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2 de maio de 2012

Para Sempre [Kim e Krickitt Carpenter]

Para Sempre fala, acima de tudo, de superação. Por se tratar de uma história real, o livro traz certa carga sentimental e nos faz refletir sobre a importância da motivação perante situações difíceis.

A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente no dia 24 de novembro de 1993, dois meses após o seu casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a "Krickitt" com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava.

Como narrador, Kim Carpenter conta sua história de amor com Krickitt, como se conheceram, o casamento, e o acidente que mudou a vida de ambos e suas consequências. Ele descreve suas angústias – derivadas do acidente – e faz com que o leitor perceba a grandiosidade de seu amor pela esposa.

Uma característica da obra que não me agradou foi a ênfase que é dada, constantemente, na religião e na fé em deus. Ainda que estes tenham sido aspectos fortes na história de Kim e Krickitt (e lembrando que tudo é narrado por Kim), a impressão é a de que o texto tenta convencer o leitor de que a fé cristã foi a principal responsável pela sobrevivência e recuperação de Krickitt, e ainda, pela reestruturação da vida do casal. Ou seja, as pessoas que cruzaram o caminho do casal, os ótimos profissionais envolvidos, etc, tudo teria sido “colocado” na vida deles por obra da fé. Um pouco demais, não?

Abri o review falando que esta é uma história de superação. E prefiro continuar nesta perspectiva, digamos, mais realista – ou racional, se preferirem. Acredito que, no lugar das palavras “fé” ou “deus”, caberiam muito bem estas outras palavrinhas mágicas: “determinação”, “força de vontade”, “amor”.

Permitam-me abrir um parêntese:
Ao “julgar” o livro pela capa, o leitor espera encontrar “a história que inspirou o filme” – conforme lemos na própria capa. Não vi o filme, portanto não sei apontar as semelhanças e diferenças em relação ao livro e à história real. O que não se imagina, no entanto, é a abordagem através da qual é contada essa história. Somente ao olhar os dados de catalogação no interior do livro, é que vemos como item número 1: “Biografia cristã”. Informação que a capa e a sinopse não transmitem. Se, por um lado, isto pode servir para “aumentar” o público abrangente, no final, a quantidade de leitores decepcionados também é maior. Leitores que, muito provavelmente, não fazem parte do real público do livro. (Um consumidor insatisfeito sempre tem boa memória.)

Para Sempre não foi uma leitura muito marcante em termos positivos. Mas o texto também não é horrível. Tirando todo o aspecto em torno da religião, é interessante observar a reconstrução da vida do casal. O livro ainda reúne características capazes de fazer com que alguns leitores se emocionem. Contudo, e particularmente falando, Para Sempre não conseguiu me causar grande comoção.
Título: Para Sempre
Título original: The Vow
Autor(a): Kim e Krickitt Carpenter
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012
Ano da obra: 2012
Páginas: 144

3 de junho de 2011

Frida Kahlo [Rauda Jamis]

Mais que uma simples biografia romanceada, Frida Kahlo (de Rauda Jamis) é uma verdadeira preciosidade.

Frida Kahlo (1907-1954) foi uma consagrada pintora mexicana que revolucionou a arte em seu país e no mundo. Esposa do grande pintor mexicano Diego Rivera, a obra de Frida é caracterizada principalmente por seus famosos autorretratos. Admirada por artistas e intelectuais da época (Picasso foi um deles), Frida teve uma vida singular, na qual arte, dor, amor e política se mesclaram com uma intensidade brutal.

Contraiu poliomielite durante a infância e, aos 16 anos, foi vítima de um terrível acidente que mudou o rumo dos seus dias, fazendo de sua vida uma alternância de torturas causadas pelas inúmeras lesões na coluna vertebral. Passou grande parte da vida prostrada em uma cama e sofrendo o martírio imposto pelos dolorosos corpetes de gesso que era obrigada a usar. A pintura surgiu da dor e suas obras retratavam seu mundo. Ainda que alguns aproximassem sua arte do Surrealismo, ela o negava e, decididamente, reforçava que pintava a própria realidade.

Sinto que sou totalmente suspeita para resenhar esse livro. Primeiro porque tenho uma incansável admiração por Frida Kahlo. E, em segundo lugar, porque há tempos e tempos eu vinha nutrindo uma vontade imensa de ler uma biografia da pintora. Então, como não podia deixar de ser, devorei o livro com uma avidez sem igual. Não houve uma página da qual eu não gostasse (parece exagero, mas garanto que não é!).

Biógrafa e biografada, por vezes, tornam-se uma só durante o texto, conferindo beleza e força à obra. Durante a leitura nos deparamos com extratos de cartas e citações (tão famosas) de Frida, o que torna o livro ainda mais enriquecedor. Um livro especial; disso não tenho dúvidas. Descobrir a vida de Frida Kahlo foi uma experiência envolvente: as dores tão intensas, o amor conturbado com Diego Rivera, o reconhecimento como artista, o trauma de não conseguir ter filhos, o envolvimento com o Partido Comunista,... Leitura mais que obrigatória para os admiradores da pintora mexicana, e para todos os leitores que desejam deixar-se envolver pelo relato de uma trajetória sem igual. A personalidade, a inteligência, a profundidade, o talento e a fibra de Frida surpreendem de verdade.

Li uma edição espanhola e penso que foi uma ótima escolha, já que fazia muito tempo (muito mesmo!) que não lia em espanhol. Porém a recomendaria apenas para quem já tem certo domínio do idioma. Esta edição traz algumas páginas contendo fotos e imagens de algumas das obras de Frida. Achei legal, mas insuficiente (esperava imagens de mais obras), e considero um verdadeiro pecado colocarem em preto-e-branco as imagens das obras. Este foi o único pedacinho do livro que deixou a desejar; porém é sempre bom lembrar que se trata de uma biografia e não de um livro de arte (o foco é a vida da pintora).

Título: Frida Kahlo
Autor(a): Rauda Jamis
Editora: Circe - Grupo Océano
Edição: 2005 (20ª edição)

Um pequeno parêntese: esse livro chegou a mim em um momento muito adequado, perfeito, eu diria. Encontrei-o em março desse ano na lojinha do Museo Thyssen-Bornemiszna, em Madri; entrei no museu para ver a exposição Heroínas, especialmente com o objetivo de ver de perto uma das obras de Frida que fazia parte da exposição. Ao retornar a Dublin (ainda estava lendo o livro), para minha surpresa - e sorte! -, houve uma exposição de Frida Kahlo e Diego Rivera e exibição de dois documentários sobre eles no IMMA - Irish Museum of Modern Art. Ou seja, um complemento valiosíssimo para minha leitura! Foi emocionante ver de perto todas aquelas obras! (A overdose de Frida Kahlo não para por aí... ainda tenho um outro livrinho esperando para ser lido: Frida Kahlo 'I Paint My Reality'.)

Para quem se interessar, existe um conhecido filme sobre a vida da pintora. Frida foi lançado em 2002, dirigido por Julie Taymor e traz Salma Hayek como Frida Kahlo. O figurino chama a atenção (e não podia ser diferente, já que as roupas de Frida eram sua marca registrada) e a trilha sonora é excelente. Gosto bastante do trailer:


(Aliás, fiquei sabendo da existência de um primeiro filme sobre Frida Kahlo, de 1983, chamado Frida, Naturaleza Viva. Confesso que deu vontade de ir atrás dele!)

Voltando ao livro, Frida Kahlo foi publicado no Brasil com o mesmo título pela editora Martins Fontes (mas dei uma rápida pesquisada e parece que não se encontra mais disponível). Conselho: se por acaso der de cara com esse livro em algum sebo, leve-o sem pensar duas vezes!!

- Frida Kahlo - site oficial: www.fkahlo.com

Título: Frida Kahlo
Autor(a): Rauda Jamis
Publicação original: 1985

7 de março de 2010

Brincadeira Literária: O Diário de Anne Frank


Você se lembra do primeiro livro que leu? E que tal o livro mais velhinho aí na sua estante?
Eis o meu post para a Brincadeira Literária:

Não me lembro com exatidão se este foi o primeiríssimo dos livros não infantis que li, mas certamente ocupa uma das primeiras posições. E sim, ele também ocupa o lugar de livro mais velhinho na minha estante atualmente. Este livro é O Diário de Anne Frank. A edição que tenho é bem velhinha e fiz questão de colocar ao lado a capa dela, aliás, nunca vi outro com esta mesma capa. Na verdade, este livro era da minha mãe, e foi ela quem me incentivou a lê-lo, mas desde bem mais nova eu já tinha adotado com fervor o hábito da leitura. Lembro que quando minha mãe me mostrou o livro e sugeriu que eu o lesse, fiquei bastante atraída pelo tema e por ser o relato de uma menina e, de fato, foi um livro que gostei muito de ter lido. Também não me recordo exatamente da idade que eu tinha quando li este livro, assim como não me lembro de todos os mínimos detalhes da história, então tive que recorrer a algumas pesquisas básicas para relembrar alguns detalhes e redigir este post.

Em 1942, Anneliese Marie Frank ganha um diário de presente ao completar 13 anos e nele começa a relatar a vida comum de uma garota no início da adolescência. Pouco depois, sua irmã recebe uma notificação da SS, fazendo com que a família se esconda no “Anexo Secreto”, um esconderijo improvisado nos fundos do escritório de seu pai. No decorrer do livro são relatadas as dificuldades de adaptação à vida no esconderijo, as (muitas) limitações, o convívio dificultoso entre a família e mais quatro amigos judeus também escondidos no mesmo local. Durante o tempo em que se mantiveram escondidos, tiveram a ajuda de alguns funcionários e amigos do escritório de seu pai para o abastecimento de comida, vestuário e itens de higiene. Apesar de serem abordadas diversas questões da época, o diferencial são os relatos bastante pessoais e o cotidiano dos habitantes do esconderijo, tudo sob o ângulo de uma menina. A instabilidade, os conflitos da adolescência, a descoberta da sexualidade e do amor se fazem presentes e, inclusive, percebemos o amadurecimento de Anne através das páginas do seu diário. Com todas as dificuldades e tristezas, ainda havia lugar para a esperança e perspectivas para o futuro. Os longos meses no esconderijo tiveram fim ao serem denunciados aos nazistas, e Anne foi, então, levada para um campo de concentração. Os habitantes do “Anexo Secreto” foram inicialmente deportados para Auschwitz; depois, Anne e sua irmã, Margot, foram separadas dos pais e levadas a Bergen-Belsen. Em 1945, meses após a deportação, Anne falece com apenas 15 anos, vítima de tifo. Dos habitantes do Anexo, Otto H. Frank, pai de Anne, foi o único sobrevivente após a guerra (falecido em 1980). O “Anexo Secreto”, em Amsterdã, é hoje um museu (Casa de Anne Frank).

Muito além de simples relatos de acontecimentos dos mais tristes e vergonhosos já vivenciados pela humanidade, este livro é uma verdadeira lição. Envolto em emoção e sinceridade, faz com que acompanhemos de perto a vida das pessoas no Anexo. Se por um lado os relatos são muito pessoais e não podem ser tidos como verdades absolutas em termos de História, eles são ricos justamente por serem individuais, dando-nos uma comovente dimensão do que os acontecimentos significaram na vida das pessoas. Através destes relatos, podemos enxergar as atrocidades daqueles tempos sob outro ângulo, bem diferente das meras estatísticas apresentadas nos livros de História.

Acho interessante comentar que existem controvérsias quanto à autenticidade do famoso diário, questionada desde sua primeira publicação, principalmente por Robert Faurisson, um negacionista do Holocausto, condenado diversas vezes por “contestação de crimes contra a humanidade”.

Finalizo aqui, com uma simples verdade: O Diário de Anne Frank é um livro que merece ser carregado conosco por gerações.

Título: O Diário de Anne Frank
Autor(a): Anne Frank, Otto H. Frank, Mirjam Pressler
Publicação original: 1947

15 de fevereiro de 2010

Moulin Rouge, amores doloridos e boemia latejante

Desfiles das escolas de samba, carros alegóricos, aquele som infernal (perdoem-me os apreciadores) vindo da televisão e de onde quer que seja; ao invés de tudo isso, amores não correspondidos, “French Cancan”, as ruas de Montmartre e o famoso Moulin Rouge. Com vocês, uma ótima opção para os que não morrem de amores pelas festividades do Carnaval, mas ainda assim querem preencher o feriado com algo de qualidade: Moulin Rouge!

Ao contrário do que muitos podem pensar de início, o livro Moulin Rouge não relata aquela linda história de amor entre Christian e Satine do filme de Baz Luhrmann, mas sim a trajetória (mais como uma biografia romanceada) do pintor francês pós-impressionista e litógrafo Henri-Marie-Raymonde de Toulouse-Lautrec-Monfa, ou apenas Henri de Toulouse-Lautrec; e devo dizer: é um livro que figura entre os meus favoritos.

Toulouse-Lautrec nasceu na nobreza francesa, mas foi a vida boêmia parisiense de fins do século XIX que ele adotou como sua (ou teria sido a boemia que o adotou?). Essa vida, inclusive, era o tema principal de suas pinturas; seu estilo mostrava linhas livres e cores intensas, transmitindo expressividade e movimento. Dançarinas como La Goulue e Jane Avril apareciam retratadas em seus cartazes para o cabaré Moulin Rouge, onde exercia papel de frequentador assíduo.

Contudo, a vida de Toulouse-Lautrec esteve longe da felicidade e glória, estas se mostrando apenas como leves e efêmeros (por vezes falsos) sopros em sua trajetória. Sua doença – que fez dele um homem adulto com pernas de menino –, o sabor amargo dos amores não correspondidos e o alcoolismo desempenharam importantes papeis em sua curta vida e conferem uma dose extra (e realmente emocionante) de drama na história. Outra característica que torna o livro ainda mais cativante são as interações – reais – entre Toulouse-Lautrec e nomes célebres como Vincent Van Gogh, entre outros.

Moulin Rouge é um livro para ser saboreado em todas e cada uma de suas palavras. Moulin Rouge é atrevido ao tocar-nos o fundo da alma. Moulin Rouge é um livro de amor, ainda que em sua mais triste faceta.

Curiosidades:
- Este livro deu origem a um filme de mesmo nome, Moulin Rouge (1952), dirigido por John Houston e ganhador de 2 estatuetas do Oscar.
- No filme Moulin Rouge de Baz Luhrmann (2001), Toulouse-Lautrec aparece como um personagem secundário, envolvido e sofrendo com as tragédias do casal protagonista.

    
Pequenos exemplos da arte de Toulouse-Lautrec

Título: Moulin Rouge
Autor(a): Pierre La Mure
Publicação original: 1950

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