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6 de setembro de 2012

Cadernos de viagem, encontro de arte + literatura

Este post estava no forno há meses e a ideia inicial era fazê-lo em forma de vídeo. Mas quem está sempre por aqui já notou que até hoje só fiz 2 vídeos para o blog. Não é má vontade e nem preguiça, juro. É só que me falta um “ânimo interior” para fazer mais vídeos. Um dia eu supero isso!
Então, vamos ao que interessa...

VOCÊS CURTEM LITERATURA DE VIAGEM?
MAIS PRECISAMENTE, JÁ VIRAM/LERAM UM DIÁRIO OU CADERNO DE VIAGEM?




LITERATURA DE VIAGEM
É o relato/escrita de viagem acrescida de valor literário; as memórias das experiências do autor ao visitar um local em situação de viagem. A narrativa é coerente, e a estética é importante – não se trata da simples enumeração de datas e eventos. Geralmente, é baseada em relatos de viagens reais, mas também pode aparecer em forma de ficção.

A literatura ou relato de viagem espalhou-se bastante durante os séculos XV e XVI, com os grandes Descobrimentos. Relacionava-se à necessidade de registrar informações geográficas, atmosféricas, rotas... Mais adiante, foram incorporados aspectos mais antropológicos devido à curiosidade e à própria vontade de descrever os cenários, os povos e seus costumes, a fauna e flora. Tudo era novo e exótico, portanto merecia ser registrado!

A literatura de viagem, de maneira geral, compreende roteiros, diários de bordo (apontamentos de marinheiros, viajantes ou escrivães), cartas enviadas aos reis. Um exemplo bem conhecido é A Carta, de Pero Vaz de Caminha. É possível encontrar narrativas de viagens de épocas ainda mais distantes – como Odisseia (de Homero) e As Viagens de Marco Polo. Como exemplos mais recentes, podemos citar Diários de Bicicleta (de David Byrne), além de algumas obras do brasileiro Érico Veríssimo (México - história duma viagem, Israel em abril, etc).


E OS DIÁRIOS E CADERNOS DE VIAGEM?
O diário ou caderno de viagem é um gênero que mescla literatura e arte. Geralmente traz a viagem em seu sentido mais amplo, mostrando a descoberta e exploração do desconhecido, podendo o contexto girar em torno de um tema específico ou não. Além disso, a impressão pessoal do autor é muito forte e essencial neste tipo de obra, que muitas vezes tem caráter subjetivo.
O diário de viagem normalmente apresenta pouco texto (muitas vezes disperso pelas páginas) e um importante aspecto plástico - croquis, desenhos, composições a partir de colagens ou fotos. Muitos escritores-artistas utilizam o popular Moleskine para conceber suas obras.

Resolvi falar sobre cadernos de viagem aqui no blog justamente porque, após quase um ano morando na França, notei que não é um gênero muito difundido aqui no Brasil.
Na Europa, os cadernos de viagem são muito apreciados e há editoras que se especializam neste nicho – estagiei em uma delas, inclusive.

Ainda, existe um evento anual acerca dos cadernos de viagem na cidade francesa de Clermont-Ferrand. O Rendez-vous du Carnet de Voyage* acontece todos os anos desde 2000 e traz exposições de cadernos de viagem, encontros (com carnettistes, autores e ilustradores), projeção de filmes, além de palestras, ateliês e premiações de obras e artistas. Cada edição prioriza um ou alguns temas (geralmente um país ou região do mundo). O tema de destaque da 13ª edição, que ocorrerá em novembro deste ano, é a Península Ibérica e a América Latina.
*Ver "LINKS RELACIONADOS"

(O motivo principal pelo qual eu queria ter feito este post em forma de vídeo era para mostrar para vocês alguns cadernos de viagem que eu trouxe comigo na mala, todos da editora Reflets d’ailleurs, na qual estagiei. São livros com um trabalho artístico muito notável. Mas, como não rolou vídeo, fiz fotos dos livros para ilustrar o post.)









Para vocês terem uma ideia melhor de como são as ilustrações em um caderno de viagem, sugiro que deem uma espiada no site da Urban Sketchers*, uma organização sem fins lucrativos conhecida no mundo todo, que reúne e incentiva o desenho urbano local e seus artistas. O Brasil tem seu próprio blog, parte da organização, o Urban Sketchers Brasil*.
*Ver "LINKS RELACIONADOS"


PARA VER
Diário de viagem: vídeo que mostra desenhos de um diário de viagem. Bem maneiro.
Imagens de cadernos de viagem (Creative travel journals, no blog Black Eiffel – em inglês).


LINKS RELACIONADOS
Rendez-vous du Carnet de Voyagewww.rendezvous-carnetdevoyage.com
Urban Sketcherswww.urbansketchers.org
Urban Sketchers Brasilbrasil.urbansketchers.org

3 de junho de 2011

Frida Kahlo [Rauda Jamis]

Mais que uma simples biografia romanceada, Frida Kahlo (de Rauda Jamis) é uma verdadeira preciosidade.

Frida Kahlo (1907-1954) foi uma consagrada pintora mexicana que revolucionou a arte em seu país e no mundo. Esposa do grande pintor mexicano Diego Rivera, a obra de Frida é caracterizada principalmente por seus famosos autorretratos. Admirada por artistas e intelectuais da época (Picasso foi um deles), Frida teve uma vida singular, na qual arte, dor, amor e política se mesclaram com uma intensidade brutal.

Contraiu poliomielite durante a infância e, aos 16 anos, foi vítima de um terrível acidente que mudou o rumo dos seus dias, fazendo de sua vida uma alternância de torturas causadas pelas inúmeras lesões na coluna vertebral. Passou grande parte da vida prostrada em uma cama e sofrendo o martírio imposto pelos dolorosos corpetes de gesso que era obrigada a usar. A pintura surgiu da dor e suas obras retratavam seu mundo. Ainda que alguns aproximassem sua arte do Surrealismo, ela o negava e, decididamente, reforçava que pintava a própria realidade.

Sinto que sou totalmente suspeita para resenhar esse livro. Primeiro porque tenho uma incansável admiração por Frida Kahlo. E, em segundo lugar, porque há tempos e tempos eu vinha nutrindo uma vontade imensa de ler uma biografia da pintora. Então, como não podia deixar de ser, devorei o livro com uma avidez sem igual. Não houve uma página da qual eu não gostasse (parece exagero, mas garanto que não é!).

Biógrafa e biografada, por vezes, tornam-se uma só durante o texto, conferindo beleza e força à obra. Durante a leitura nos deparamos com extratos de cartas e citações (tão famosas) de Frida, o que torna o livro ainda mais enriquecedor. Um livro especial; disso não tenho dúvidas. Descobrir a vida de Frida Kahlo foi uma experiência envolvente: as dores tão intensas, o amor conturbado com Diego Rivera, o reconhecimento como artista, o trauma de não conseguir ter filhos, o envolvimento com o Partido Comunista,... Leitura mais que obrigatória para os admiradores da pintora mexicana, e para todos os leitores que desejam deixar-se envolver pelo relato de uma trajetória sem igual. A personalidade, a inteligência, a profundidade, o talento e a fibra de Frida surpreendem de verdade.

Li uma edição espanhola e penso que foi uma ótima escolha, já que fazia muito tempo (muito mesmo!) que não lia em espanhol. Porém a recomendaria apenas para quem já tem certo domínio do idioma. Esta edição traz algumas páginas contendo fotos e imagens de algumas das obras de Frida. Achei legal, mas insuficiente (esperava imagens de mais obras), e considero um verdadeiro pecado colocarem em preto-e-branco as imagens das obras. Este foi o único pedacinho do livro que deixou a desejar; porém é sempre bom lembrar que se trata de uma biografia e não de um livro de arte (o foco é a vida da pintora).

Título: Frida Kahlo
Autor(a): Rauda Jamis
Editora: Circe - Grupo Océano
Edição: 2005 (20ª edição)

Um pequeno parêntese: esse livro chegou a mim em um momento muito adequado, perfeito, eu diria. Encontrei-o em março desse ano na lojinha do Museo Thyssen-Bornemiszna, em Madri; entrei no museu para ver a exposição Heroínas, especialmente com o objetivo de ver de perto uma das obras de Frida que fazia parte da exposição. Ao retornar a Dublin (ainda estava lendo o livro), para minha surpresa - e sorte! -, houve uma exposição de Frida Kahlo e Diego Rivera e exibição de dois documentários sobre eles no IMMA - Irish Museum of Modern Art. Ou seja, um complemento valiosíssimo para minha leitura! Foi emocionante ver de perto todas aquelas obras! (A overdose de Frida Kahlo não para por aí... ainda tenho um outro livrinho esperando para ser lido: Frida Kahlo 'I Paint My Reality'.)

Para quem se interessar, existe um conhecido filme sobre a vida da pintora. Frida foi lançado em 2002, dirigido por Julie Taymor e traz Salma Hayek como Frida Kahlo. O figurino chama a atenção (e não podia ser diferente, já que as roupas de Frida eram sua marca registrada) e a trilha sonora é excelente. Gosto bastante do trailer:


(Aliás, fiquei sabendo da existência de um primeiro filme sobre Frida Kahlo, de 1983, chamado Frida, Naturaleza Viva. Confesso que deu vontade de ir atrás dele!)

Voltando ao livro, Frida Kahlo foi publicado no Brasil com o mesmo título pela editora Martins Fontes (mas dei uma rápida pesquisada e parece que não se encontra mais disponível). Conselho: se por acaso der de cara com esse livro em algum sebo, leve-o sem pensar duas vezes!!

- Frida Kahlo - site oficial: www.fkahlo.com

Título: Frida Kahlo
Autor(a): Rauda Jamis
Publicação original: 1985

15 de fevereiro de 2010

Moulin Rouge, amores doloridos e boemia latejante

Desfiles das escolas de samba, carros alegóricos, aquele som infernal (perdoem-me os apreciadores) vindo da televisão e de onde quer que seja; ao invés de tudo isso, amores não correspondidos, “French Cancan”, as ruas de Montmartre e o famoso Moulin Rouge. Com vocês, uma ótima opção para os que não morrem de amores pelas festividades do Carnaval, mas ainda assim querem preencher o feriado com algo de qualidade: Moulin Rouge!

Ao contrário do que muitos podem pensar de início, o livro Moulin Rouge não relata aquela linda história de amor entre Christian e Satine do filme de Baz Luhrmann, mas sim a trajetória (mais como uma biografia romanceada) do pintor francês pós-impressionista e litógrafo Henri-Marie-Raymonde de Toulouse-Lautrec-Monfa, ou apenas Henri de Toulouse-Lautrec; e devo dizer: é um livro que figura entre os meus favoritos.

Toulouse-Lautrec nasceu na nobreza francesa, mas foi a vida boêmia parisiense de fins do século XIX que ele adotou como sua (ou teria sido a boemia que o adotou?). Essa vida, inclusive, era o tema principal de suas pinturas; seu estilo mostrava linhas livres e cores intensas, transmitindo expressividade e movimento. Dançarinas como La Goulue e Jane Avril apareciam retratadas em seus cartazes para o cabaré Moulin Rouge, onde exercia papel de frequentador assíduo.

Contudo, a vida de Toulouse-Lautrec esteve longe da felicidade e glória, estas se mostrando apenas como leves e efêmeros (por vezes falsos) sopros em sua trajetória. Sua doença – que fez dele um homem adulto com pernas de menino –, o sabor amargo dos amores não correspondidos e o alcoolismo desempenharam importantes papeis em sua curta vida e conferem uma dose extra (e realmente emocionante) de drama na história. Outra característica que torna o livro ainda mais cativante são as interações – reais – entre Toulouse-Lautrec e nomes célebres como Vincent Van Gogh, entre outros.

Moulin Rouge é um livro para ser saboreado em todas e cada uma de suas palavras. Moulin Rouge é atrevido ao tocar-nos o fundo da alma. Moulin Rouge é um livro de amor, ainda que em sua mais triste faceta.

Curiosidades:
- Este livro deu origem a um filme de mesmo nome, Moulin Rouge (1952), dirigido por John Houston e ganhador de 2 estatuetas do Oscar.
- No filme Moulin Rouge de Baz Luhrmann (2001), Toulouse-Lautrec aparece como um personagem secundário, envolvido e sofrendo com as tragédias do casal protagonista.

    
Pequenos exemplos da arte de Toulouse-Lautrec

Título: Moulin Rouge
Autor(a): Pierre La Mure
Publicação original: 1950

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