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2 de maio de 2012

Para Sempre [Kim e Krickitt Carpenter]

Para Sempre fala, acima de tudo, de superação. Por se tratar de uma história real, o livro traz certa carga sentimental e nos faz refletir sobre a importância da motivação perante situações difíceis.

A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente no dia 24 de novembro de 1993, dois meses após o seu casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a "Krickitt" com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava.

Como narrador, Kim Carpenter conta sua história de amor com Krickitt, como se conheceram, o casamento, e o acidente que mudou a vida de ambos e suas consequências. Ele descreve suas angústias – derivadas do acidente – e faz com que o leitor perceba a grandiosidade de seu amor pela esposa.

Uma característica da obra que não me agradou foi a ênfase que é dada, constantemente, na religião e na fé em deus. Ainda que estes tenham sido aspectos fortes na história de Kim e Krickitt (e lembrando que tudo é narrado por Kim), a impressão é a de que o texto tenta convencer o leitor de que a fé cristã foi a principal responsável pela sobrevivência e recuperação de Krickitt, e ainda, pela reestruturação da vida do casal. Ou seja, as pessoas que cruzaram o caminho do casal, os ótimos profissionais envolvidos, etc, tudo teria sido “colocado” na vida deles por obra da fé. Um pouco demais, não?

Abri o review falando que esta é uma história de superação. E prefiro continuar nesta perspectiva, digamos, mais realista – ou racional, se preferirem. Acredito que, no lugar das palavras “fé” ou “deus”, caberiam muito bem estas outras palavrinhas mágicas: “determinação”, “força de vontade”, “amor”.

Permitam-me abrir um parêntese:
Ao “julgar” o livro pela capa, o leitor espera encontrar “a história que inspirou o filme” – conforme lemos na própria capa. Não vi o filme, portanto não sei apontar as semelhanças e diferenças em relação ao livro e à história real. O que não se imagina, no entanto, é a abordagem através da qual é contada essa história. Somente ao olhar os dados de catalogação no interior do livro, é que vemos como item número 1: “Biografia cristã”. Informação que a capa e a sinopse não transmitem. Se, por um lado, isto pode servir para “aumentar” o público abrangente, no final, a quantidade de leitores decepcionados também é maior. Leitores que, muito provavelmente, não fazem parte do real público do livro. (Um consumidor insatisfeito sempre tem boa memória.)

Para Sempre não foi uma leitura muito marcante em termos positivos. Mas o texto também não é horrível. Tirando todo o aspecto em torno da religião, é interessante observar a reconstrução da vida do casal. O livro ainda reúne características capazes de fazer com que alguns leitores se emocionem. Contudo, e particularmente falando, Para Sempre não conseguiu me causar grande comoção.
Título: Para Sempre
Título original: The Vow
Autor(a): Kim e Krickitt Carpenter
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012
Ano da obra: 2012
Páginas: 144

20 de março de 2012

Zodíaco [Robert Graysmith]



Aterrorizando a cidade de San Francisco desde 1968, o serial killer Zodíaco, em cartas cheias de escárnio enviadas aos jornais, escondia pistas sobre sua identidade e usava astuciosas mensagens criptografadas que desafiavam as maiores mentes decifradoras de código da CIA, do FBI e da NSA. Nessa época, o autor, Robert Graysmith, era o cartunista de política do maior jornal do norte da Califórnia, o San Francisco Chronicle, de forma que estava lá quando cada uma das cartas criptografadas, cada mensagem codificada, cada farrapo de roupa ensanguentada das vítimas chegou à redação. Esta é a história real de uma caçada que se estende por mais de duas décadas e que ainda persiste.

Zodíaco é o tipo de livro indicado para quem, como eu, curte o gênero policial. Não se trata, porém, de um romance policial; o livro relata fatos verídicos, o que certamente proporciona doses extras de emoção. Por mostrar uma história real e ser considerada uma obra de não ficção, a narrativa não mergulha em um “tom” muito literário, digamos que ela apenas esbarra aí, mas o aspecto de relato termina por dominar a maior parte das 416 páginas do livro.

Considerei – opinião bastante pessoal – o início meio “fraquinho”. No entanto, do terceiro capítulo em diante, o livro adquire um ritmo que eu chamaria mesmo de alucinante. A partir do momento em que o assassino Zodíaco começa a enviar cartas aos jornais de San Francisco, é impossível largar o livro. Os capítulos são nomeados de acordo com os crimes e, ainda, estes são subdivididos por datas, o que faz com que realmente acompanhemos a cronologia do caso.

Uma das cartas enviadas pelo
assassino Zodíaco
Detalhes dos crimes e das investigações fazem toda a diferença. Passagens peculiarmente interessantes como, por exemplo, a que explica o procedimento de autópsia e também as buscas por impressões digitais, aproximam ainda mais o leitor dos fatos que estão sendo relatados acerca do caso do tão conhecido (e enigmático) serial killer. Mas, a cereja do bolo aqui é, com certeza, a reprodução das cartas – na íntegra – que o assassino enviou à imprensa, além da inclusão de mapas e retratos falados. Também vale a pena mencionar que o caso tem um teor psicológico importante – o que achei sensacional.

Justamente por se tratar de um caso real, nem tudo o que é relatado apresenta um “sentido perfeito”, não é aquele quebra-cabeça em que as peças se encaixam pouco a pouco e progressivamente. Pistas confusas, suspeitos incertos, além de questões que surgem na cabeça ao longo do livro... Não é difícil surpreender a si mesmo tentando desvendar o caso com base no que é fornecido no livro.

Leitura fortemente recomendada! Esta edição inclui ainda um capítulo falando sobre o filme homônimo, de 2007, dirigido por David Fincher.

Título: Zodíaco
Título original: Zodiac
Autor(a): Robert Graysmith
Editora: Novo Conceito
Edição: 2007
Ano da obra: 1986
Páginas: 416

27 de novembro de 2011

O Escafandro e a Borboleta [Jean-Dominique Bauby]


Em 8 de dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral mergulhou brutalmente Jean-Dominique Bauby em coma profundo. Ao sair dele, todas as suas funções motoras estavam deterioradas. Atingido por aquilo que a medicina chama de “locked-in syndrome” (literalmente, trancado no interior de si mesmo), ele não podia mexer-se, comer, falar e nem mesmo respirar sem a ajuda de aparelhos. Em seu corpo inerte, só um olho se mexia. Esse olho – o esquerdo – é o vínculo que ele tem com o mundo, com os outros, com a vida. Com esse olho, ele pisca uma vez para dizer “sim”, duas para dizer “não”. Com esse olho, ele chama a atenção de seu visitante para as letras do alfabeto que lhe são ditadas, formando assim palavras, frases, páginas inteiras... Com esse olho, ele escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, foi memorizando as páginas antes de ditá-las e de corrigi-las, depois.
Do interior da bolha de vidro de seu escafandro, onde voam borboletas, ele nos envia cartões-postais de um mundo que só podemos imaginar. Quando só restam palavras, nenhuma palavra é demais.
Jean-Dominique Bauby nasceu em 1952. Jornalista, tinha dois filhos e era redator-chefe da revista Elle francesa. Faleceu dez dias depois da publicação do livro, em 1997.

Desde que vi o filme, de mesmo título e dirigido por Julian Schnabel (2007), tive uma vontade louca de ler o livro. E não me arrependi.

Cartaz do filme - imperdível
Apesar do contexto trágico em que foi escrito, O Escafandro e a Borboleta não é um livro para se debulhar em lágrimas – pelo menos, isso não aconteceu comigo. A partir da condição do autor e de suas narrações a respeito do cotidiano visto de dentro do seu escafandro, somos inseridos em um rico processo de auto-reflexão. Narrado em primeira pessoa, o livro traz uma grande lição de vida embutida nas entrelinhas. Contudo, ao contrário do que muitos possam vir a pensar, não chega nem perto do piegas e não contém excessos de sentimentalismo.

Uma característica interessante é que os capítulos são meio que “independentes” entre si; em cada um deles (que, em muitos momentos, assemelham-se a crônicas), um aspecto diferente é abordado sob a ótica – genial, eu diria – do autor. Desta forma, a leitura não se aproxima, em nenhum momento, do tédio e não tem enrolações de nenhuma espécie. Mesmo em um contexto denso e considerando seu triste estado, Jean-Do tem um senso de humor incrível. Por vezes, utiliza da ironia e do sarcasmo, revestindo seu sofrimento em uma roupagem mais “leve”. Ainda assim, nunca deixamos de notar que o desespero existe e é grande. Importante: o livro não é uma biografia (apesar de eu ter colocado "biografia" como uma das tags, simplesmente por seu fator real), porém tudo o que lemos é real e foi escrito pelo próprio Jean-Dominique, orientando-se pelo alfabeto ditado e usando seu olho para indicar as letras.

Para terminar, O Escafandro e a Borboleta é realmente uma daquelas obras que, em algum momento da vida, todo mundo deveria ler.

Título: O Escafandro e a Borboleta
Título original: Le Scaphandre et le Papillon
Autor(a): Jean-Dominique Bauby
Editora: Martins Fontes
Edição: 2009
Ano da obra: 1997

1 de abril de 2010

Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde

“Para Jérôme, que largou tudo e foi dar a volta ao mundo.
Para Mathieu, que não largou nada e dá voltas no escritório.
E para todos que sonham chutar o balde...”

Após o sucesso de Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho, livrinho genial, eu não podia deixar de conferir o Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde. E confesso que este último também conquistou minha simpatia, além de melhorar consideravelmente o meu humor a cada página virada.

Assim como no livro anterior, atividades um tanto lúdicas cujo tema é o ambiente corporativo também aparecem aqui. Mas isso não é tudo; também encontramos passatempos irônicos envolvendo amigos, familiares e aquelas obrigações sociais das quais sempre queremos – e muitas vezes não podemos – fugir.

Através deste irreverente livrinho de capa verde, a autora Claire Faÿ nos encoraja a nos libertarmos de algum peso (ou melhor, pessoa) imenso que carregamos, e a levar as abobrinhas para colorir na próxima reunião de trabalho. Em um barquinho, podemos desenhar companheiros que também remam contra a maré (e assim nos convencemos de que não estamos sozinhos) – ótimo para ajudar a retardar um pouco o processo de desmotivação. Se estivermos cansados de ficar à sombra alheia (sinto que isso cabe perfeitamente no mundo corporativo), basta desenhar-nos a nós mesmos à sombra de um belo coqueiro e está tudo resolvido... Pelo menos por enquanto!

Com o Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde, em poucos minutos, vemos como é simples dar um bolo em alguém ou simplesmente reconhecer (sem culpa) aquele cabeça-de-bagre em um jantar de família. Agora, se o problema for um chefe mala, eis a solução: a cada crítica que ele fizer, simplesmente dê a ele um “vale 1 ponto - demissão”. Continue fazendo isso até completar toda a cartela do livro e, junto com o último ponto, seu chefe receberá a simpática mensagem “Parabéns! Ganhou minha demissão”. Simples assim.

Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde é uma ótima opção quando o objetivo for o humor. E digo mais, se estiver em dúvida do que dar de presente para algum colega no amigo secreto do trabalho, não precisa nem pensar duas vezes: se o livrinho não resolve os entraves do dia-a-dia, pelo menos garante uns bons momentos de descontração!

Confira a seguir algumas páginas do livro (clique para ampliar em nova janela):

     

  

Título: Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde
Autor(a): Claire Faÿ
Publicação original: 2007

LEIA TAMBÉM:
Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho

16 de março de 2010

Incomodada ficava a sua avó

Apesar de ser formada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, raras vezes me vi interessada em um livro sobre o tema. Cheguei a ler umas poucas “partes importantes” de alguns livros, conforme a necessidade para trabalhos e provas da faculdade. E só. Até que chegou às minhas mãos este livro aí ao lado, Incomodada Ficava a sua Avó; desde que o li, ocupa o posto de um dos únicos livros que gostei – e que li inteiro – acerca do tema Propaganda.

“Anúncios que marcaram época e curiosidades da propaganda”. Como diz o subtítulo, o livro é composto por uma coletânea de anúncios antigos acompanhados por crônicas bem-humoradas do renomado publicitário Lula Vieira, publicadas no Jornal do Commercio. Mas o que torna este livro tão atraente é que, através dos anúncios, mostra um verdadeiro reflexo do que era a sociedade brasileira e seus costumes nas décadas de 20, 30, 40,...

Surpreende ver como o preconceito por vezes aparecia de forma natural nos anúncios (coisa que não seria aceita com bom humor nos dias de hoje), a forma cruel com que os anúncios se dirigiam aos gordos, e o glamour e a elegância do hábito de fumar (chegando ao absurdo de se anunciar que determinado cigarro não afetava negativamente o organismo). É também bastante interessante ver os anúncios publicados durante a Segunda Guerra Mundial, em que diversas empresas paravam momentaneamente sua produção habitual para dedicar-se unicamente à produção de equipamentos para as Forças Armadas, fazendo com que determinados produtos se tornassem impossíveis de serem adquiridos. Um anúncio da Philco, por exemplo, dizia que os esforços para a guerra trariam algum bem para a humanidade, já que “os laboratórios da Philco estão realizando milagres na ciência eletrônica, muitos dos quais têm direta aplicação em produtos de tempo de paz”. Já a fabricante de máquinas de escrever Smith Corona, orgulhosamente, dizia que “os que atualmente possuem as máquinas L C Smith estão de sorte”, uma vez que “eles sabem que as suas L C Smiths durarão todo o período da guerra com o mínimo de serviços de reparação”.

O livro nos faz viajar por épocas em que os anúncios falavam ao público de forma rebuscada, com textos que divertem ao serem lidos atualmente. Você por acaso imaginaria que ao utilizar os Batons Michel seus lábios ganhariam “repentinamente a suavidade e a brandura dos lábios de uma menina”? Ou então, que o mesmo produto na tonalidade Amapola daria a seus lábios “o poder cativante da formosura divina”? Eu realmente gostaria de saber que poder é este!

Outra característica muito presente nos anúncios de tempos antigos é a presença de promessas impossíveis na forma de produtos milagrosos, capazes de curar 2.578 enfermidades, garantindo uma velhice feliz e saudável. Para as mulheres havia a Pasta Russa, que prometia levantar e “reativar” os tecidos dos seios (silicone para quê, não é mesmo?), uma vez que seios bonitos “são o tesouro mais precioso da mulher”, conforme dizia outro anúncio da época. Já para os homens, o fantástico Potentol garantia o equilíbrio das funções orgânicas, sendo a função sexual a mais importante; tudo muito bem dito e finalizado com as seguintes palavras: “Potentol dá alegria a uma vida triste”.

E a diversão continua com os anúncios de desodorantes, com clara intenção didática, em uma época em que seu uso era quase desconhecido. Merecem especial destaque os anúncios da Coca-Cola, com seus layouts bonitos e bem acabados, e a aparentemente impossível tarefa de introduzir a bebida no mercado brasileiro.

Enfim, poderia continuar falando dos anúncios por horas! É um livro que merece ser lido e que garantirá boas risadas, surpresas e momentos de nostalgia (no meu caso, uma nostalgia curiosa que costumo sentir às vezes... sabe aquela “saudade” de épocas que não vivemos?). Durante a leitura é possível notar como vários anúncios, criados há muitas décadas atrás, ainda são bastante atuais e funcionariam nos dias de hoje, não fosse um ou outro detalhe. É um livro para todos, independentemente se possuem alguma ligação ou prévio conhecimento em Publicidade e Propaganda. Os capítulos possuem títulos aleatórios, simplesmente agrupando as crônicas por assunto. Os anúncios não são apresentados em ordem cronológica, e nem os temas são abordados de forma muito aprofundada. Como diz o autor, “é uma conversa aberta sobre propaganda, onde o assunto principal serve como fio condutor, como pontapé inicial”.

É um livro muito agradável de ser lido, com textos curtos e muitas imagens. Mas ao contrário do que podem pensar, não o li em um só fôlego, mas o fiz de forma gradual e contínua, mantendo-o em minha cabeceira durante boas semanas. Todo noite eu o pegava e consumia uma pequena dose diária do mix de informação/curiosidades/humor que o livro oferece. E posso dizer que o resultado foi satisfação garantida!

Em tempo: esclarecendo o nome do livro, “Incomodada ficava a sua avó” é o título (em forma de trocadilho) de um anúncio de absorvente íntimo, já que antigamente não se referia à menstruação de forma direta – o período menstrual era chamado de “incômodo”. Com a criação dos novos absorventes íntimos, segundo o autor, “o lançamento de um deles marcava a diferença das duas épocas, dramatizando a diferença da atitude e da própria linguagem”.

Finalizo aqui com um trecho de uma das crônicas que compõem o livro:
“Acredito que entre as coisas que o mundo moderno esqueceu, o pó-de-arroz é uma das perdas mais dramáticas. Sem ele é muito mais difícil e caro fazer ‘sua presença maravilhosa nos footings elegantes, nos salões e no convívio aristocrático’. Aliás, junto com o pó-de-arroz, acabou também esse tal de convívio aristocrático democrático e universal. Já delirando – efeito do pó – eu diria que o desaparecimento do pó-de-arroz em nossa sociedade é a causa de toda a desigualdade social. Afinal, como se vê nos anúncios, para se freqüentar ‘os theatros e casinos’, bastava usar um pouco de pó-de-arroz.”

Título: Incomodada Ficava a sua Avó
Autor(a): Lula Vieira
Publicação original: 2003

7 de março de 2010

Brincadeira Literária: O Diário de Anne Frank


Você se lembra do primeiro livro que leu? E que tal o livro mais velhinho aí na sua estante?
Eis o meu post para a Brincadeira Literária:

Não me lembro com exatidão se este foi o primeiríssimo dos livros não infantis que li, mas certamente ocupa uma das primeiras posições. E sim, ele também ocupa o lugar de livro mais velhinho na minha estante atualmente. Este livro é O Diário de Anne Frank. A edição que tenho é bem velhinha e fiz questão de colocar ao lado a capa dela, aliás, nunca vi outro com esta mesma capa. Na verdade, este livro era da minha mãe, e foi ela quem me incentivou a lê-lo, mas desde bem mais nova eu já tinha adotado com fervor o hábito da leitura. Lembro que quando minha mãe me mostrou o livro e sugeriu que eu o lesse, fiquei bastante atraída pelo tema e por ser o relato de uma menina e, de fato, foi um livro que gostei muito de ter lido. Também não me recordo exatamente da idade que eu tinha quando li este livro, assim como não me lembro de todos os mínimos detalhes da história, então tive que recorrer a algumas pesquisas básicas para relembrar alguns detalhes e redigir este post.

Em 1942, Anneliese Marie Frank ganha um diário de presente ao completar 13 anos e nele começa a relatar a vida comum de uma garota no início da adolescência. Pouco depois, sua irmã recebe uma notificação da SS, fazendo com que a família se esconda no “Anexo Secreto”, um esconderijo improvisado nos fundos do escritório de seu pai. No decorrer do livro são relatadas as dificuldades de adaptação à vida no esconderijo, as (muitas) limitações, o convívio dificultoso entre a família e mais quatro amigos judeus também escondidos no mesmo local. Durante o tempo em que se mantiveram escondidos, tiveram a ajuda de alguns funcionários e amigos do escritório de seu pai para o abastecimento de comida, vestuário e itens de higiene. Apesar de serem abordadas diversas questões da época, o diferencial são os relatos bastante pessoais e o cotidiano dos habitantes do esconderijo, tudo sob o ângulo de uma menina. A instabilidade, os conflitos da adolescência, a descoberta da sexualidade e do amor se fazem presentes e, inclusive, percebemos o amadurecimento de Anne através das páginas do seu diário. Com todas as dificuldades e tristezas, ainda havia lugar para a esperança e perspectivas para o futuro. Os longos meses no esconderijo tiveram fim ao serem denunciados aos nazistas, e Anne foi, então, levada para um campo de concentração. Os habitantes do “Anexo Secreto” foram inicialmente deportados para Auschwitz; depois, Anne e sua irmã, Margot, foram separadas dos pais e levadas a Bergen-Belsen. Em 1945, meses após a deportação, Anne falece com apenas 15 anos, vítima de tifo. Dos habitantes do Anexo, Otto H. Frank, pai de Anne, foi o único sobrevivente após a guerra (falecido em 1980). O “Anexo Secreto”, em Amsterdã, é hoje um museu (Casa de Anne Frank).

Muito além de simples relatos de acontecimentos dos mais tristes e vergonhosos já vivenciados pela humanidade, este livro é uma verdadeira lição. Envolto em emoção e sinceridade, faz com que acompanhemos de perto a vida das pessoas no Anexo. Se por um lado os relatos são muito pessoais e não podem ser tidos como verdades absolutas em termos de História, eles são ricos justamente por serem individuais, dando-nos uma comovente dimensão do que os acontecimentos significaram na vida das pessoas. Através destes relatos, podemos enxergar as atrocidades daqueles tempos sob outro ângulo, bem diferente das meras estatísticas apresentadas nos livros de História.

Acho interessante comentar que existem controvérsias quanto à autenticidade do famoso diário, questionada desde sua primeira publicação, principalmente por Robert Faurisson, um negacionista do Holocausto, condenado diversas vezes por “contestação de crimes contra a humanidade”.

Finalizo aqui, com uma simples verdade: O Diário de Anne Frank é um livro que merece ser carregado conosco por gerações.

Título: O Diário de Anne Frank
Autor(a): Anne Frank, Otto H. Frank, Mirjam Pressler
Publicação original: 1947

4 de fevereiro de 2010

Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho

Foi num final de semana, há meses atrás, enquanto caminhava entre as prateleiras da Livraria Cultura (lugar adorável!) que o vi. Estava lá todo modesto, espremido entre livros bem maiores e o vidro da prateleira. E graças ao vidro eu o vi. A capa laranja também ajudou, apesar do tamanho compacto. Acabei passando reto, mas aquele título ficou por uns segundos na minha cabeça e tive que voltar para ver do que realmente se tratava. Uma ideia daquelas seria genial demais, eu pensei, e realmente era.

Com certo esforço, consegui resgatá-lo da prateleira. Fitei a capa, o título dizia  Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho. Demorei-me um pouco nela: a capa de um livro, quase sempre, é algo muito interessante se olhar às pressas. E, por fim, o abri. (Curiosidade: da artista gráfica francesa Claire Faÿ, o livro foi lançado em 2006 e surpreendeu ao permanecer na lista de best-sellers da França. Em 2007, esteve entre os 10 livros mais vendidos do mesmo país.)

O que eu posso dizer é que o livrinho me surpreendeu. A cada página deparei-me com passatempos bastante interessantes e totalmente dentro do contexto do ambiente no qual passamos 8 das 24 horas do nosso dia. E muita gente, ao ver o livro, deve ter se surpreendido pelo mesmo sentimento de identificação. Atividades como "desenhe a vaca indo para o brejo" me fizeram rir por apresentar causos do dia-a-dia que ainda nos deixarão uma úlcera nervosa de recordação. Uma atividade em especial achei genial, trata-se do já conhecido "relacione a coluna da esquerda com a coluna da direita", sendo que a coluna da esquerda eram as corriqueiras e mais que irritantes coisas que normalmente fazemos nos escritórios (responder email do chefe, por exemplo). Já a coluna da direita é que era boa, com desenhos de gestos com a mão (apontando o dedo de diversas formas, com significados nada amigáveis). Ligar as colunas nunca foi tão divertido desde aqueles passatempos que eu fazia nos gibis da Turma da Mônica! Merece atenção especial também o "coloque os pingos nos i's" e a "pausa para o café: colorir as xícaras até transbordarem" (a versão chá ou chocolate quente seria muito bem-vinda também, não?).

Em suma, apesar de ser fininho e relativamente discreto (não fosse pela capa laranja), o Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho diverte e ameniza as tensões de um dia atribulado. Ele é ousadinho, provoca sem avacalhar, já que, em tempos nos quais vender a alma para o demo já virou passado – agora a gente vende a alma para as corporações –, todo cuidado é pouco.

Título: Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho
Autor(a): Claire Faÿ

Publicação original: 2006

LEIA TAMBÉM:
Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde

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