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4 de julho de 2012

Um Amor Para Recordar [Nicholas Sparks]

Cada mês de abril, quando o vento sopra do mar e se mistura com o perfume de violetas, Landon Carter recorda seu último ano na High Beaufort. Isso era 1958, e Landon já tinha namorado uma ou duas meninas. Ele sempre jurou que já tinha se apaixonado antes. Certamente a última pessoa na cidade que pensava em se apaixonar era Jamie Sullivan, a filha do pastor da Igreja Batista da cidade. A menina quieta que carregava sempre uma Bíblia com seus materiais escolares. Jamie parecia contente em viver num mundo diferente dos outros adolescentes. Ela cuidava de seu pai viúvo, salvava os animais machucados, e auxiliava o orfanato local. Nenhum garoto jamais a havia convidado para sair. Landon nem sequer sonhara com isso. Em seguida, uma reviravolta do destino fez de Jamie sua parceira para o baile, e a vida de Landon Carter nunca mais foi a mesma.

Serei bem direta. Sei que o Nicholas Sparks está cheio de fãs e seus livros são bastante adorados mundo afora, mas Um Amor Para Recordar não me causou surpresa e tampouco mexeu com meu lado emotivo.

Não se pode negar que o livro traz uma história bonita. A ideia de que o amor move muitas barreiras e transforma existências também é muito válida. Contudo, a trama cai na obviedade e não demonstra esforço algum para trabalhar melhor os clichês – tudo é entregue muito mastigado para o leitor, que engole e digere sem quase nem perceber.

Um Amor Para Recordar é um livro mela-cueca, sim. Mas não entendam tal característica como sendo necessariamente negativa. Nós, leitores, bem sabemos que existem momentos que pedem leituras do tipo; sendo assim, o livro pode se revelar uma boa pedida dependendo do período ou estado de espírito. Como dizem, cada caso é um caso, e aqui esta afirmativa é bastante adequada.

Ainda, os personagens não são exatamente cativantes, e possuem algo de bastante forçado, até. São “simplificados” em demasia, fazendo com que pareçam carecer da complexidade inerente ao ser humano. Jamie – e os “planos de Deus” – provavelmente irritará nos dias em que nem tudo estiver tão cor-de-rosa na vida do leitor.

Eis um livro cuja adaptação cinematográfica me agradou bem mais que o próprio livro. Um Amor Para Recordar não é uma leitura que eu normalmente recomendaria, salvo em ocasiões e para pessoas bem específicas.

Título: Um Amor Para Recordar
Título original: A Walk to Remember
Autor(a): Nicholas Sparks
Editora: Novo Conceito
Edição: 2011
Ano da obra: 1999
Páginas: 184

11 de maio de 2012

Um Mundo Brilhante [T. Greenwood]





O que fazer quando o mundo em que você vive não é o lugar a que você pertence?

Quando o professor Ben Bailey sai de casa para pegar o jornal e apreciar a primeira neve do ano, ele encontra um jovem caído e testemunha os últimos instantes de sua vida. Ao conhecer a irmã do rapaz, Ben se convence de que ele foi vítima de um crime de ódio e se propõe a ajudá-la a provar que se tratou de um assassinato.

Sem perceber, Ben inicia uma jornada que o leva a descobrir quem realmente é, e o que deseja da vida. Seu futuro, cuidadosamente traçado, torna-se incerto, pois ele passa a questionar tudo à sua volta. Descobre-se insatisfeito em uma posição que vinha mantendo por responsabilidade – mas também por passividade. Enquanto busca a felicidade, consciente de que escolhas precisam ser feitas e atitudes precisam ser tomadas, Ben se envolve em uma rede de mentiras da qual fica cada vez mais complicado sair.

Um Mundo Brilhante proporciona uma visão de camarote de quão frágeis são os aspectos que compõem a vida de uma pessoa – acontecimentos no meio familiar, emprego, relacionamentos. A pessoa em questão é Ben Bailey, mas poderia ser qualquer ser humano na face da Terra.

Fragmentos dolorosos da infância representam uma pesada carga que o personagem leva e, a partir deles, o leitor compreende que o maior problema de Ben tem apenas quatro letras: medo. E talvez seja ele, o medo, o grande responsável por fazê-lo esconder-se em mentiras que só fazem sabotar a si mesmo.

A característica que torna esta uma leitura interessante é a perspectiva bastante realista da vida. O amor é visto de maneira até pessimista, mas sem fugir da realidade. Quando o encanto termina, sempre ficam restos com os quais nem sempre é fácil lidar.
Hoje, o anel de noivado havia se tornado um lembrete constante da maior promessa que ele havia quebrado.

O preconceito e o descaso com a população indígena são abordados – de leve. A questão do crime contra o jovem indígena apenas permeia a história. O foco está mesmo nos conflitos pessoais do protagonista.

A narrativa é bastante envolvente. No entanto, o aspecto introspectivo se faz bem presente, a ação nem sempre é óbvia, o que pode não agradar alguns leitores. Além disso, não estamos diante de uma história de amor e muito menos de um suspense policial. Os dois aspectos apenas acompanham um protagonista que transita na desordem em que se tornou sua vida.

O leitor não deve esperar um final surpreendente, pois, assim como na vida real, nem tudo é feito de surpresas e acontecimentos mirabolantes. Mas pode – e certamente irá – pensar nos rumos tomados pelo protagonista. Este, ironicamente, tem plena consciência do caminho que deve seguir, embora seja ele mesmo o elemento que dificulta a concretização de suas verdadeiras escolhas.

Leitura recomendada aos que gostam de narrativas mais voltadas para um aspecto psicológico, para as questões internas dos personagens. Já aos que se entediam facilmente na falta de grandes reviravoltas ou de um ritmo mais intenso, não aconselharia.

Título: Um Mundo Brilhante
Título original: This Glittering World
Autor(a): T. Greenwood
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012
Ano da obra: 2011
Páginas: 336

2 de maio de 2012

Para Sempre [Kim e Krickitt Carpenter]

Para Sempre fala, acima de tudo, de superação. Por se tratar de uma história real, o livro traz certa carga sentimental e nos faz refletir sobre a importância da motivação perante situações difíceis.

A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente no dia 24 de novembro de 1993, dois meses após o seu casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a "Krickitt" com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava.

Como narrador, Kim Carpenter conta sua história de amor com Krickitt, como se conheceram, o casamento, e o acidente que mudou a vida de ambos e suas consequências. Ele descreve suas angústias – derivadas do acidente – e faz com que o leitor perceba a grandiosidade de seu amor pela esposa.

Uma característica da obra que não me agradou foi a ênfase que é dada, constantemente, na religião e na fé em deus. Ainda que estes tenham sido aspectos fortes na história de Kim e Krickitt (e lembrando que tudo é narrado por Kim), a impressão é a de que o texto tenta convencer o leitor de que a fé cristã foi a principal responsável pela sobrevivência e recuperação de Krickitt, e ainda, pela reestruturação da vida do casal. Ou seja, as pessoas que cruzaram o caminho do casal, os ótimos profissionais envolvidos, etc, tudo teria sido “colocado” na vida deles por obra da fé. Um pouco demais, não?

Abri o review falando que esta é uma história de superação. E prefiro continuar nesta perspectiva, digamos, mais realista – ou racional, se preferirem. Acredito que, no lugar das palavras “fé” ou “deus”, caberiam muito bem estas outras palavrinhas mágicas: “determinação”, “força de vontade”, “amor”.

Permitam-me abrir um parêntese:
Ao “julgar” o livro pela capa, o leitor espera encontrar “a história que inspirou o filme” – conforme lemos na própria capa. Não vi o filme, portanto não sei apontar as semelhanças e diferenças em relação ao livro e à história real. O que não se imagina, no entanto, é a abordagem através da qual é contada essa história. Somente ao olhar os dados de catalogação no interior do livro, é que vemos como item número 1: “Biografia cristã”. Informação que a capa e a sinopse não transmitem. Se, por um lado, isto pode servir para “aumentar” o público abrangente, no final, a quantidade de leitores decepcionados também é maior. Leitores que, muito provavelmente, não fazem parte do real público do livro. (Um consumidor insatisfeito sempre tem boa memória.)

Para Sempre não foi uma leitura muito marcante em termos positivos. Mas o texto também não é horrível. Tirando todo o aspecto em torno da religião, é interessante observar a reconstrução da vida do casal. O livro ainda reúne características capazes de fazer com que alguns leitores se emocionem. Contudo, e particularmente falando, Para Sempre não conseguiu me causar grande comoção.
Título: Para Sempre
Título original: The Vow
Autor(a): Kim e Krickitt Carpenter
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012
Ano da obra: 2012
Páginas: 144

14 de janeiro de 2012

Branca como o leite, vermelha como o sangue [Alessandro D’Avenia]


Leo é um garoto de 16 anos como tantos: adora o papo com os amigos, o futebol-soçaite, as corridas de motoneta e vive em perfeita simbiose com seu iPod. As horas passadas na escola são uma tortura, e os professores “uma espécie protegida que você espera ver definitivamente extinta”. Porém, um jovem professor substituto de história e filosofia mostra-se diferente desde sua chegada: uma luz brilha em seus olhos quando ele explica, quando incita os estudantes a viver intensamente, a buscar o próprio sonho.
Leo sente em si a força de um leão, mas há um inimigo que o aterroriza: o branco. O branco é a ausência; tudo aquilo que em sua vida está ligado à privação e à perda é branco. O vermelho, ao contrário, é a cor do amor, da paixão, do sangue; vermelho é a cor dos cabelos de Beatriz. Quando descobre que Beatriz está doente e que a doença tem a ver com aquele branco que tanto o apavora, Leo deverá escavar profundamente dentro de si, sangrar e renascer, para compreender que os sonhos não podem morrer e para encontrar a coragem de acreditar em algo maior.

Estamos diante de uma história bastante bonita e singela, com personagens que conquistam desde sua primeira aparição. Uma história de amizade e amor, ambos apresentados na forma mais pura que se pode conceber. Existe uma forte veia dramática no enredo, mas que em nenhum momento chega a ser apelativa.

Branca como o leite, vermelha como o sangue é narrado em primeira pessoa – tudo nos é apresentado sob a perspectiva do protagonista, Leo. É interessante perceber como o personagem amadurece durante o pedaço de sua vida que é dividido com o leitor. A sensação que se tem é a de que a história começa com um Leo garoto e termina com um Leo mais maduro – um Leo homem, eu diria.

Apesar dos personagens novinhos (na faixa dos 16 anos) e do ambiente escolar, o livro tem tudo para agradar aos mais adultos também. O tema é denso, mas a história nos é contada com uma leveza incrível, uma simplicidade bela. A leitura, fluida e com capítulos curtos, é marcada por uma linguagem bastante coloquial (lembrando que o narrador é um garoto de 16 anos), mas nem por isso deixa de surpreender com passagens que trazem reflexões profundas. Além disso, a narrativa é recheada de referências à cultura pop, o que acrescenta uma boa dose de diversão ao livro.

Capa da edição italiana
A figura do professor substituto, o Sonhador, tem um papel bastante importante na história. A maneira como ele incita os alunos a ir atrás de respostas que nem sempre podem ser encontradas no Google nos faz perceber que, com atitudes simples, é possível realizar mudanças de proporções enormes. Senti profunda admiração pelo personagem; através de seu papel como professor, ele realmente contribui para formar pessoas melhores.

Uma característica muito legal é a relação que o protagonista faz entre as cores e os sentimentos. Cada cor é associada à essência de determinado sentimento – e, devo dizer, tal forma de expressão funciona tão bem ou até melhor do que se fossem utilizadas palavras apenas.

Termino o review com aquela sensação perturbadora de não ter conseguido expressar o quão especial é este livro. Foi uma leitura que marcou pela delicadeza, principalmente. Inclusive, durante todo o livro, pude ver em minha mente cada cena rodada como um filme. Acredito, de fato, que este livro daria um belo filme (não um sucesso de bilheteria hollywoodiano, mas um destes filmes pendendo para o alternativo, sem grandes ações, em que o principal encontra-se nas entrelinhas).*

Definitivamente, super recomendo o livro! Branca como o leite, vermelha como o sangue é uma leitura que realmente tem algo a dizer; um livro em que nenhum trecho vem de forma gratuita.

É estranho como os sonhos põem a gente em movimento, como uma transfusão de sangue. Como se entrasse em nossas veias o sangue de um super-herói.

* Atualizando: o livro vai virar filme, sim! De produção italiana (ou seja, não será só mais uma adaptação americana), vi que começaram os castings pela internet mesmo; parece que estão recrutando jovens por meio de testes de vídeo. O elenco ainda nem está formado, mas eu já estou ansiosíssima para conferir o filme. =P

Título: Branca como o leite, vermelha como o sangue
Título original: Bianca come il latte, rossa come il sangue
Autor(a): Alessandro D’Avenia
Editora: Bertrand Brasil
Edição: 2011
Ano da obra: 2010
Páginas: 368

14 de dezembro de 2011

Ainda Não Te Disse Nada [Maurício Gomyde]


“Ninguém mais escreve cartas hoje em dia”, ela pensava. Até que um dia uma caiu em suas mãos e mudou o rumo de sua vida. Levou-a ao lugar que sempre sonhou. E a conhecer o amor do jeito que nunca imaginou, da forma mais improvável do mundo...

Ainda Não Te Disse Nada traz como protagonista Marina, 25 anos, garota do interior que estuda moda em São Paulo. Seu dia-a-dia começa no trabalho em uma agência dos Correios, seguido de uma parada no café de uma livraria (onde ela busca inspiração em revistas de moda e copia seus modelos favoritos), para então ir às aulas na faculdade (e colocar os assuntos em dia com as amigas Francesca e Thaís). Os finais de semana, Marina geralmente passa com os pais e os irmãos em São Pedro da Serra. A rotina segue seu ritmo, até que uma pequena grande “missão” surge na vida de Marina e traz consigo um turbilhão de mudanças, questionamentos e sentimentos inesperados.

Antes de mais nada, um aviso: ponham de lado sua faceta mais racional, suas rabugices e descrenças, e só então comecem a leitura. Este é um livro para as(os) românticas(os)!
Assim como em O Mundo de Vidro, a história é leve e apaixonante. Há pitadas de humor e muita descontração, mas também nos deparamos com belas frases que nos tiram o fôlego.

Ainda que narrado em terceira pessoa, vemos tudo através da perspectiva da protagonista. Marina é divertida e é a típica garota certinha, romântica, cheia de convicções – uma espécie de heroína romântica contemporânea. Os personagens são todos bastante divertidos e apresentam forte aspecto real – temos a sensação de que cada um se parece a alguém que conhecemos.

Se por um lado os personagens são bem humanos e “reais” (tal como o ambiente no qual estão inseridos), o enredo em si não é muito pé no chão. É justamente esta característica que o torna especial. O livro nos mostra uma protagonista “perfeita” em busca de seus sonhos, estes também carregados de boa dose de perfeição. A leitura flui com enorme facilidade e o enredo envolve o leitor a ponto de fazê-lo deixar-se levar completamente pela história. Os trechinhos de músicas transcritos dão um toque especial à leitura. (Vocês podem ouvir a trilha sonora do livro no blog do autor)

Finalizei a leitura com certa curiosidade em relação a alguns detalhes sobre os acontecimentos finais. Gostaria de ter lido em detalhe a sucessão de alguns fatos responsáveis pelo final do livro. Esta curiosidade foi bem particular, não sei se os demais leitores compartilhariam da mesma opinião. Apesar desse pequeno “porém”, o encanto da história é preservado; se não temos todos os detalhes que ansiamos, o livro certamente nos dá ferramentas para criar tais cenas em nossas mentes.

Uma leitura deliciosa, para se envolver e se perder completamente na delicadeza de uma singular história de amor!

Título: Ainda Não Te Disse Nada
Autor(a): Maurício Gomyde
Editora: Porto71
Edição: 1ª (2011)
Ano da obra: 2011

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Se tiver interesse em comprar o livro, ele está disponível aqui.

12 de novembro de 2011

Lucíola [José de Alencar]


Independente e altiva, Lúcia, a mais rica cortesã do Rio de Janeiro, não se deixava prender a nenhum homem. Até conhecer Paulo. A partir daí, ela se vê totalmente entregue; tudo o que quer é permanecer junto dele. Esse romance passa a ser o assunto mais comentado na Corte. Os comentários chegam aos ouvidos de Paulo e o incomodam profundamente. Valeria a pena romper seu relacionamento só para manter a boa imagem diante das pessoas?

Clássico do Romantismo brasileiro, Lucíola retrata o amor entre Lúcia, cortesã de luxo, e Paulo no Rio de Janeiro do século XIX. No decorrer do livro acompanhamos a transformação (“purificação”) de Lúcia. O livro faz parte dos “perfis de mulheres” de Alencar (junto com as obras Diva, A Pata da Gazela e Senhora).
Na época, o romance foi bastante criticado por mostrar o problema social da prostituição, que era conhecido porém tratado com indiferença. Houve críticas também devido ao não uso do Português clássico.

Lucíola é narrado em primeira pessoa por Paulo, sendo um relato de seu relacionamento com Lúcia que ele escreve a uma suposta senhora. Com isso, ele tem por objetivo mostrar que mesmo levando uma vida leviana é possível manter a nobreza da alma.

Esse é um livro que não li quando devia (lá no ensino médio); na época julguei a leitura desnecessária devido a uma super aula explicativa a respeito do mesmo (apesar de ser uma leitora ávida desde a infância, claro que eu torcia o nariz para alguns livros de leitura obrigatória, como todo adolescente, imagino eu). Mas o interessante disso é que não me arrependo de não tê-lo lido então: essa leitura, hoje, me proporcionou um prazer que na época acredito que não teria sido igual.

Adianto que não é um livro difícil ou enfadonho. A narrativa é gostosa e flui com facilidade, os personagens são envolventes (ainda que, muitas vezes, incompreensíveis em seus atos) e a história de amor entre os protagonistas é particularmente bela.

Edição que li: traz um bom
material de apoio didático
O mais interessante neste romance urbano é notar as particularidades comportamentais da sociedade da época, além da hipocrisia e falso moralismo retratados. A preocupação com a reputação e a boa imagem perante a sociedade faz com que Paulo aja de forma contraditória, causando complicações e sofrimento à relação com Lúcia. Interiormente, Paulo mostra-se mesmo bem frágil no que diz respeito ao amor. Apesar de ser narrado por Paulo, percebemos que Lúcia demonstra ter consciência de seus atos e um constante sentimento de culpa que a atormenta. Nela, anjo e demônio vivem e dividem o mesmo espaço. O amor, através de Paulo, resgata sua pureza, sendo o agente de sua redenção.

Apesar da maioria de nós conhecermos já o enredo e o final de Lucíola devido a certa familiaridade com a obra no período escolar, recomendo fortemente a leitura. Se você ignorou essa leitura na escola (como eu fiz), leia-a agora: considero um desperdício não ler algo de tamanha qualidade. E se você já leu a obra há alguns anos atrás, no ensino médio, leia-a novamente: certamente a leitura será feita sob um novo e mais prazeroso olhar.

(Destaco em especial a edição que li – esta da capa logo acima, à direita – que, mesmo sendo meio velhinha, traz uma introdução bastante didática a respeito do momento histórico e do Romantismo, além de informações biográficas do autor. Também conta com notas de rodapé muito úteis durante a leitura.)

Título / Título original: Lucíola
Autor(a): José de Alencar
Editora: Moderna
Edição: 1993 (Coleção Travessias)
Ano da obra / Copyright: 1862

10 de outubro de 2011

O Voo da Estirpe [Adriana Vargas Aguiar]

O review de hoje traz uma obra participante do Clube dos Novos Autores. Para quem não conhece a iniciativa, vale a pena visitar o blog. =)

Uma história de amor que ultrapassa barreiras. Clarice vive seus dias sem realmente se dar conta de que está viva, sem aproveitar cada instante e cada sopro de vida em seus poros. Até conhecer Klaus, portador de uma doença terminal. O amor é inevitável e vem acompanhado do medo da perda. Através de Klaus, Clarice descobre o que significa viver e, a partir de então, liberta-se de antigos padrões para finalmente encontrar-se com ela mesma, em um importante ciclo de autoconhecimento.

O Voo da Estirpe – primeiro livro da trilogia de mesmo nome – traz uma leitura rica em conteúdo. Repleto de sentimento, o enredo emociona e incentiva a reflexão. Diria até que é praticamente impossível ler o livro e não ser tocada(o )por ele em nenhum momento.

Clarice, a personagem central, nos narra em primeira pessoa toda a transformação pela qual sua vida é submetida. E essa característica da narração é, a meu ver, mesmo fundamental para que a história tenha certo tom pessoal, aspecto que envolve o leitor como se este recebesse confidências com o coração aberto.

Ainda mais que os acontecimentos em si, o que realmente cativa o leitor são os personagens, Clarice e Klaus, tão humanos em suas qualidades e defeitos, erros e acertos. Inclusive arrisco dizer que todo mundo tem um pouco de Clarice em si. Através da jornada ao encontro de sua essência como ser humano, somos levados a olhar para o interior de nós mesmos e, nem que seja por um instante, passamos a ver a vida portando outras lentes. Já Klaus, por sua vez, lida com sua condição de maneira admirável – chega a ser meio surreal, confesso, mas ainda assim, carrega grandiosa beleza em seus atos.

Durante a leitura, alguns aspectos da narrativa me incomodaram um pouquinho (em relação à pontuação, no geral), mas friso que se trata de uma opinião realmente pessoal. No mais, a leitura flui com naturalidade, sendo bem possível devorar o livro em poucas horas.

Para finalizar, O Voo da Estirpe nos brinda com uma leitura que nos torna incapazes de encarar com indiferença. O livro é tocante e acredito que, após lê-lo, ninguém sairá ileso.

Título / Título original: O Voo da Estirpe
Autor(a): Adriana Vargas Aguiar
Clube dos Novos Autores
Ano: 2011

4 de setembro de 2011

O Mundo de Vidro [Maurício Gomyde]


Até onde pode ir a paixão de uma pessoa por outra? Como, quando e por que começa?
Até que ponto pode-se cometer alguma loucura para fazer parte da vida de alguém?
Quais as consequências da paixão avassaladora incompreendida? E quando não se admite a óbvia paixão por outra pessoa?


Em O Mundo de Vidro, Maurício Gomyde conta a história de duas pessoas, Ele e Ela. Ele é um cara tímido e sem muita experiência no amor, que a conhece por acaso e logo se vê tomado por uma paixão inexplicável e incontrolável. Linda e inteligente (e arrasada pelo término de um relacionamento), Ela tem inúmeros pretendentes que tentam tê-la a todo custo. E é neste cenário que Ele fará de tudo (ou quase) para conquistá-la.

Primeiramente, confesso que no início não botei muita fé. Até cheguei a achar as pitadas de humor um pouco irritantes, às vezes. Mas foi só uma impressão precipitada e equivocada; a cada capítulo, O Mundo de Vidro certamente ganhou minha simpatia.

Os personagens centrais, Ele e Ela, são bem reais, podem ser qualquer um ou todos nós. No começo, Ele me irritava consideravelmente. Achava-o realmente estranho, e queria mesmo dar uns tapas nele a cada vez que soltava o tal de “Er... Aham... Cof... Cof...” antes de cada frase falada. Porém, ao longo da história, já não o via mais como um ser tão estranho e comecei a me divertir com os acontecimentos em torno dele. Acho legal destacar os “personagens de estimação”: Ela com um basset chamado Paul Macartney, tarado por grudar nas pernas alheias; Ele com uma papagaia chamada Horácio (mas é fêmea mesmo!) que não era nada convencional em suas falas.

Uma característica que merece atenção é que, embora narrado em terceira pessoa, o livro parece mostrar tudo em um ponto de vista mais masculino. A meu ver, é um aspecto bastante positivo e confere um tipo de humor e comentários que, talvez, não rolassem se a perspectiva dos fatos pendesse para o lado feminino.

A leitura é super leve e o livro é do tipo que a gente devora rapidamente, dada a curiosidade para saber o desfecho. É divertido e tem algumas doses de romantismo e frases bonitas, conforme a leitura avança.

Em O Mundo de Vidro, basicamente, vemos o processo da conquista e percebemos a maneira em que tantas vezes o ser humano complica o que não deveria ser complicado. Trata-se de uma leitura que, para mim, valeu a pena; certamente a recomendaria aos que tenham interesse em temas acerca de relacionamentos com um toque descontraído.

(Ah, para quem ficou curioso do porquê do título – eu, pelo menos, estava bem curiosa antes da leitura –, ele é revelado ao longo do livro e de uma forma bastante bela!)

Título / Título original: O Mundo de Vidro
Autor(a): Maurício Gomyde
Editora: Porto 71
Edição: 3ª - 2011
Ano da obra / Copyright: 2011

16 de agosto de 2011

Rumo ao Farol [Virginia Woolf]


Considerado o principal trabalho da inglesa Virginia Woolf e um dos mais importantes romances do século XX na Europa, Rumo ao Farol nos mostra a família Ramsay e amigos em sua casa de veraneio nas ilhas Hébridas. Um passeio ao farol torna-se inviável devido ao mau tempo. Enquanto lembranças e sentimentos velados percorrem o íntimo dos personagens, a presença da Sra. Ramsay, radiante e influente entre eles, é fortemente marcada. Como pano de fundo, os traumas da Primeira Guerra Mundial.

Quase tudo ocorre no plano subjetivo. As ações, em si, são poucas se comparadas à infinidade de pensamentos e lembranças que nos são narradas ao longo do livro. Estes, muitas vezes, não são conclusivos, podendo mesmo fazer rodeios até que sejam interrompidos por alguma visão ou acontecimento.

Ideias, pensamentos e lembranças de vários personagens fluem e percorrem caminhos que se ramificam. Assim, a leitura pode acontecer de forma um pouco mais lenta, e requer mais cuidado e atenção. Mas isto não a torna, de forma alguma, menos agradável – ainda que possa parecer cansativa até nos “acostumarmos” com o ritmo do livro.

Como que “espiando pela fechadura”, somos levados ao interior dos personagens, o que proporciona uma observação muito rica acerca deles. Inclusive, ao longo do livro, temos opiniões e sentimentos contraditórios a respeito dos personagens, já que, como em todo ser humano, a complexidade e a ambiguidade se mostram presentes. E, nesta observação minuciosa que é o livro, nos deparamos com mulheres que, em seu interior, se revelam muito mais fortes que os personagens masculinos. Os homens são bastante vulneráveis, possuem clara necessidade de auto-afirmação, e parecem buscar incessantemente a compreensão e aceitação feminina – tudo isso sob uma capa autoritária e prepotente. Ainda, eles ressaltam abertamente seu intelecto e colocam a figura feminina dentro da perpétua imagem da limitação, talvez sem plena consciência de que são as mulheres – em um ato extremamente doador e consciente – as responsáveis por colocá-los na posição que eles querem estar.

Além do mergulho nas profundidades dos personagens, o livro nos faz perceber a brevidade da vida – a meu ver, um ponto altíssimo da leitura. Um dia pode durar uma eternidade, ao passo que uma década transcorre com uma rapidez assustadora (trazendo muitas mudanças enquanto reforça a imutabilidade de algumas condições, sejam elas da própria vida ou dos personagens).

Rumo ao Farol me ofereceu uma leitura muito rica, responsável por alimentar ainda mais meu desejo de explorar as demais obras de Virginia Woolf. Particularmente, não o vejo como um livro para mera distração. Por outro lado, se você NÃO está em um daqueles momentos que requerem livros com enredo “mais leve”, e quer mesmo algo que te faça refletir sobre a vida, Rumo ao Farol pode ser uma ótima escolha.

“Qual o artifício para conseguir formar indissoluvelmente um único ser – como a água despejada numa jarra – com a pessoa que se adorava?”
“(...) sentia aquilo que chamava vida como alguma coisa terrível, hostil, pronta para se lançar sobre quem quer que lhe desse uma oportunidade.”

Título: Rumo ao Farol
Título original: To the Lighthouse
Autor(a): Virginia Woolf
Editora: O Globo
Edição: 2003 (Folha de S.Paulo – Biblioteca Folha)
Ano da obra / Copyright: 1927

15 de junho de 2011

Um Dia [David Nicholls]


Tudo começa em uma sexta-feira, 15 de julho de 1988. Emma Morley e Dexter Mayhew mal se conheceram e a chegada da vida “pós-universidade” parece se encarregar de separá-los. Eis o ponto de partida para uma forte e complicada relação de amizade cheia de altos e baixos, em que os acontecimentos são narrados durante o período de 20 anos, sempre no mesmo dia – 15 de julho – de cada ano.

Devo começar dizendo que estamos diante de um livro magnífico. Um Dia nos presenteia com personagens construídos com excelência, diálogos sagazes e um enredo com o qual é impossível não se envolver. Cada capítulo refere-se ao dia 15 de julho de cada ano (uma estrutura que considerei genial) e isso contribui para que sempre haja “movimento” na história, além de mostrar a ação do tempo sobre a vida e os próprios personagens. Simplesmente não há passagens cansativas, não há marasmo; o livro consegue prender do começo ao fim.

Em primeiro plano temos o relacionamento entre duas pessoas e, de forma paralela, somos mergulhados nas expectativas dos personagens em relação à própria vida. Sucessos, fracassos, desilusões, projetos, motivações, tudo isso permeia cada acontecimento narrado, e como na vida real, esse conjunto torna-se crucial na determinação dos caminhos de cada personagem. Aliás, considero o enredo bastante realista, um retrato de algumas fases da vida em que imagino que todos compartilham muitos dos sentimentos (e frustrações, e convicções,...) narrados. Durante a leitura, enxerguei a mim mesma em muitas partes, sob vários aspectos.

Os personagens são, a meu ver, o ponto mais alto do livro. Dexter é o tipo que demora a amadurecer, que leva a vida no imediatismo, e para quem o que é tangível tem mais valor. Muitas vezes deixa-se dominar pela arrogância e pelo desejo por status. Emma é geniosa, intelectual e de opiniões fortes, e não é exatamente uma pessoa muito fácil de lidar. Pessoalmente, acho o personagem de Emma fascinante em todos os seus aspectos; mesmo quando quer ser chata (e consegue perfeitamente!), ela revela traços de uma personalidade marcante, ainda que a falta de autoconfiança se mostre muito presente e acabe por prejudicá-la em vários momentos.

Um Dia me emocionou bastante (e veja bem, não sou do tipo que se emociona facilmente com livros). Também me “assustou” um pouco ao mostrar como a vida passa tão rápido sem que percebamos – uma verdade à qual normalmente não damos muita atenção no dia-a-dia. Se o que você procura é uma fofa e delicada história de amor e amizade, esse não é o livro mais indicado (ainda que a capa o sugira de maneira irresistível). Mas se você quer algo mais real – tanto para o bem como para o mal –, mas nem por isso menos surpreendente, Um Dia tem tudo para ser aquele livro que vai ficar na sua memória por um bom tempo (e provavelmente vai te fazer pensar e questionar algumas coisas na sua própria vida).

E como todo mundo já deve saber, a versão cinematográfica de Um Dia, dirigido por Lone Scherfig e com Anne Hathaway (adoro ela!) e Jim Sturgess nos papéis principais, tem estreia prevista para julho nos EUA. Não preciso nem comentar que aguardo ansiosamente para conferir essa história na telona!

Título: Um Dia
Autor(a): David Nicholls
Editora: Intrínseca
Edição: 2011
Copyright: 2009

6 de maio de 2011

Ninguém Me Verá Chorar

Joaquín Buitrago, ex-fotógrafo de prostitutas e retratista no sanatório de La Castañeda nos anos 1920, acredita ter identificado numa das pacientes, Matilda Burgos, uma prostituta que ele encontrara anos atrás num dos prostíbulos da capital mexicana, La Modernidad.
Sua obsessão em confirmar a identidade de Matilda faz com que ele tenha acesso às fichas médicas dela. Joaquín, então, descobre as origens da paciente, assim como fatos e experiências determinantes na vida dela. Quanto mais o fotógrafo vai conhecendo a vida de Matilda, mais se convence que eles devem tentar viver juntos.
Estamos num México convulsionado por revoluções, no qual o velho e o novo lutam por seu espaço, e no qual a injustiça brilha sobre quem quer mudar o mundo para melhor. Este entorno é o cenário no qual os personagens desgraçados, perfeitamente perfilados pela autora, vêem evaporar seus sonhos, um atrás do outro, numa tragédia íntima que molda a realidade cultural, não somente do México, mas de grande parte da América Latina.
 
Quando achei esse livro, novinho, em um sebo, fui atraída primeiramente pela capa (que considero bela e singular). Nunca havia ouvido falar nele e tampouco conhecia a autora, mexicana. Mas ao ler a sinopse foi inevitável não levá-lo comigo! Por motivos diversos, mas principalmente por falar sobre o México unindo ficção e realidade, história. Não me arrependi, e considero este livro um pequeno tesouro que jamais sairá da minha prateleira!

Devo começar dizendo que Ninguém Me Verá Chorar não é um livro de leitura muito fácil. Não há tantos diálogos e os capítulos são bastante extensos. Apesar disso, me agradou bastante a linguagem, a forma como a autora nos faz descobrir as etapas da vida de Matilda Burgos. No livro, passado e presente intercalam-se o tempo todo, e algumas vezes fica difícil se situar durante a leitura. Mas isso definitivamente não chega a ser um ponto negativo, uma vez que está ligado intrinsecamente ao jeito como a história nos é mostrada, e não consigo imaginar o livro escrito de outra forma senão essa.

Cada personagem possui personalidade e desenvolvimento excepcionais. É difícil não se envolver. Merecem destaque as fichas médicas ao longo da história (mais precisamente no capítulo 3) que nos contam um pouco de alguns internos do La Castañeda, inclusive com passagens em primeira pessoa, relatos.

Outro ponto que merece ser mencionado é a forma como se mesclam as histórias individuais dos personagens e o momento histórico do México de então, os conflitos políticos, as perseguições. Somos levados para dentro do livro e quase podemos ver diante de nós o que nos é descrito com maestria pela autora. Apesar da história da protagonista ser fictícia – segundo a autora, uma reconstrução livre, fruto da imaginação – a obra é baseada em relatórios clínicos, documentos oficiais, cartas de internos do Manicômio Geral (conhecido como La Castañeda). A autora explica nas notas finais do livro: “Os dados históricos sobre o mundo das ruas, do manicômio e outras instituições de controle social no México porfiriano e na alvorada da pós-revolução provêm da minha tese de doutorado em história latino-americana.”

Achei particularmente interessante a relação entre Joaquín Buitrago e o médico Eduardo Oligochea (que foi cúmplice ao fazer com que Joaquín tivesse acesso à ficha médica de Matilda). Joaquín, durante todo o tempo, sabia que uma relação de amizade seria necessária para chegar ao seu objetivo; Eduardo, hermético e sistemático, se resguardava tão bem quanto ouvia tudo com paciência. Acho este trecho abaixo um bom exemplo para ilustrar tudo isso:
O médico residente não o interrompe. “Sou todo ouvidos.” Dentro dele, alinhadas numa ordem rigorosa, suas próprias emoções estão a salvo. Mudas. Não quer despertá-las. Não tem interesse em compartilhá-las. Se algo aprender nos manuais de anatomia, com as camas imundas dos hospitais, diante do pus e da peçonha da morte, é guardar sob a pele, bem escondido, o pronome eu. Os encontros com Joaquín lhe agradam porque podem transcorrer na terceira pessoa.

Esse outro trecho abaixo, acho-o ótimo para termos uma ideia do La Castañeda. 
O manicômio tem vinte e cinto blocos espalhados em 141.662 metros quadrados. Dentro, protegidos por altos muros e grades de ferro, os loucos e as castanheiras projetam suas sombras sobre lugares afastados do tempo. O manicômio é uma cidade de brinquedo. Tem guaritas, ruas, enfermarias, cárceres, moradias. Há tumulto, rixas, tráfico de cigarros e narcóticos, tentativas de suicídio. Há oficinas onde os homens fabricam esquifes e tapetes sem ferir as mãos com pregos e sem cortar as veias. Não recebem salário. As mulheres lavam os uniformes azuis até deixá-los desbotados e, nas oficinas de costura, fazem mantas e ponchos, remendam camisas e lençóis puídos. Há poetas escrevendo cartas a Deus; mecânicos, farmacêuticos, policiais, ladrões, anarquistas que renunciaram à violência. Acontecem histórias de amor. Melancolia calada. Classes sociais. Desespero que se expressa com gritos. A dor não acaba nunca.

Matilda Burgos é um enigma a ser decifrado ao longo do livro. Incompreensível em meio ao labirinto de sua própria vida, mas ao mesmo tempo de uma vulnerabilidade não óbvia. Chego até mesmo a pensar (mesmo não me sentindo no direito de tirar tais conclusões), que se Matilda tivesse aprendido a enfrentar e compartilhar suas perdas, sua dor, seu caminho teria sido outro, talvez nunca tivesse ido parar em um manicômio.
Colecionou suas lembranças e, uma a uma, as guardou em um lugar oculto. Depois, fechou a porta e colocou-lhe o cadeado do silêncio. “Ninguém me verá chorar. Nunca.” Mais que a própria dor, Matilda temia a compaixão alheia. Desde muito antes e sem saber havia decidido viver todas as suas perdas sozinha, sem a intromissão de ninguém, às vezes nem de si mesma.

Nem preciso dizer que adorei o livro, inclusive fiquei bastante interessada em ler outras obras de Cristina Rivera Garza. E com certeza o farei!

Por fim, durante toda a leitura, fui surpreendida e deleitei-me com belas frases, cheias de significados não escancarados, mas que fazem pensar e concordar. Deixo algumas dessas frases aqui: 
Nos edifícios da linguagem sempre há corredores sem luz, escadas imprevistas, sótãos ocultos atrás das portas fechadas, cujas chaves se perdem nos bolsos furados do único dono, o soberano rei dos significados.

Há certas conversas que só podem se realizar em silêncio.

O abraço que antecede o amor, no qual o amor culmina, é tépido como uma brisa, escuro como uma mina. Uma fotografia.

Título: Ninguém Me Verá Chorar
Autor(a): Cristina Rivera Garza
Publicação original: 1999

6 de agosto de 2010

Lolita [Vladimir Nabokov]

A mais famosa obra do russo Vladimir Nabokov, Lolita é um best-seller polêmico. Ao menos o era na época de seu lançamento, em 1955. Claro que hoje causa menos impacto, mas a falta de pudor e o aspecto imoral da obra são características impossíveis de ser ignoradas.

O livro nos traz Humbert Humbert (é assim, repetindo mesmo) narrando em primeira pessoa sua obsessão por meninas púberes (entre 8 e 14 anos), às quais ele denomina “ninfetas”. Após uma série de insatisfações na Europa, Humbert, então um homem de meia-idade, muda-se para os EUA, e acaba por hospedar-se na casa de Charlotte Haze. A partir do momento em que conhece a filha de 12 anos de Charlotte, Dolores Haze, Humbert desenvolve uma grande paixão e obsessão pela menina.

O protagonista nos fala abertamente de seu lado pedófilo, de forma até “natural”, o que pode espantar um pouco os desavisados. Mas, ao contrário do que podem pensar, não considero a narrativa como sendo vulgar, e palavras de baixo calão não são utilizadas. A franqueza, essa sim dá as caras em todos os momentos, já que Humbert detalha seus atos, pensamentos e opiniões.

(...) ao longo de toda uma vida de pedofilia, já adquirira uma certa experiência, havendo possuído visualmente incontáveis ninfetas salpicadas de sol nos parques e me espremido, com depravada cautela, nos cantos mais quentes e apinhados de ônibus repletos de escolares.

Em primeira pessoa, Humbert dirige-se ora ao leitor ora ao júri (do crime do qual ele é acusado). É um protagonista com o qual é impossível haver uma identificação da parte dos leitores por razões óbvias, mas ao mesmo tempo é inevitável torcer para que ele fique bem, de alguma forma. Humbert sofre bastante, e é claramente notado algum desvio de ordem psicológica em sua personalidade; suas adoradas ninfetas perceptivelmente representam a menina Annabel por quem Humbert se apaixonou ainda criança, e ele parece buscá-la em cada garota que cruza seu caminho.

Humbert não se sente atraído por mulheres adultas; ainda que reconheça a beleza de algumas, constantemente refere-se a elas de forma repulsiva. Sente também notável aversão por garotas universitárias. No trecho abaixo vemos um exemplo de como ele se refere – de forma um tanto machista, inclusive – às mulheres com quem saía ("satisfazendo" suas necessidades sexuais):
As fêmeas humanas que me era permitido manusear eram apenas agentes paliativos.

Lolita me pareceu uma obra bastante completa, na maior parte do tempo envolta em uma atmosfera densa, mas com direito a pequenas aberturas através das quais o espírito do protagonista parece inundar-se de felicidade – efêmera e um tanto questionável, porém sincera.

Sendo o próprio Humbert quem narra o romance, a personagem de Lolita fica restrita à visão dele. Somente sabemos dela o que Humbert nos conta, e é particularmente interessante como não conseguimos enxergar Lolita como uma “criança” de 12 anos (eu, pelo menos, não consegui). Apesar de ter lá seus momentos infantis, a meu ver, a garota assemelha-se mais a uma adolescente ou jovem adulta que alterna momentos de malícia, rebeldia e inocência conforme suas necessidades e interesses pessoais. Mas isso é o que Humbert nos permite – ou nos direciona – a enxergar. Ele pinta uma Lolita cínica, até interesseira, que mostra aversão a atitudes que sugerem romantismo e que parece brincar com os sentimentos dele o tempo todo. Apesar disso, não descarto a hipótese de Lolita ser apenas uma criança travessa, por vezes confusa com a série de acontecimentos em sua vida durante a puberdade, tendo que lidar com a descoberta do sexo e de sentimentos tão novos na vida de qualquer menina de sua idade. Ao mesmo tempo, acredito que a falta da figura paterna e o aparecimento de Humbert, a princípio como namorado de sua mãe, a faz projetar nele sentimentos que teria por seu pai.

Apesar de finalizarmos a leitura com uma sensação de não conhecermos direito quem é Lolita – não sabemos o que ela pensa nem o que motiva seus atos –, acabamos nos flagrando sensibilizados por um Humbert triste, incompleto e que busca incansavelmente por alguma peça perdida em sua vida.

Lolita é uma obra imperdível, capaz de fazer com que nos deparemos com opiniões e sentimentos conflitantes acerca das personagens e acontecimentos. Não é possível odiar completamente o homem que relata as tantas situações repugnantes do livro, mas de igual forma é impossível defendê-lo. Esse clássico de Nabokov me faz pensar que a relação entre Humbert e Lolita, além de possuidora de peculiar beleza, assemelha-se à vida de uma forma geral: contraditória, difícil de ser julgada, e irremediavelmente incompreendida em sua totalidade.

Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo.

Título: Lolita
Autor(a): Vladimir Nabokov
Publicação original: 1955

23 de fevereiro de 2010

Saga Crepúsculo: opinião controversa


Primeiramente, para falar sobre a saga Crepúsculo, percebo ser correto considerar dois fatores importantes. O primeiro deles é que a saga em questão consiste em literatura bastante comercial. Este é um ponto fundamental na hora de se chegar a um parecer em relação a um livro: ater-se ao que ele originalmente propõe. Os livros da saga Crepúsculo são de fácil leitura, e devem ser encarados como ferramenta de entretenimento, e só. Estes livros têm tudo para agradar a maioria dos leitores (dentro do público-alvo estabelecido) e facilmente os transformam em fãs. O segundo fator a ser considerado é justamente a questão do público-alvo. A saga Crepúsculo é direcionada a um público específico, aconselhando-se então que a leitura seja feita sob a ótica deste. Também é importante alinhar expectativas, e não esperar coisas que não estejam de acordo com o universo do público em questão. Não adianta um adulto ler um livro direcionado a adolescentes e esperar que o conteúdo seja totalmente pertinente a ele, adulto; o resultado será um leitor decepcionado, que não enxergará possíveis pontos positivos na obra. Tendo estes dois fatores em mente, podemos então discutir sobre a saga que rendeu fama à autora Stephenie Meyer.

Ao contrário de muitas pessoas, eu nunca havia lido sequer uma página de Crepúsculo até ver o filme. Mesmo o filme, assisti-o no Telecine, ou seja, bem depois de ter saído dos cinemas. Gostei do filme (claro, dentro de sua proposta), e depois, curiosa, fui conferir Lua Nova. Então surgiu o interesse nos livros, a curiosidade de saber o porquê de tamanho sucesso.

SINOPSE
Dada a popularidade da saga, todos já devem conhecer de que se trata. Isabella Swan muda-se para a cidade de Forks, que nunca lhe agradou, para viver com o pai. Apesar de chamar a atenção de todos na escola, ela é uma garota reservada e um tanto desajeitada. Para dar uma temperada na vida insípida da cidade, Bella apaixona-se por Edward Cullen, um vampiro “vegetariano” que retribui seus sentimentos e que tem irresistível sede pelo sangue da garota, o que faz com que exercite um forte auto-controle. O estilo “amor proibido” está sempre presente a cada livro da saga, assim como as situações em que Bella encontra-se exposta a grandes perigos devido a sua proximidade com os Cullen.

IMPRESSÕES
Se eu demonstrasse minhas impressões sobre os livros da saga Crepúsculo em um gráfico, este seria repleto de altos – ou melhor, médios – e baixos. Ler o primeiro livro, Crepúsculo, foi uma experiência um pouco monótona, entediante, até. Confesso que cheguei a ficar irritada com o decorrer dos acontecimentos e diálogos entre as personagens. Motivo: muita repetição e sensação de lerdeza, as coisas nunca saíam do lugar.

Lua Nova me animou um pouco, e devo este fato à relação Bella-Jacob. A história pareceu ter um pouco mais de vida, um pouco mais de ação, apesar de continuar a apresentar pontos negativos como, por exemplo, as páginas em branco respectivas aos meses logo após a partida de Edward. Estes meses que a autora preferiu deixar em branco poderiam ser abordados com a profundidade merecida, até para mostrar facetas de Bella ainda não reveladas, mais como uma tentativa para que a personagem fosse mais elaborada e coerente. Contudo, achei que a partir do segundo livro as coisas finalmente iriam engrenar, mas ao ler Eclipse meu “gráfico de impressões” apresentou uma descida íngreme.

Defino Eclipse como um livro chato, boring, o que mais posso dizer? De novo, situações e diálogos que parecem não ter finalidade exceto nos manter presos num eterno “chove não molha”. De repente, alguns personagens resolvem contar toda a sua história de vida e amarrá-la à trama, sendo que estas histórias deveriam permear os acontecimentos desde o início. A facilidade com que se desenrolaram os momentos finais foi decepcionante, todo um planejamento para que tudo terminasse de forma tão fácil. Terminei o livro com o pensamento: “Mas, é só isso?”. Não gostei, ponto final.

Com a leitura de Amanhecer tive um certo aumento no grau de interesse e pude sentir-me mais entretida. Mas confesso que não me agradou de todo. Bella descobre os prazeres carnais (claro, somente após o casamento, né) e se descobre apreciadora “destas artes”. Edward sempre querendo ser correto, sempre cheio de cuidados, sempre cruzando a linha tênue que separa o extremamente romântico do irritante. Já habituados com o gosto de Bella pelo sofrimento, e sabendo que as conclusões acontecem com tamanha facilidade, “cozinhando” para depois serem indolores, não fica difícil saber como a história se desenvolverá e como será finalizada.

PONTOS POSITIVOS X PONTOS NEGATIVOS
Uma adolescente comum, cheia de conflitos, um príncipe encantado que ultrapassa a perfeição (e que se derrete pela adolescente comum, com quem é extremamente protetor), romantismo (e palavras doces, e promessas de amor), e um ingrediente especial: vampiros, que são seres naturalmente sedutores e possuidores de dons incríveis. É uma receita conhecida que funciona, e nem por isto deixa de ser boa. Um romance proibido aliado a elementos obscuros é instigante e não há como não se deixar envolver. A ideia da trama é acertada dentro de seu público-alvo, mas poderia ser bem melhor trabalhada e, inclusive, melhor escrita (em minha humilde opinião de leitora). O universo da história poderia, desde o primeiro livro, ser construído de forma mais sólida. A cada livro, surge (do nada) um fato de extrema importância que não havia sequer sido mencionado anteriormente, cuja função parece ser apenas a de chegar aos “finalmentes”, deixando um pobre rastro de explicações no decorrer da saga. Parece que a autora precisou desesperada e continuamente criar elementos novos, e foi tentando costurá-los, nos mostrando um universo mal elaborado, que apresenta “remendas” para que a continuação tenha sentido. À aparição destes elementos/acontecimentos, na tentativa de integrá-los à trama e amenizar a impressão de que apareceram do nada, são atreladas justificativas quaisquer, pouco ou nada convincentes, e que tendem a deixar o leitor com uma grande lacuna e muitas perguntas sem resposta ao término do último livro. Outra característica negativa, e que nem é necessário ler todos os livros da saga para notá-la, são os diálogos. Salvo alguns realmente importantes para o entendimento do livro, muitos outros diálogos lá existem sem razão de ser, num “lenga-lenga” cansativo e sem-graça.

(Ouvi dizer que haveria mais um livro da saga, Midnight Sun, e que seria algo como a versão de Edward para os acontecimentos do primeiro livro, Crepúsculo. Porém, ainda não se sabe se será mesmo lançado futuramente. Como leitora curiosa que sou, confesso que, se houver mesmo um quinto livro, é provável que eu o leia. Este é um dos males, ou não, das sagas: é geralmente difícil abandoná-las ao meio.)

PARA CONCLUIR
Em suma, os livros da saga Crepúsculo estão longe de estar entre os meus mais apreciados. Mas devo dizer que, apesar dos pontos negativos que percebi durante a leitura, estes livros foram leves e fáceis de ler, e me senti entretida enquanto os lia. Desta forma, também estão longe de ser uma leitura extremamente tediosa e insuportável. Estão bem ali, no meio-termo, e às vezes chego a achar que eles não merecem todo este alarde que tem sido feito. Enfim, é só uma opinião.

Já no cinema, gostei do resultado. Aliás, este foi um dos casos raríssimos em que gostei mais dos filmes que dos livros, pois achei que não deixaram a desejar em nada (mesmo não sendo extremamente fiéis às obras). Os filmes Crepúsculo e Lua Nova me prenderam, e a trilha sonora, principalmente deste último, foi muito bem escolhida (ouçam A White Demon Love Song e me digam se estou mentindo... adoro The Killers =D ). E, sim, estou curiosa a respeito da versão cinematográfica de Eclipse.


Todo livro é um excelente aliado no exercício do pensamento crítico. Muita gente critica por criticar, de forma até radical, sem conhecer ou pelo simples fato do livro ter virado febre entre os leitores. Não concordo com isto, pois acredito que a crítica deve ter por base argumentos sólidos, ainda que não sejam verdades inquestionáveis, mas que sejam realmente percebidos por quem está criticando, que façam parte de sua impressão pessoal a respeito da obra. Aliás, sou da opinião de que se deve sempre conhecer para criticar. E, finalmente, acredito na total possibilidade de apreciar algo e, ao mesmo tempo, ter suficiente discernimento para saber apontar seus pontos negativos.

Título: Crepúsculo / Lua Nova / Eclipse / Amanhecer
Autor(a): Stephenie Meyer

Publicação original: 2005 / 2006 / 2007 / 2008

19 de fevereiro de 2010

O Amor nos Tempos do Cólera: uma obra-prima de verdade!

Definitivamente, uma vez lida, não tenho como deixar passar em branco uma obra de Gabriel García Márquez. Por isto, dedico este post ao livro O Amor nos Tempos do Cólera, que li recentemente e que me mantém encantada até os presentes minutos.

Para os amantes de uma boa história de amor, o livro é um prato cheio. Florentino Ariza, um rapaz puro e simples, apaixona-se ainda na juventude por Fermina Daza, jovem altiva e de gênio bastante forte. Após iniciarem um breve romance através de cartas, seguido de uma viagem de Fermina Daza para visitar sua prima Hildebranda (imposta por seu pai com o objetivo de deixar para trás o romance de juventude), Fermina Daza acaba por rejeitar Florentino Ariza de forma repentina ao retornar de viagem, pois percebe uma discrepância entre a imagem idealizada que nutria e a realidade do homem que encontrou frente a si. Casa-se então com o célebre doutor Juvenal Urbino, o que lhe rende o ingresso à alta sociedade e uma vida estável e de paz.

Já Florentino Ariza, cada vez mais distante de sua amada, preenche sua vida com relações passageiras, enquanto escreve cartas de amor encomendadas por terceiros, cartas que foram capazes de unir jovens casais enquanto seu autor permanecia só em seu inferno privado. Se nas cartas de amor Florentino Ariza colocava todo o seu ser e obtinha êxito, no ofício já não teve a mesma sorte: suas cartas comerciais eram demasiado líricas e assemelhavam-se a cartas de amor. Contudo, Florentino Ariza destacou-se pela perseverança. Ter Fermina Daza converteu-se em seu projeto de vida – o fato de ser casada e com filhos nunca foi obstáculo – e, a partir disto, reuniu força e motivação que o levaram a tornar-se responsável pela Companhia Fluvial do Caribe e, consequentemente, uma figura pública de importância inquestionável. Após meio século de espera febril (51 anos, 9 meses e 4 dias, para ser mais exata), Florentino Ariza reafirma suas juras de amor eterno na primeira noite da viuvez de Fermina Daza, e prova-nos que o amor é imune ao tempo – ainda que as pessoas não o sejam – e que não há idade para amar.

A deliciosa narrativa de Gabriel García Márquez e o retrato mágico do Caribe do século XIX, assolada pelo fantasma do cólera, são dois pontos mais que positivos deste livro. Somemos a eles os acontecimentos fantásticos tão bem costurados à realidade – e por isso são, de fato, reais – e temos uma obra-prima completa. Não posso citar pontos negativos, pois este livro simplesmente não os tem.

Para os mais curiosos, vale a pena conferir o filme O Amor nos Tempos do Cólera (2007), de Mike Newell, que traz Javier Bardem na pele de Florentino Ariza e Fernanda Montenegro vivendo a mãe do protagonista. No entanto, somente indico o filme a título de curiosidade mesmo, já que não há um aprofundamento na relação entre Fermina Daza e o doutor Juvenal Urbino, e nem confere a carga de sentimentos que nos transmite o livro.

Título: O Amor nos Tempos do Cólera
Autor(a): Gabriel García Márquez

Publicação original: 1985

15 de fevereiro de 2010

Moulin Rouge, amores doloridos e boemia latejante

Desfiles das escolas de samba, carros alegóricos, aquele som infernal (perdoem-me os apreciadores) vindo da televisão e de onde quer que seja; ao invés de tudo isso, amores não correspondidos, “French Cancan”, as ruas de Montmartre e o famoso Moulin Rouge. Com vocês, uma ótima opção para os que não morrem de amores pelas festividades do Carnaval, mas ainda assim querem preencher o feriado com algo de qualidade: Moulin Rouge!

Ao contrário do que muitos podem pensar de início, o livro Moulin Rouge não relata aquela linda história de amor entre Christian e Satine do filme de Baz Luhrmann, mas sim a trajetória (mais como uma biografia romanceada) do pintor francês pós-impressionista e litógrafo Henri-Marie-Raymonde de Toulouse-Lautrec-Monfa, ou apenas Henri de Toulouse-Lautrec; e devo dizer: é um livro que figura entre os meus favoritos.

Toulouse-Lautrec nasceu na nobreza francesa, mas foi a vida boêmia parisiense de fins do século XIX que ele adotou como sua (ou teria sido a boemia que o adotou?). Essa vida, inclusive, era o tema principal de suas pinturas; seu estilo mostrava linhas livres e cores intensas, transmitindo expressividade e movimento. Dançarinas como La Goulue e Jane Avril apareciam retratadas em seus cartazes para o cabaré Moulin Rouge, onde exercia papel de frequentador assíduo.

Contudo, a vida de Toulouse-Lautrec esteve longe da felicidade e glória, estas se mostrando apenas como leves e efêmeros (por vezes falsos) sopros em sua trajetória. Sua doença – que fez dele um homem adulto com pernas de menino –, o sabor amargo dos amores não correspondidos e o alcoolismo desempenharam importantes papeis em sua curta vida e conferem uma dose extra (e realmente emocionante) de drama na história. Outra característica que torna o livro ainda mais cativante são as interações – reais – entre Toulouse-Lautrec e nomes célebres como Vincent Van Gogh, entre outros.

Moulin Rouge é um livro para ser saboreado em todas e cada uma de suas palavras. Moulin Rouge é atrevido ao tocar-nos o fundo da alma. Moulin Rouge é um livro de amor, ainda que em sua mais triste faceta.

Curiosidades:
- Este livro deu origem a um filme de mesmo nome, Moulin Rouge (1952), dirigido por John Houston e ganhador de 2 estatuetas do Oscar.
- No filme Moulin Rouge de Baz Luhrmann (2001), Toulouse-Lautrec aparece como um personagem secundário, envolvido e sofrendo com as tragédias do casal protagonista.

    
Pequenos exemplos da arte de Toulouse-Lautrec

Título: Moulin Rouge
Autor(a): Pierre La Mure
Publicação original: 1950

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