A alma perdida em busca de alguma coisa (às vezes afeto), a verborragia e as referências que, longe de afetadas, exalam sinceridade e aproximam os leitores, a vida sob o signo da madrugada, as boas-vindas aos mistérios da existência, concretizados, neste livro, pela presença da astrologia (inclusive no título), e o tom confessional-desesperado.

Ao leitor destas novelas (ou noturnos, como o autor as chamou) não restará dúvidas quanto às razões por que Caio Fernando Abreu é considerado um dos escritores mais criativos e inovadores surgidos no Brasil nas últimas três décadas do século 20.

30 de maio de 2012

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios [Marçal Aquino]

Aos que foram leitores vorazes da série Vaga-Lume, o nome Marçal Aquino provavelmente fará lembrar A Turma da Rua Quinze. Fora os títulos infanto-juvenis, o autor escreveu poesia, roteiros de cinema e romances para o público adulto; isso além de atuar no campo do jornalismo. Mas este post é justamente para falar sobre o livro cuja adaptação estreou nos cinemas recentemente: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios.

O fotógrafo Cauby se recupera de um trauma numa pensão barata, numa cidade do Pará prestes a ser palco de uma nova corrida do ouro. Sua voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo – mas não é do ambiente hostil ao seu redor que ele está falando. O motivo de sua descida ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um pastor evangélico.

A trajetória do fotógrafo, dado a premonições e a um humor desencantado, vai sendo explicada por meio de pistas: a história do fotógrafo Chang; o mistério do jornalista local Viktor Laurence,... Mesmo diante de todos os riscos, Cauby decide cumprir seu destino com o fatalismo dos personagens trágicos.

"Nunca acreditei no diabo", diz ele. "Apenas em pessoas seduzidas pelo mal."


Se o título e a capa – linda, por sinal – já atraem atenções, esperem até devorar esta história, página por página, até o último ponto final. Uma história de amor avassaladora e cheia de particularidades nos é contada em primeira pessoa por Cauby. Outras histórias são contadas em paralelo, como por exemplo, a que une o pastor Ernani e Lavínia – esta, o objeto de amor e desejo de Cauby. Ainda, o relato da história do amor platônico vivido pelo careca, hóspede da pensão, entremeia-se muitas vezes com a história de Cauby, mostrando as dimensões e facetas do amor, e as loucuras que só os que o sentem são capazes de cometer.

Mas a cereja do bolo é Lavínia. Misteriosa e sedutora, ela se desdobra em duas: uma mais recatada e, oposta a esta, uma Lavínia selvagem e cheia de volúpia. Revelou-se uma personagem como poucas vezes presenciei nos livros. Ainda que o texto navegue pelo psicológico de Lavínia, uma aura de mistério permanece intocada – o principal atrativo do livro. Em minha modesta opinião de leitora, vejo em Lavínia traços da Capitu machadiana – no que se refere ao aspecto sedutor e à bruma de segredo que as envolve. Livros e mais livros poderiam ser escritos, ainda assim, admitamos, seria impossível penetrar certos cantos da mente, da alma e do coração de Capitu. E foi de forma semelhante que enxerguei a Lavínia de Marçal Aquino.

Palavras sábias são adicionadas através das citações de um tal professor e psiquiatra Benjamim Schianberg. Este “teórico do amor”, que só existe na ficção, expressa verdades de forma tão direta quanto crua em seus livros, cujos trechos Cauby divide com o leitor:
O professor Benjamim Schianberg, o homem que dizia ocupar-se das “fezes da alma”, escreveu que nos alimentamos tanto do bem quanto do mórbido. No meio disso, ele assunta, existe a poesia.
(Curiosidade: o personagem foi objeto de inspiração para o filme “O Amor Segundo B. Schianberg” - direção de Beto Brant, Brasil, 2009.)

Página de abertura da primeira parte da história
(Imagem: blog prascucuias.com.br)
Outros personagens enriquecem a trama. Em todos eles existe um quê de mistério, como se fossem parte de um intrincado jogo de palitinhos – aquele em que ao tocar um palito erroneamente, acabamos por mover todos os restantes. Ainda, e permeando todo o contexto da trama, há o conflito entre uma companhia mineradora e os garimpeiros, fazendo com que o clima de tensão esteja sempre presente na narrativa. Uma tensão geral, que abala a cidade, caminhando em paralelo com as tensões individuais de cada personagem.

Sem mais, seria injusto não concluir de forma imperativa: leiam Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios o quanto antes!

Trailer do filme Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (direção de Beto Brant e Renato Ciasca, 2011), cujo roteiro é do próprio Marçal Aquino:



Título / Título original: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios
Autor(a): Marçal Aquino
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2011
Ano da obra: 2005
Páginas: 232

25 de abril de 2012

O Homem Duplicado [José Saramago]


"Diz-se que só odeia o outro quem a si mesmo se odiar, mas o pior de todos os ódios deve ser aquele que leva a não suportar a igualdade do outro, e provavelmente será ainda pior se essa igualdade vier a ser alguma vez absoluta."

Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, descobre acidentalmente a existência de um sósia seu, o ator Daniel Santa-Clara, ao assistir a uma comédia banal indicada por um colega de trabalho. O professor, então, vê-se obcecado por descobrir quem é aquele homem idêntico a ele.


Com uma narrativa impecável que utiliza do suspense, chegando a emparelhar-se com um thriller, Saramago nos traz o homem contemporâneo e toda a rede intrincada de problemas de ordem psicológica e social que o acompanham. Durante o romance, assistimos à perturbação e à perda gradual da identidade de Tertuliano Máximo Afonso, que começa a ocorrer tão logo ele descobre a existência de seu duplicado. O que a princípio parece tratar-se apenas de uma simples curiosidade, transforma-se em uma perigosa sequência de ações que podem levar a resultados desastrosos.

O texto retrata um mundo degradado que abriga homens degradados, tal como vemos se prestarmos atenção a nossa volta. Aparências que não refletem a verdade, relacionamentos vazios, comunicação escassa, egoísmo, a mentira utilizada como abrigo. Tertuliano Máximo Afonso e Daniel Santa-Clara, idênticos na aparência (em cada sinal e cicatriz) e tão dissonantes no caráter, envolvem-se em um verdadeiro jogo a fim de provar um ao outro quem é “o duplicado” – papel recusado por ambos – e quem é o primeiro, o “original”. E, em tal jogo, o leitor se questionará sem pausa: será que existe mesmo um vencedor?

Melhor do que eu mesma me pôr a falar do protagonista, prefiro que o trecho abaixo o faça:
Tertuliano Máximo Afonso não pertence ao número dessas pessoas extraordinárias que são capazes de sorrir até quando estão sozinhas, o próprio dele inclina-se mais para o lado da melancolia, do ensimesmamento, de uma exagerada consciência da transitoriedade da vida, de uma incurável perplexidade perante os autênticos labirintos cretenses que são as relações humanas.


Em toda a narrativa, encontramos trechos recheados de significado e de uma verdade nem sempre explícita, o tipo de passagem que dá vontade de copiar para reler depois. As conversas de Tertuliano Máximo Afonso com o “senso comum” e as referências à mitologia enriquecem a história e, ao juntarmos aí a astúcia com que o enredo foi conduzido, o resultado só pode ser um livro surpreendente.

O título e o tema podem falsamente sugerir ao leitor alguma pitada de ficção científica. No entanto, não esperem encontrar algo do gênero na obra, que é totalmente centrada nas turbulências do homem e apresenta no tema um aspecto mais introspectivo, voltado à reflexão.

A partir de um final arrebatador, só nos resta colocar ao menos mais duas questões – e é inevitável não fazê-lo – acerca do nosso Tertuliano Máximo Afonso e também da vida real: e se, afinal, déssemos mais ouvidos ao senso comum? Até que ponto seria ele benéfico?

Em tempo: soube recentemente que haverá uma adaptação hollywoodiana do livro, intitulada An Enemy, protagonizada por Jake Gyllenhaal. O filme será dirigido por Denis Villeneuve, diretor de Incêndios. Considerando a primazia do livro de Saramago, An Enemy tem tudo ser colocado na lista dos must-see.

Título / Título original: O Homem Duplicado
Autor(a): José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2002
Ano da obra: 2002
Páginas: 320

16 de abril de 2012

Lançamento 03/05: Equinócios de Amor

Hoje vim trazer para vocês um release (mais fresquinho, impossível!) de um lançamento da Editora Alcantis. Trata-se de Equinócios de Amor, do qual participo com o conto "Rambla de Mar".

Confiram abaixo mais detalhes sobre o livro e sobre o lançamento, que será no dia 03 de maio!
(Apesar da empolgação, estou tão triste por não poder ir ao lançamento...)

SINOPSE:
Antologia que traz para o universo literário uma série de contos românticos inspirados no relacionamento humano romântico e apaixonado, produzidos por novos talentos da literatura nacional que demonstram, nesta linda obra, bastante personalidade com narrativas que encantam e emocionam o leitor. O livro reúne contos que abordam questões como relacionamentos proibidos, paixão arrebatadora, destinos cruzados, entrega incondicional, mas também traz contos que discorrem sobre as oportunidades perdidas e os desdobramentos de um amor que não foi correspondido.

“Observá-la pela primeira vez, para Alessandro, foi como olhar um arco-íris de tons pastéis... Começou pelos cabelos, muito lisos, que caíam na altura do pescoço, sem tocar-lhe os ombros. Eram de um azul-turquesa a princípio duvidoso, porém deliciosamente excêntrico quando observado com calma.”

“Ao fechar a porta do carro, ainda encarando os castanhos melancólicos, a jovem suspirou em derrota. Durante meses ela desejou reencontrá-lo para dizer que fizera falta, que o admirava, que aprendera a vê-lo mais do que um amigo. No entanto, agora, suas palavras em nada resultariam.”

SOBRE A ANTOLOGIA:
Equinócios de Amor é a materialização de uma iniciativa que nasceu com uma proposta audaciosa, de exortar novos autores à criação de contos que permeassem a sensibilidade existente no relacionamento apaixonado entre duas pessoas, e que reuniu, após duas fases eliminatórias, considerando as regras de utilização da língua portuguesa e os seus aspectos técnicos, 14 encantadoras histórias criadas pelos autores eleitos:
Agatha - Alamanda - Alaor Rocha - Aline T.K.M. =P - Augustos Reis - Denise Smith - Francine Porfirio Ortiz - Maggie King - R. Artur Freire - Ren Deville - Ricardo Biazotto - Wellington S.O.

FICHA TÉCNICA:
Gênero: Contos/Crônicas
Editora: Alcantis/APED
Ano: 2012/1ª Edição
Nº de páginas: 144
ISBN: 978-85-98792-35-4
Preço: R$ 19,90

LANÇAMENTO:
Quando? 03/05/2012
Que horas? A partir das 17h
Onde? Livraria da Travessa - Rua Sete de Setembro, nº 54 - Centro - Rio de Janeiro, RJ

10 de abril de 2012

A Arte da Invisibilidade [Allan Pitz]

“A arte da invisibilidade visa condicionar o homem moderno ao intelectualismo de avanço real e lógico, natural, em acordo com sua época. E, ousadia das ousadias, visa trazer de volta o homem pensador, que vagaria pelas prisões hipnóticas sem se deter a nenhuma delas. Apenas isso.”


Em A Arte da Invisibilidade, um tema que não é de todo novo nos é trazido acompanhado de metáforas interessantes e um humor característico. Um punhado de teoria da conspiração, a sociedade como órgão manipulador e objeto manipulado, e a plena consciência de tudo isso são abordados no livro. A diferença fica por conta de uma roupagem mais “pop” e bem-humorada – o sarcasmo é bastante utilizado aqui – que faz o assunto parecer menos complexo e mais atraente, principalmente aos olhos dos leitores mais jovens. Deparamo-nos com a ideia da existência de uma “matrix” capaz de controlar a sociedade e decidir seus rumos – inclusive, o livro faz referência à filosofia que permeia o filme Matrix. Escapar desta espécie de “ilusão” à qual somos todos submetidos e alcançar, portanto, a invisibilidade, é a principal proposta do livro.

O texto se desenrola na forma de um verdadeiro monólogo – como já avisa o subtítulo –, um desabafo do autor para com quem o lê. Não associem, porém, a palavra “monólogo” a um significado próximo de “entediante”, pois isso não seria verdadeiro. A leitura se faz de forma fluida e o livro é supercurtinho (132 páginas), daqueles que a gente até consegue ler na pausa do cafezinho (forcei, mas até que nem tanto!). Uma característica interessante foi que o autor bolou uma série de termos metafóricos para ilustrar suas ideias. Um glossário pode ser encontrado ao fim do livro com breves explicações dos termos.

Além disso, outro aspecto legal é a inclusão de frases de pensadores/escritores/filósofos intercalando os capítulos. O autor fez algo semelhante em Estação Jugular, e eu considero tal artifício realmente interessante.

Apesar do humor presente e do tema que, por si só, já é bastante interessante, fiquei com a impressão de que o autor esbarrou um pouco na repetição de ideias, além do texto adotar notável tom pretensioso em certos momentos. Enquanto algumas ideias aparecem e reaparecem, outros conceitos foram abordados apenas superficialmente – o que é, no caso, totalmente compreensível, já que entendo que o objetivo não tenha sido conceber uma “enciclopédia” sobre o assunto. O livro representa ótimo convite à reflexão aberta e sincera e, para aqueles que se interessarem, um incentivo à descoberta de todo o lado filosófico, sociológico (e etc) contido no tema.

Acho válido mencionar que o último capítulo faz um apanhado geral das ideias e conceitos apresentados no livro – aliás, tais ideias poderiam ser relativamente bem compreendidas com a leitura do referido capítulo apenas. Este é um ponto positivo, já que sintetiza toda a informação e ideias expostas, colocando um “pequeno kit para reflexão” pronto nas mãos do leitor.

Achei que esta foi uma leitura bastante válida, apesar de certamente não estar entre as minhas favoritas – ainda que o tema me seja fascinante. Incluindo um último comentário, pessoalmente, não gostei da sinopse da contracapa: achei-a “marketeira” demais e não totalmente condizente com a obra. O trecho na orelha do livro me pareceu bem mais apropriado, mas é só uma opinião pessoal. ;-)

Título / Título original: A Arte da Invisibilidade
Autor(a): Allan Pitz
Editora: Dracaena
Edição: 2011
Ano da obra: 2011
Páginas: 132

4 de março de 2012

Nam Van – contos de Macau [Henrique de Senna Fernandes]



Lançado originalmente em 1978, este foi o primeiro livro escrito por Henrique de Senna Fernandes (1923-2010). A obra reúne seis contos que, além de retratar o Macau das décadas de 30 a 50, reconstituem o ambiente humano, histórico e geográfico desta colônia portuguesa na Ásia. "Nam Van" é também o nome chinês da Praia Grande, em Macau, considerada centro da vida administrativa e social da cidade e zona residencial preferida de seus moradores, onde o autor nasceu e viveu.

*Macau é uma Região Administrativa Especial (RAE) da República Popular da China desde dezembro de 1999, composta pela Península de Macau e por duas ilhas (Taipa e Coloane). Foi colonizada e administrada pelos portugueses durante mais de 400 anos. Desde 1999, Macau atua sob os princípios do “um país, dois sistemas”, gozando de elevado grau de autonomia (possui estatuto especial, semelhante ao de Hong Kong). As línguas oficiais são o cantonês (dialeto chinês) e o português. Hoje em dia, porém, o português é corretamente falado por menos de 1% da população. A maioria esmagadora dos habitantes possui ascendência somente chinesa.
Curiosidade: São Paulo é uma das cidades-irmãs de Macau (no âmbito das relações sociais, culturais e econômicas).

Nam Van pinta um retrato de um local desconhecido para a grande maioria dos leitores brasileiros. Através de cada um dos contos, desvendamos paisagens, pessoas, culturas, tudo de forma bastante rica e detalhada. Somam-se a isso enredos envolventes em todos os contos, sim, eu disse TODOS os contos.

Ainda que muitos dos contos sejam narrados em primeira pessoa sob uma perspectiva masculina, as personagens femininas chamam especial atenção. Envoltas em mistério e possuidoras de força e, ao mesmo tempo, certa fragilidade, as mulheres que encontramos no livro parecem convidar o leitor a desvendá-las. Todos os personagens são muito bem trabalhados e se fundem com Macau como se fossem um só ser. As influências culturais e o momento histórico têm, obviamente, importante papel no que se refere aos personagens e enredos.

Diria que é impossível apontar um dos contos como tendo sido meu preferido; gostei muito de todos eles. Mas, só para citar, merecem destaque os seguintes: A-Chan, a Tancareira, Candy e A Desforra dum China-Rico.


São nítidas as relações um tanto complexas entre culturas distintas – a chinesa, a portuguesa e a macaense, esta última um produto do encontro Oriente-Ocidente – sobre um mesmo solo, Macau (tido como ponto de encontro e intercâmbio entre culturas). A integração entre tais culturas mostra-se dificultosa e, ao olharmos para o passado através dos contos de Senna Fernandes, compreendemos melhor a situação presente, em que a presença chinesa se mostra dominante (em relação à etnia da população, aos meios de comunicação, à língua,...). Uma vez que a porcentagem da população que realmente fala português seja mínima, a literatura lusófona produzida na Ásia, infelizmente, tende a extinguir-se. Segundo uma matéria publicada pela Bravo! (já há alguns anos) sobre o autor Henrique de Senna Fernandes, “muitos dos ficcionistas e poetas de expressão lusitana daquele continente permaneceram, e permanecem, distantes de algumas das principais conquistas literárias do idioma”.

Uma obra que, apesar de não chamar tanta atenção pela capa, atrai pelo tema e revela-se extremamente notável e merecedora de reconhecimento. Nam Van é um livro como poucos; muito mais que apenas ser lido, merece ser verdadeiramente explorado pelo leitor – que certamente adentrará um universo novo em termos de local e cultura, além de deliciar-se com uma narrativa envolvente e impecável.

Título / Título original: Nam Van – contos de Macau
Autor(a): Henrique de Senna Fernandes
Editora: Gryphus
Edição: 2008
Ano da obra / Copyright: 1978
Páginas: 138

5 de janeiro de 2012

5 motivos para ler Clarice Lispector

CLARICE LISPECTOR nasceu a 10 de dezembro de 1920 em Tchetchelnik, na Ucrânia. Seu nome de batismo era Haia Pinkhasovna Lispector; foi chamada Clarice ao mudar-se com sua família para o Brasil (mais precisamente para Maceió), em 1922. Naturalizada brasileira, Clarice sempre considerou o Brasil como sua verdadeira pátria. Faleceu no Rio de Janeiro, a 9 de dezembro de 1977.

Vamos aos 5 motivos?!

1. Seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, surpreendeu a crítica e ganhou o prêmio da Fundação Graça Aranha de melhor romance de estreia, em 1944.

2. Devido ao caráter introspectivo e existencial de sua literatura, Clarice teve seu estilo associado a escritores clássicos e consagrados, como Virginia Woolf e James Joyce – porém ela mesma afirmou nunca tê-los lido antes de escrever seu primeiro romance. Além disso, foi chamada de “Kafka da América Latina” pelo jornal New York Times.

3. Apesar de ser considerada pela crítica brasileira e estrangeira como uma das maiores escritoras do século XX, Clarice Lispector curiosamente se autodenominava amadora. Além de dizer que não escrevia por profissão, ela também recusava o título de intelectual – a autora utilizava da intuição e do instinto, e afirmava que não era uma pessoa de muita cultura.

A Hora da Estrela (capa)
4. A Hora da Estrela. Isso mesmo; provavelmente todo mundo aqui já ouviu falar da história de Macabéa, uma datilógrafa nordestina que migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Este é, talvez, o romance mais famoso da autora, e foi o último publicado antes de sua morte. Livro sensacional, figura com frequência nas listas de obras obrigatórias dos vestibulares – sem mencionar que, em algum momento do ensino fundamental ou médio, fomos apresentados a esta obra no colégio (felizmente!). Para reforçar ainda mais o quão especial é o livro A Hora da Estrela, sugiro que vejam o filme. Ele ilustra muito bem o livro, vale a pena. (A Hora da Estrela, dirigido por Suzana Amaral, 1985, Brasil.)

5. Além de escritora, Clarice Lispector foi colunista do Jornal do Brasil, do Correio da Manhã e do Diário da Noite. Utilizando-se de pseudônimos, a autora escrevia sobre beleza, moda e comportamento. Também, Clarice escreveu algumas obras destinadas ao público infantil.


PRINCIPAIS OBRAS:

Perto do Coração Selvagem (1943)
Laços de Família (1960) - contos
A Paixão Segundo G.H. (1964)
Água Viva (1973)
A Via Crucis do Corpo (1974) - contos
A Hora da Estrela (1977)


Existem, certamente, bem mais de 5 motivos para ler Clarice. Escolhi-a para este post em função da minha vontade imensa de descobrir mais e mais de suas obras. Eis uma autora que me encantou desde a primeira frase sua que li!

14 de dezembro de 2011

Ainda Não Te Disse Nada [Maurício Gomyde]


“Ninguém mais escreve cartas hoje em dia”, ela pensava. Até que um dia uma caiu em suas mãos e mudou o rumo de sua vida. Levou-a ao lugar que sempre sonhou. E a conhecer o amor do jeito que nunca imaginou, da forma mais improvável do mundo...

Ainda Não Te Disse Nada traz como protagonista Marina, 25 anos, garota do interior que estuda moda em São Paulo. Seu dia-a-dia começa no trabalho em uma agência dos Correios, seguido de uma parada no café de uma livraria (onde ela busca inspiração em revistas de moda e copia seus modelos favoritos), para então ir às aulas na faculdade (e colocar os assuntos em dia com as amigas Francesca e Thaís). Os finais de semana, Marina geralmente passa com os pais e os irmãos em São Pedro da Serra. A rotina segue seu ritmo, até que uma pequena grande “missão” surge na vida de Marina e traz consigo um turbilhão de mudanças, questionamentos e sentimentos inesperados.

Antes de mais nada, um aviso: ponham de lado sua faceta mais racional, suas rabugices e descrenças, e só então comecem a leitura. Este é um livro para as(os) românticas(os)!
Assim como em O Mundo de Vidro, a história é leve e apaixonante. Há pitadas de humor e muita descontração, mas também nos deparamos com belas frases que nos tiram o fôlego.

Ainda que narrado em terceira pessoa, vemos tudo através da perspectiva da protagonista. Marina é divertida e é a típica garota certinha, romântica, cheia de convicções – uma espécie de heroína romântica contemporânea. Os personagens são todos bastante divertidos e apresentam forte aspecto real – temos a sensação de que cada um se parece a alguém que conhecemos.

Se por um lado os personagens são bem humanos e “reais” (tal como o ambiente no qual estão inseridos), o enredo em si não é muito pé no chão. É justamente esta característica que o torna especial. O livro nos mostra uma protagonista “perfeita” em busca de seus sonhos, estes também carregados de boa dose de perfeição. A leitura flui com enorme facilidade e o enredo envolve o leitor a ponto de fazê-lo deixar-se levar completamente pela história. Os trechinhos de músicas transcritos dão um toque especial à leitura. (Vocês podem ouvir a trilha sonora do livro no blog do autor)

Finalizei a leitura com certa curiosidade em relação a alguns detalhes sobre os acontecimentos finais. Gostaria de ter lido em detalhe a sucessão de alguns fatos responsáveis pelo final do livro. Esta curiosidade foi bem particular, não sei se os demais leitores compartilhariam da mesma opinião. Apesar desse pequeno “porém”, o encanto da história é preservado; se não temos todos os detalhes que ansiamos, o livro certamente nos dá ferramentas para criar tais cenas em nossas mentes.

Uma leitura deliciosa, para se envolver e se perder completamente na delicadeza de uma singular história de amor!

Título: Ainda Não Te Disse Nada
Autor(a): Maurício Gomyde
Editora: Porto71
Edição: 1ª (2011)
Ano da obra: 2011

Não deixem de participar do sorteio valendo 1 exemplar autografado de Ainda Não Te Disse Nada, e ainda concorra a 1 iPad 2. Só até 19/12! Saiba mais.

Se tiver interesse em comprar o livro, ele está disponível aqui.

4 de dezembro de 2011

5 motivos para ler José Saramago

José Saramago (1922-2010) foi um escritor português de grande importância e reconhecimento, tendo escrito não apenas romances, mas também poemas, peças de teatro, contos, entre outros.

Motivos para ler sua obra? Há muitos! Confiram 5 deles:

1. Possui estilo único de escrita, o que conquista a admiração de muitos, também é responsável por tantos outros não gostarem ou acharem suas obras “difíceis”. O estilo saramaguiano é marcado pelo uso de períodos longos e pontuação fora do convencional, aspectos característicos de uma linguagem oral.

2. Foi o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Além disso, ganhou o Prêmio Camões (1995) – o mais importante prêmio literário de língua portuguesa.

3. Seus enredos são incríveis. Encontramos enredos de época e com personagens da História em seus romances mais antigos; em sua fase “mais recente”, nos deparamos com uma análise – muitas vezes cruel – da sociedade contemporânea e mergulhamos em questões da existência humana. Saramago nos mostra situações caóticas em um mundo tal como o conhecemos – eleições em que todos votam em branco, uma epidemia de cegueira, a morte cessa de trabalhar e as pessoas param de morrer,...

4. Seu livro Ensaio Sobre a Cegueira teve adaptação para o cinema em 2008, sob a direção de Fernando Meirelles. Um filmaço, em minha opinião.

5. Sua carreira foi envolta em diversas polêmicas, principalmente em relação à Igreja Católica. Ateu, expôs em suas obras fortes críticas à Igreja e à Bíblia, o que acarretou em tensas relações com a Igreja Católica e críticas por parte da mesma.


PRINCIPAIS OBRAS:

Memorial do Convento (1982)
O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991)
Ensaio Sobre a Cegueira (1995)
O Homem Duplicado (2002)
As Intermitências da Morte (2005)
Caim (2009)

12 de novembro de 2011

Lucíola [José de Alencar]


Independente e altiva, Lúcia, a mais rica cortesã do Rio de Janeiro, não se deixava prender a nenhum homem. Até conhecer Paulo. A partir daí, ela se vê totalmente entregue; tudo o que quer é permanecer junto dele. Esse romance passa a ser o assunto mais comentado na Corte. Os comentários chegam aos ouvidos de Paulo e o incomodam profundamente. Valeria a pena romper seu relacionamento só para manter a boa imagem diante das pessoas?

Clássico do Romantismo brasileiro, Lucíola retrata o amor entre Lúcia, cortesã de luxo, e Paulo no Rio de Janeiro do século XIX. No decorrer do livro acompanhamos a transformação (“purificação”) de Lúcia. O livro faz parte dos “perfis de mulheres” de Alencar (junto com as obras Diva, A Pata da Gazela e Senhora).
Na época, o romance foi bastante criticado por mostrar o problema social da prostituição, que era conhecido porém tratado com indiferença. Houve críticas também devido ao não uso do Português clássico.

Lucíola é narrado em primeira pessoa por Paulo, sendo um relato de seu relacionamento com Lúcia que ele escreve a uma suposta senhora. Com isso, ele tem por objetivo mostrar que mesmo levando uma vida leviana é possível manter a nobreza da alma.

Esse é um livro que não li quando devia (lá no ensino médio); na época julguei a leitura desnecessária devido a uma super aula explicativa a respeito do mesmo (apesar de ser uma leitora ávida desde a infância, claro que eu torcia o nariz para alguns livros de leitura obrigatória, como todo adolescente, imagino eu). Mas o interessante disso é que não me arrependo de não tê-lo lido então: essa leitura, hoje, me proporcionou um prazer que na época acredito que não teria sido igual.

Adianto que não é um livro difícil ou enfadonho. A narrativa é gostosa e flui com facilidade, os personagens são envolventes (ainda que, muitas vezes, incompreensíveis em seus atos) e a história de amor entre os protagonistas é particularmente bela.

Edição que li: traz um bom
material de apoio didático
O mais interessante neste romance urbano é notar as particularidades comportamentais da sociedade da época, além da hipocrisia e falso moralismo retratados. A preocupação com a reputação e a boa imagem perante a sociedade faz com que Paulo aja de forma contraditória, causando complicações e sofrimento à relação com Lúcia. Interiormente, Paulo mostra-se mesmo bem frágil no que diz respeito ao amor. Apesar de ser narrado por Paulo, percebemos que Lúcia demonstra ter consciência de seus atos e um constante sentimento de culpa que a atormenta. Nela, anjo e demônio vivem e dividem o mesmo espaço. O amor, através de Paulo, resgata sua pureza, sendo o agente de sua redenção.

Apesar da maioria de nós conhecermos já o enredo e o final de Lucíola devido a certa familiaridade com a obra no período escolar, recomendo fortemente a leitura. Se você ignorou essa leitura na escola (como eu fiz), leia-a agora: considero um desperdício não ler algo de tamanha qualidade. E se você já leu a obra há alguns anos atrás, no ensino médio, leia-a novamente: certamente a leitura será feita sob um novo e mais prazeroso olhar.

(Destaco em especial a edição que li – esta da capa logo acima, à direita – que, mesmo sendo meio velhinha, traz uma introdução bastante didática a respeito do momento histórico e do Romantismo, além de informações biográficas do autor. Também conta com notas de rodapé muito úteis durante a leitura.)

Título / Título original: Lucíola
Autor(a): José de Alencar
Editora: Moderna
Edição: 1993 (Coleção Travessias)
Ano da obra / Copyright: 1862

10 de outubro de 2011

O Voo da Estirpe [Adriana Vargas Aguiar]

O review de hoje traz uma obra participante do Clube dos Novos Autores. Para quem não conhece a iniciativa, vale a pena visitar o blog. =)

Uma história de amor que ultrapassa barreiras. Clarice vive seus dias sem realmente se dar conta de que está viva, sem aproveitar cada instante e cada sopro de vida em seus poros. Até conhecer Klaus, portador de uma doença terminal. O amor é inevitável e vem acompanhado do medo da perda. Através de Klaus, Clarice descobre o que significa viver e, a partir de então, liberta-se de antigos padrões para finalmente encontrar-se com ela mesma, em um importante ciclo de autoconhecimento.

O Voo da Estirpe – primeiro livro da trilogia de mesmo nome – traz uma leitura rica em conteúdo. Repleto de sentimento, o enredo emociona e incentiva a reflexão. Diria até que é praticamente impossível ler o livro e não ser tocada(o )por ele em nenhum momento.

Clarice, a personagem central, nos narra em primeira pessoa toda a transformação pela qual sua vida é submetida. E essa característica da narração é, a meu ver, mesmo fundamental para que a história tenha certo tom pessoal, aspecto que envolve o leitor como se este recebesse confidências com o coração aberto.

Ainda mais que os acontecimentos em si, o que realmente cativa o leitor são os personagens, Clarice e Klaus, tão humanos em suas qualidades e defeitos, erros e acertos. Inclusive arrisco dizer que todo mundo tem um pouco de Clarice em si. Através da jornada ao encontro de sua essência como ser humano, somos levados a olhar para o interior de nós mesmos e, nem que seja por um instante, passamos a ver a vida portando outras lentes. Já Klaus, por sua vez, lida com sua condição de maneira admirável – chega a ser meio surreal, confesso, mas ainda assim, carrega grandiosa beleza em seus atos.

Durante a leitura, alguns aspectos da narrativa me incomodaram um pouquinho (em relação à pontuação, no geral), mas friso que se trata de uma opinião realmente pessoal. No mais, a leitura flui com naturalidade, sendo bem possível devorar o livro em poucas horas.

Para finalizar, O Voo da Estirpe nos brinda com uma leitura que nos torna incapazes de encarar com indiferença. O livro é tocante e acredito que, após lê-lo, ninguém sairá ileso.

Título / Título original: O Voo da Estirpe
Autor(a): Adriana Vargas Aguiar
Clube dos Novos Autores
Ano: 2011

4 de setembro de 2011

O Mundo de Vidro [Maurício Gomyde]


Até onde pode ir a paixão de uma pessoa por outra? Como, quando e por que começa?
Até que ponto pode-se cometer alguma loucura para fazer parte da vida de alguém?
Quais as consequências da paixão avassaladora incompreendida? E quando não se admite a óbvia paixão por outra pessoa?


Em O Mundo de Vidro, Maurício Gomyde conta a história de duas pessoas, Ele e Ela. Ele é um cara tímido e sem muita experiência no amor, que a conhece por acaso e logo se vê tomado por uma paixão inexplicável e incontrolável. Linda e inteligente (e arrasada pelo término de um relacionamento), Ela tem inúmeros pretendentes que tentam tê-la a todo custo. E é neste cenário que Ele fará de tudo (ou quase) para conquistá-la.

Primeiramente, confesso que no início não botei muita fé. Até cheguei a achar as pitadas de humor um pouco irritantes, às vezes. Mas foi só uma impressão precipitada e equivocada; a cada capítulo, O Mundo de Vidro certamente ganhou minha simpatia.

Os personagens centrais, Ele e Ela, são bem reais, podem ser qualquer um ou todos nós. No começo, Ele me irritava consideravelmente. Achava-o realmente estranho, e queria mesmo dar uns tapas nele a cada vez que soltava o tal de “Er... Aham... Cof... Cof...” antes de cada frase falada. Porém, ao longo da história, já não o via mais como um ser tão estranho e comecei a me divertir com os acontecimentos em torno dele. Acho legal destacar os “personagens de estimação”: Ela com um basset chamado Paul Macartney, tarado por grudar nas pernas alheias; Ele com uma papagaia chamada Horácio (mas é fêmea mesmo!) que não era nada convencional em suas falas.

Uma característica que merece atenção é que, embora narrado em terceira pessoa, o livro parece mostrar tudo em um ponto de vista mais masculino. A meu ver, é um aspecto bastante positivo e confere um tipo de humor e comentários que, talvez, não rolassem se a perspectiva dos fatos pendesse para o lado feminino.

A leitura é super leve e o livro é do tipo que a gente devora rapidamente, dada a curiosidade para saber o desfecho. É divertido e tem algumas doses de romantismo e frases bonitas, conforme a leitura avança.

Em O Mundo de Vidro, basicamente, vemos o processo da conquista e percebemos a maneira em que tantas vezes o ser humano complica o que não deveria ser complicado. Trata-se de uma leitura que, para mim, valeu a pena; certamente a recomendaria aos que tenham interesse em temas acerca de relacionamentos com um toque descontraído.

(Ah, para quem ficou curioso do porquê do título – eu, pelo menos, estava bem curiosa antes da leitura –, ele é revelado ao longo do livro e de uma forma bastante bela!)

Título / Título original: O Mundo de Vidro
Autor(a): Maurício Gomyde
Editora: Porto 71
Edição: 3ª - 2011
Ano da obra / Copyright: 2011

21 de julho de 2011

Estação Jugular [Allan Pitz]

Graças à parceria com o autor Allan Pitz, o post de hoje traz o review do livro Estação Jugular. Agradeço MUITO ao Allan pelo livro e marcador (autografados!!!). =D

Não posso começar a falar do livro sem antes dizer uma coisa: Estação Jugular me surpreendeu de maneira muito positiva. Os motivos foram vários, principalmente a abordagem do tema e a veracidade que os personagens transmitem ao leitor.

Estação Jugular nos coloca a bordo de um ônibus dirigido por um motorista bastante peculiar, que conduz um único passageiro – Franz – a um destino que nem ele próprio sabe qual é. Franz, a princípio, foge de um sol castigante, sem saber exatamente onde se encontra e para onde vai. Aos poucos, e mesclando-se à confusão e às imprevisíveis visões de sua jornada a bordo do ônibus, a memória de Franz nos revela (e revela a si mesmo) os acontecimentos anteriores que culminaram no presente momento.

O livro, de fato, nos leva nessa viagem junto a Franz. Enxergamos através dos seus olhos cada etapa, cada “absurdo” e, por fim, cada descoberta. As pitadas nonsense me foram deliciosas, e as referências a obras de Van Gogh doam uma “loucura visual” que enriquece todo o cenário em nossas mentes. Através de associações e metáforas, cada capítulo nos coloca a refletir e é muitas vezes concluído com uma frase de alguma personalidade célebre, o que incentiva o pensamento a percorrer caminhos mais profundos. Achei super pertinente a inclusão de tais frases – um ponto mais que positivo do livro, em minha opinião.

Deixo aqui um trecho que possui um significado bastante verdadeiro acerca da existência humana:
Nesse tempo mudo vivi a infância outra vez; e mais doce e tenro do que antes eram os deleites de não saber nada sobre tudo. E correr atrás de qualquer sonho, qualquer esperança... Depois da infância tudo o que vi foi o amanhecer de um lobotomizado comum, fanático pela manutenção íntegra de si mesmo, fanático de si.

A leitura acontece de forma muito fluida e mantém o leitor suspenso em uma curiosidade constante. Mesmo quando o leitor já palpita sobre o que está realmente acontecendo com o personagem central, e quando as revelações começam a se desdobrar, a avidez por saber o que ocorrerá com Franz não deixa de estar presente em nenhum momento. Fiz a leitura em um único dia, e não foi só devido às pouco menos de 100 páginas (é, o livro é curtinho), mas sim pela curiosidade de saber como tudo iria terminar. Soma-se a isso o fato de que gostei da forma como o tema é apresentado e desenvolvido. Não dá para dar detalhes do tema em si porque seria um baita de um spoiler (e não é essa a minha intenção ao escrever os reviews).

No mais, o livro merece ser saboreado, mas não com calma, já que o leitor provavelmente vai ver que este não é o tipo de leitura que dá para ser feita em doses homeopáticas. O livro tem um ritmo próprio, aceleradinho, e não tem como lê-lo de outra forma. Estação Jugular, a meu ver, é um livro que tem personalidade e sabe ser original.

Título / Título original: Estação Jugular – Uma estrada para Van Gogh
Autor(a): Allan Pitz
Editora: Multifoco (selo Desfecho Romances)
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011

27 de junho de 2011

Lançamentos Editora Baraúna

Trago aqui para vocês dois lançamentos nacionais (mais literatura brasileira para a gente conhecer!) da Editora Baraúna:




PERDIDA - Um amor que ultrapassa as barreiras do tempo
Carina Rissi

Sofia vive em uma metrópole e está habituada com a modernidade e as facilidades que isso lhe proporciona. Ela é independente e tem pavor à menção da palavra casamento. Os únicos romances em sua vida são os que os livros lhe proporcionam. Mas tudo isso muda depois que ela se vê em uma complicada condição.







MAJDANEK - O caminho sem volta
Paulo de Tarso

O romance se passa entre a Polônia e a Alemanha nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial. Um encontro transformou a vida de dois jovens europeus que tinham tudo pela frente. Tudo menos o que eles não imaginavam que acontecesse. Viva com eles essa aventura forçada, inesperada, dolorosa e desesperada. Num mundo que não queremos mais. Um mundo que não poderia ou deveria mais existir.

18 de abril de 2011

Vi na Livraria: A Mulher de Vermelho e Branco


A MULHER DE VERMELHO E BRANCO – Contardo Calligaris
Carlo Antonini recebe uma nova paciente em seu consultório, em Nova York. O que parece uma consulta trivial, pouco antes de uma viagem que o terapeuta fará a São Paulo para uma palestra e alguns dias de férias, desencadeia uma trama envolvendo um casamento conturbado, uma organização suspeita de terrorismo, um assassinato e uma história familiar de vingança. O livro traça o paralelo aparentemente improvável entre o que Antonini desconfia se esconder sob as palavras de sua paciente - a descrição de uma festa com seus dois filhos na qual tudo será "vermelho e branco" - e o encontro fortuito, num restaurante do bairro da Liberdade, com uma namorada vietnamita dos tempos em que morou em Paris.

A Mulher de Vermelho e Branco no SKOOB


Livro fresquinho - 1ª edição lançada agora em 2011 -, e mesmo na página do Skoob não há nada sobre ele, apenas a sinopse. Não pude esconder a curiosidade e é por isso que ele foi a escolha para este Vi na Livraria.

Sobre o autor: Contardo Calligaris, psicanalista e ensaísta, nasceu na Itália e se formou na França, onde viveu 20 anos. Casado com uma brasileira, radicou-se no Brasil, onde atende e assina uma coluna na Folha de S. Paulo. Foi professor da New School for Social Research, em Nova York, e da Universidade de Berkeley.

27 de fevereiro de 2011

Relações de Sangue

Maria Clara Baumgarten levava uma vida bem normal até conhecer a vampira Lucila, cujos olhos castanhos grandes e inocentes enganariam até o mais desconfiado dos humados, quanto mais a pobre Clarinha.
Um vampiro traz o outro, e logo ela está às voltas com Daniel, um inescrupuloso vampiro de programa. Moreno, alto, bonito e sensual, ele precisa da ajuda da humana e da vampira para encontrar o assassino em série que está atacando suas "clientes".
Mas... e se o assassino encontrar Clara primeiro?

A sinopse acima é a original da contracapa de Relações de Sangue (de Martha Argel), do qual postei o release editorial anteriormente. De uns tempos para cá, mistério e vampiros têm sido dois ingredientes que parecem mais que certeiros para cair no gosto dos leitores. Relações de Sangue une essas duas características, mas não de um jeito tão óbvio como vemos aos montes por aí. A ideia principal do livro é original e a capa também me atraiu bastante. Antes de iniciar a leitura, já achava que provavelmente iria gostar do livro, mas não foi exatamente assim. Sendo simples e direta: o livro não me agradou.

Não gostei das personagens, achei-as insossas. Os acontecimentos são narrados em primeira pessoa por Clara, protagonista da história, que é a personagem que mais me irritou no decorrer do livro. Todo o tempo Clara utiliza-se do sarcasmo e de tiradas que tentam ser engraçadas; em vão, devo completar. E é assim em todo e cada comentário da personagem, o que faz com que o sarcasmo fique batido e óbvio demais; Clara me pareceu uma adolescente querendo ser a palhaça da turma, o que não condiz com a personagem em si.

Podemos olhar pelo ângulo de que o real objetivo é que os acontecimentos sanguinolentos, unidos ao mistério e medo, tenham uma pegada cômica. Ok, faz sentido. Mas ao final do livro, temos reflexões um tanto melancólicas por parte da protagonista, referindo-se a todo o ocorrido como algo que ela jamais poderá apagar da memória, como se tudo tivesse sido um grande ferimento cujas cicatrizes permaneceriam eternas. Tudo isso para depois finalizar com mais um super comentário cômico de Clara. Ou seja, como Clara realmente encarou os fatos vividos? Foram trágicos, porém cômicos? Ou foram traumatizantes de verdade? Terminei o livro sem saber ao certo o que verdadeiramente sentiu a protagonista acerca de tudo aquilo que viveu. Prefiro concluir que nem ela mesma sabia o que pensava e o que desejava, mesmo depois, ao final da história.

A segunda edição, da Giz Editorial, traz um bônus no final. Trata-se de um conto que nos revela como Clara e a vampira Lucila se conheceram. Achei-o interessante, nada além disso.

Apesar de minha opinião negativa, o livro é de fácil leitura, nada cansativo. Além disso, o fato de toda a história se passar em São Paulo foi algo que me pareceu atrativo. Como disse antes, a ideia toda do livro é interessante, mas acredito que poderia ter sido melhor explorada. Para mim, a história permaneceu em um nível bastante superficial, e as personagens em nada ajudaram para fazer com que eu me envolvesse. Este, decididamente, não é um livro que eu recomendaria; exceto no caso de leitores aficionados por vampiros que procuram e têm curiosidade por tudo relacionado ao tema.

Título: Relações de Sangue
Autor(a): Martha Argel
Publicação original: 2010

15 de fevereiro de 2011

Estrela Píer - O tempo, a chuva, o outro

Depois de longos meses, estou de volta aqui no blog! Abaixo escrevo sobre um livro que li há meses e que é queridinho de todas as blogueiras literárias por aí. Trata-se de Estrela Píer, de Kamila Denlescki.

Em meio à onda Crepúsculo, devo confessar que, de início, o livro não me chamou atenção; parecia só mais uma história de amor proibido, vilão que é mocinho (ou mocinho que é vilão, como preferirem), e algo de macabro permeando os acontecimentos. De fato, Estrela Píer tem todas estas características, mas a obra não é tão previsível, e segue caminhos que chegam a surpreender e deixar um gostinho de “quero mais”.

O livro narra, em primeira pessoa, a história de Lucia Píer Eli, garota amante de literatura e que trabalha na biblioteca de uma escola. Sua vida com a avó e a irmãzinha parece normal e insossa, até que vence um concurso para conhecer o astro juvenil Richard Clevehouse em Londres.

O desenrolar da paixão entre Lucia e Richard é algo gostoso de ler, divertido, e é impossível não torcer por eles. O clima de tensão e perseguição se mostra presente durante todo o tempo, dando ao livro certo ritmo e fazendo com que não se torne entediante. Além disso, Londres e Santorini como background dos acontecimentos dá um colorido a mais e, ao mesmo tempo, uma sensação etérea, como se tudo estivesse perdido em algum lugar entre sonho e realidade.

É interessante ver como a autora dá um toque de ficção científica à história, o que vi como positivo mesmo que, em vários momentos, sentisse falta de algo mais aprofundado sobre o tema. Finalizei o livro com muitas perguntas que não foram respondidas e, de fato, o livro termina de uma forma que sugere que a história ainda não chegou ao final. A percepção que tive é a de que o livro foi concebido já com planos de uma possível continuação. É inevitável não ficar curioso quanto ao futuro de Lucia e Richard e, se me perguntarem, diria que tenho vontade/curiosidade de ler uma “parte II” disso tudo; porém gostaria que mais detalhes tivessem sido esclarecidos e que mais respostas tivessem sido dadas.

Recomendo o livro, acho que está super dentro do molde para o público pré-adolescente e adolescente. A linguagem é simples e a leitura flui de forma nada cansativa, além do livro possuir diversas características que, em minha opinião, fazem com que o público se identifique facilmente.

Não posso deixar de comentar que a Kamila é uma fofa (recebi o livro autografado por correio há muitos meses atrás e peço sinceras desculpas por publicar a resenha somente agora). Aliás, o breve texto sobre a autora na aba do livro ganha a simpatia de quem o lê no mesmo instante.

Finalizo o post dizendo que torço pela carreira da Kamila. E tenho certeza de que não são poucos os leitores que aguardam ansiosamente por uma continuação de Estrela Píer!

Título: Estrela Píer
Autor(a): Kamila Denlescki
Publicação original: 2009

29 de maio de 2010

Lançamento - Zumbis: Quem disse que eles estão mortos?

No dia 06/06/2010 (domingo) acontecerá o lançamento do livro Zumbis: Quem disse que eles estão mortos?, uma coletânea com a participação de vários autores e com Ademir Pascale como organizador.

Local: Ludus Luderia, Bar e Café - Rua Treze de Maio, 972, Bela Vista, São Paulo
Horário: das 17h às 21h.
Entrada franca
Clique no convite ao lado para vê-lo ampliado.

Compareça para um bate-papo, aproveite e pegue o seu autógrafo!

Em pleno século XXI eles foram quase esquecidos, mas nos espreitam constantemente pelas sombras. Sabe aquele friozinho na espinha que sentimos quando parece que alguém está escondido nos espiando? Pode acreditar, são eles: criaturas cadavéricas, mortos-vivos, seres infernais e catatônicos, ou popularmente chamados de “zumbis”. Afinal, quem disse que eles estão mortos?

Fuja das sombras. Passe longe das tumbas. Corra o máximo que puder. Conheça a trajetória desses horríveis canibais em contos contundentes com heróis, mocinhas e cidades infestadas pelos malignos servos dos rituais necromânticos.

SKOOB: Zumbis: Quem disse que eles estão mortos?
VÍDEO: Zumbis: Quem disse que eles estão mortos?

12 de abril de 2010

Draculea - O Livro Secreto dos Vampiros

“Quais mistérios eles escondem por gerações? (...) Mas, antes de abrir estas páginas, um aviso: após lê-las, você nunca mais será o mesmo. O conhecimento tem seu preço, e eles ficarão furiosos com a sua descoberta.”

Draculea – O Livro Secreto dos Vampiros é uma antologia de 27 contos vampirescos, todos escritos por autores nacionais. Particularmente, gosto muito de contos. Ter várias historietas diferentes em um só livro geralmente faz com que a leitura nunca se torne cansativa. E ser um livro de autoria nacional é um aspecto que o torna mais interessante; acho animador que cada vez mais brasileiros tenham interesse em escrever literatura fantástica.

Apesar de todo o livro tratar-se de vampiros, a atmosfera de cada conto é, de alguma forma, singular. Alguns são mais dramáticos, outros são temperados com boa dose de agressividade, e alguns ainda revelam uma faceta curiosamente cotidiana dos fantásticos seres sobrenaturais. Um ponto bastante positivo é que existe no livro uma mistura entre passado e presente. Enquanto alguns contos retratam séculos passados, outros nos mostram um mundo contemporâneo, tal como o conhecemos hoje. Um vampiro em plena Avenida Paulista é algo interessante de se imaginar.

Os contos são breves, de leitura agradável e fácil. Draculea – O Livro Secreto dos Vampiros é uma boa pedida para ser lido de uma só vez, ou para ser saboreado aos poucos, conto por conto, durante alguns dias.

Para finalizar, uma verdade deve ser dita: vampiros são – e sempre serão – seres instigantes e de grande poder de fascínio!

Título: Draculea – O Livro Secreto dos Vampiros
Autor(a): vários, Ademir Pascale (organizador)
Publicação original: 2009

16 de março de 2010

Incomodada ficava a sua avó

Apesar de ser formada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, raras vezes me vi interessada em um livro sobre o tema. Cheguei a ler umas poucas “partes importantes” de alguns livros, conforme a necessidade para trabalhos e provas da faculdade. E só. Até que chegou às minhas mãos este livro aí ao lado, Incomodada Ficava a sua Avó; desde que o li, ocupa o posto de um dos únicos livros que gostei – e que li inteiro – acerca do tema Propaganda.

“Anúncios que marcaram época e curiosidades da propaganda”. Como diz o subtítulo, o livro é composto por uma coletânea de anúncios antigos acompanhados por crônicas bem-humoradas do renomado publicitário Lula Vieira, publicadas no Jornal do Commercio. Mas o que torna este livro tão atraente é que, através dos anúncios, mostra um verdadeiro reflexo do que era a sociedade brasileira e seus costumes nas décadas de 20, 30, 40,...

Surpreende ver como o preconceito por vezes aparecia de forma natural nos anúncios (coisa que não seria aceita com bom humor nos dias de hoje), a forma cruel com que os anúncios se dirigiam aos gordos, e o glamour e a elegância do hábito de fumar (chegando ao absurdo de se anunciar que determinado cigarro não afetava negativamente o organismo). É também bastante interessante ver os anúncios publicados durante a Segunda Guerra Mundial, em que diversas empresas paravam momentaneamente sua produção habitual para dedicar-se unicamente à produção de equipamentos para as Forças Armadas, fazendo com que determinados produtos se tornassem impossíveis de serem adquiridos. Um anúncio da Philco, por exemplo, dizia que os esforços para a guerra trariam algum bem para a humanidade, já que “os laboratórios da Philco estão realizando milagres na ciência eletrônica, muitos dos quais têm direta aplicação em produtos de tempo de paz”. Já a fabricante de máquinas de escrever Smith Corona, orgulhosamente, dizia que “os que atualmente possuem as máquinas L C Smith estão de sorte”, uma vez que “eles sabem que as suas L C Smiths durarão todo o período da guerra com o mínimo de serviços de reparação”.

O livro nos faz viajar por épocas em que os anúncios falavam ao público de forma rebuscada, com textos que divertem ao serem lidos atualmente. Você por acaso imaginaria que ao utilizar os Batons Michel seus lábios ganhariam “repentinamente a suavidade e a brandura dos lábios de uma menina”? Ou então, que o mesmo produto na tonalidade Amapola daria a seus lábios “o poder cativante da formosura divina”? Eu realmente gostaria de saber que poder é este!

Outra característica muito presente nos anúncios de tempos antigos é a presença de promessas impossíveis na forma de produtos milagrosos, capazes de curar 2.578 enfermidades, garantindo uma velhice feliz e saudável. Para as mulheres havia a Pasta Russa, que prometia levantar e “reativar” os tecidos dos seios (silicone para quê, não é mesmo?), uma vez que seios bonitos “são o tesouro mais precioso da mulher”, conforme dizia outro anúncio da época. Já para os homens, o fantástico Potentol garantia o equilíbrio das funções orgânicas, sendo a função sexual a mais importante; tudo muito bem dito e finalizado com as seguintes palavras: “Potentol dá alegria a uma vida triste”.

E a diversão continua com os anúncios de desodorantes, com clara intenção didática, em uma época em que seu uso era quase desconhecido. Merecem especial destaque os anúncios da Coca-Cola, com seus layouts bonitos e bem acabados, e a aparentemente impossível tarefa de introduzir a bebida no mercado brasileiro.

Enfim, poderia continuar falando dos anúncios por horas! É um livro que merece ser lido e que garantirá boas risadas, surpresas e momentos de nostalgia (no meu caso, uma nostalgia curiosa que costumo sentir às vezes... sabe aquela “saudade” de épocas que não vivemos?). Durante a leitura é possível notar como vários anúncios, criados há muitas décadas atrás, ainda são bastante atuais e funcionariam nos dias de hoje, não fosse um ou outro detalhe. É um livro para todos, independentemente se possuem alguma ligação ou prévio conhecimento em Publicidade e Propaganda. Os capítulos possuem títulos aleatórios, simplesmente agrupando as crônicas por assunto. Os anúncios não são apresentados em ordem cronológica, e nem os temas são abordados de forma muito aprofundada. Como diz o autor, “é uma conversa aberta sobre propaganda, onde o assunto principal serve como fio condutor, como pontapé inicial”.

É um livro muito agradável de ser lido, com textos curtos e muitas imagens. Mas ao contrário do que podem pensar, não o li em um só fôlego, mas o fiz de forma gradual e contínua, mantendo-o em minha cabeceira durante boas semanas. Todo noite eu o pegava e consumia uma pequena dose diária do mix de informação/curiosidades/humor que o livro oferece. E posso dizer que o resultado foi satisfação garantida!

Em tempo: esclarecendo o nome do livro, “Incomodada ficava a sua avó” é o título (em forma de trocadilho) de um anúncio de absorvente íntimo, já que antigamente não se referia à menstruação de forma direta – o período menstrual era chamado de “incômodo”. Com a criação dos novos absorventes íntimos, segundo o autor, “o lançamento de um deles marcava a diferença das duas épocas, dramatizando a diferença da atitude e da própria linguagem”.

Finalizo aqui com um trecho de uma das crônicas que compõem o livro:
“Acredito que entre as coisas que o mundo moderno esqueceu, o pó-de-arroz é uma das perdas mais dramáticas. Sem ele é muito mais difícil e caro fazer ‘sua presença maravilhosa nos footings elegantes, nos salões e no convívio aristocrático’. Aliás, junto com o pó-de-arroz, acabou também esse tal de convívio aristocrático democrático e universal. Já delirando – efeito do pó – eu diria que o desaparecimento do pó-de-arroz em nossa sociedade é a causa de toda a desigualdade social. Afinal, como se vê nos anúncios, para se freqüentar ‘os theatros e casinos’, bastava usar um pouco de pó-de-arroz.”

Título: Incomodada Ficava a sua Avó
Autor(a): Lula Vieira
Publicação original: 2003

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