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17 de agosto de 2012

A delicadeza [David Foenkinos]

Tendo a canção L’amour en fuite (O amor em fuga), de Alain Souchon, como fundo musical, Foenkinos constrói uma comédia sentimental saborosa.

Nathalie e François viviam o que se poderia chamar de um amor perfeito. Uma felicidade daquelas que despertam admiração dos que a observam e o medo de quem a vive. Depois de sete anos de casamento, a tragédia atravessa a rotina de Nathalie: François morre, deixando a jovem mergulhada numa dor quase insuportável. E a perdida Nathalie encontra-se, no caminho em busca por si mesma, com o não menos confuso Markus.
Nathalie, em um luto aparentemente eterno, é atraente e constantemente assediada pelo diretor da empresa. Markus é um sueco sem muitos atrativos físicos e com um histórico de insucessos amorosos que colaboram para a sua timidez e para a falta de jeito com o sexo oposto. No entanto, ele transmite certa calmaria e possui um senso de humor que se revela aos poucos em frases não muito habituais, mas certeiras. Contrariando todas as expectativas, é com ele e por ele que Nathalie enfrentará a dor da perda e tentará seguir em frente.

O beijo é muitas vezes o ponto de partida das mais diversas histórias de amor, sejam elas breves, eternas, bem-sucedidas ou não. Em A delicadeza, David Foenkinos colocou o beijo como a linha que separa a depressão e o recolhimento da protagonista de sua redescoberta dos assuntos do coração. E foi de maneira inusitada, e por isso mesmo, dotada de charme ímpar.

Com um beijo é que começa a história de Nathalie e Markus. Relacionamento de início desajeitado, manco até, e por isso mesmo hilário. Engana-se quem pensa que A delicadeza traz uma história de amor convencional. O livro não é daqueles para se roer de curiosidade e torcer para que mocinho e mocinha fiquem juntos no final. É um livro em que os protagonistas se descobrem – ao outro e a si mesmo – e o leitor acompanha esse caminho regalado por um texto com pitadas de humor. Esse humor aparece também através de “minicapítulos” que intercalam a narrativa, destinados simplesmente a entrar em algum detalhe sobre algo já mencionado e que, aparentemente, não tem importância na trama. Pequenas informações a título de curiosidade – os ingredientes necessários para preparar um risoto de aspargos, um pensamento de um filósofo polonês, ou o título de um quadro – que acabam por dar um brilho a mais no todo e realçar o humor na obra.

O ambiente de trabalho (ambos são parte da mesma equipe de trabalho em uma multinacional sueca) revela as “pequenas” podridões contidas no jogo das normas sociais. Os comentários que nunca cessam, as relações empobrecidas e superficiais, e a necessidade de invadir o outro por nada saber fazer com o vazio dentro de si. Não haveria, a meu ver, melhor ambiente para fazer brotar algo – talvez a única coisa realmente viva e verdadeira lá dentro – entre os protagonistas. Ponto para o autor!

A delicadeza traz uma história charmosa. Seus personagens, também charmosos, são traçados com excelência pelo autor, e parecem ganhar vida própria em uma trama que navega pelas várias nuances da palavra "delicadeza"...

Curiosidade: o livro foi adaptado para o cinema pelo próprio David Foenkinos junto com seu irmão, Stéphane Foenkinos. O filme, intitulado A Delicadeza do Amor, é estrelado por Audrey Tautou e François Damiens e chegou às telas em 2011.

Título: A delicadeza
Título original: La délicatesse
Autor(a): David Foenkinos
Editora: Rocco
Edição: 2011
Ano da obra: 2009
Páginas: 192


Li a obra em seu idioma de origem, o francês. Não é uma leitura difícil, mas recomendaria apenas aos que já possuem um nível mais avançado da língua; diria que requer uma importante compreensão gramatical.

Recorri ao dicionário algumas vezes, ainda que o vocabulário e as expressões que desconhecia não chegassem a impedir o entendimento pelo contexto – tanto que lia tranquilamente na rua, sem ter um dicionário a tiracolo. Ótimo para quem já fala francês e quer praticar um pouco mais.

E sim, é a Audrey Tautou na capa (em uma das cenas do filme), o que deixou o livro ainda mais irresistível, não?!


LA DÉLICATESSE (David Foenkinos, Éditions Gallimard, Collection Folio – 5177, 2012)

17 de julho de 2012

Como me tornei estúpido [Martin Page]

ATENÇÃO: este review ficou maior que o esperado (me empolguei...), mas prometo que valerá a pena lê-lo!

Minha melhor leitura de 2011 (e que ganhou um lugar de respeito na minha estante) foi A libélula dos seus oito anos. Como não podia deixar de ser, fui com sede ao pote em Como me tornei estúpido, primeiro romance do francês Martin Page. E vou dizer... superou expectativas! Posso afirmar que o autor está, definitivamente, entre meus preferidos (junto com García Márquez e Saramago).


Antoine, 25 anos, é um rapaz como muitos outros. Não gosta de ser manipulado, não gosta de explorações colonialistas, não gosta que lhe obriguem a estudar assuntos desinteressantes, odeia a burocracia e todas as suas máscaras.
Traduzir do aramaico e conhecer a fundo o cinema de Sam Peckinpah e Frank Capra, no entanto, não o levaram muito longe. Por isso, um belo dia, Antoine anuncia a seus amigos um plano perfeito. Investir na idiotice como forma de sobrevivência. Ele está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.

Genialmente exagerado e deliciosamente sarcástico, pincelado com cenas inimagináveis que se mostram fantasiadas de cotidiano (o que lembra aspectos do realismo mágico). Como me tornei estúpido deve ser saboreado sem pressa – serão necessárias diversas pausas para rir com a comicidade nada inocente e com a astúcia de muitos trechos.

Ao utilizar-se do caricato e de certo exagero, o autor provoca e faz pensar. A ideia de que a estupidez se faz necessária para a integração à sociedade é brilhante e leva verdade a tiracolo. Criticar a sociedade deliberadamente consumista, a ambição sem freios e o egocentrismo planetário não é algo superinovador, mas Martin Page revela tais críticas de maneira inteligente e dotada de personalidade.

De maneira impressionante, os seres humanos se parecem com o seu carro. Uns têm uma vida sem opções que avança com toda a prudência, não vai muito depressa, freia e tem frequentemente necessidade de reparos; é uma vida de qualidade inferior, pouco sólida, que não protege os seus ocupantes em caso de acidente. Outras vidas têm todas as opções possíveis: o dinheiro, o amor, a beleza, a saúde, a amizade, o sucesso, o airbag, assentos de couro, direção hidráulica, motor possante e ar-condicionado.

Só o que foi dito acima já seria motivo suficiente para colocar o livro na lista dos “must-read de toute urgence” (curti o termo que acabei de inventar, vou inseri-lo no meu glossário mental, sabe, para a posteridade...). Mas ainda não acabou. Antoine, o protagonista, é fascinante. Suas ideias, suas atitudes, seus princípios e seu modo de vida (antes e durante o caminho da estupidez) fazem com que o leitor tenha vontade de conhecê-lo em carne e osso. Além disso, ele tem um melhor amigo que brilha no escuro! Agora diz, quem mais tem um melhor amigo que brilha no escuro?!

Ele estava cansado da acuidade de observação que lhe dava uma imagem cínica das relações humanas. Queria viver, não saber a realidade da vida; queria justamente viver. (...) Antoine não desejava ser um perfeito imbecil, mas diluir sua inteligência no amálgama da vida, deixar de tentar analisar tudo, de tentar descobrir tudo. (...) Não se tratava de renunciar gratuitamente à razão: a finalidade era participar da vida em sociedade.

Se você quer ler algo que te surpreenda, que te faça rir e dedicar um aplauso mental ao terminar a última página, este é o livro. Lá no começo, eu disse que ele deve ser lido sem pressa. Acontece que isso é quase um desafio: garanto que você vai devorá-lo rapidinho...

Título: Como me tornei estúpido
Título original: Comment je suis devenu stupide
Autor(a): Martin Page
Editora: Rocco
Edição: 2005
Ano da obra: 2001
Páginas: 160

5 de junho de 2012

Vi na Livraria: Em Caso de Felicidade, de David Foenkinos



EM CASO DE FELICIDADE, de David Foenkinos, ed. Rocco

O que fazer quando um casal não consegue suportar a lembrança dos dias felizes do início do relacionamento e contrapô-la com a entediante rotina de um casamento que já dura oito anos? Em Caso de Felicidade acompanha o irresistível fascínio de um casal por uma arrebatadora história de amor. Ao sair em busca de aventuras extraconjugais, Jean-Jacques e Claire se deparam com um turbilhão de emoções que acabará levando-os de volta na direção um do outro, mesmo que não se deem conta disso inicialmente. Como nos filmes de François Truffaut, o romance de David Foenkinos tece uma delicada trama de relações amorosas em tom de comédia sentimental.

Felizes, nos tornamos um pouco desajeitados aos olhos do mundo, além de termos a medida exata do que é ou pode vir a ser a infelicidade. No ápice de uma alegria maior que ele, Jean-Jacques reflete, através de um narrador perspicaz: "Um futuro terrível se projetava diante dele, em sombras imprecisas. Ninguém sabia o que fazer em caso de felicidade. Havia seguro de vida, seguro para veículos e para morte ocorrida dentro de algum veículo. Mas quem nos protegerá da felicidade? Ele acabava de perceber que essa felicidade, tão forte como se tornara, era a pior coisa que podia ter-lhe acontecido."

A curiosidade e o interesse pelas obras do autor e roteirista francês David Foenkinos me motivaram a mostrar Em Caso de Felicidade aqui.
Do autor, tenho o livro La Délicatesse – cuja edição brasileira chama-se A Delicadeza –, ainda não lido, que deu origem ao filme A Delicadeza do Amor, estrelado por Audrey Tautou. O filme, em cartaz desde o final de maio, tem roteiro por David Foenkinos e é dirigido pelo autor e seu irmão, Stéphane Foenkinos.

16 de maio de 2012

Vi na Livraria: especial "Mães"



Ainda em clima de Dia das Mães, venho mostrar para vocês alguns livros que vi na livraria que trazem a figura da mãe como tema central. O legal é que são leituras que certamente agradarão em dose dupla – tanto às mães quanto às filhas. E tem para todos os gostos: crônicas bem-humoradas, enredos comoventes, e até chick-lit.



A FILHA DA MINHA MÃE E EU, de Maria Fernanda Guerreiro, ed. Novo Conceito
Sensível e tão real a ponto de fazer você se sentir parte da família, A filha da minha mãe e eu conta a história do difícil relacionamento entre Helena e sua filha, Mariana. A história começa quando Mariana descobre que está grávida e se dá conta de que, antes de se tornar mãe, é preciso rever seu papel como filha, tentar compreender o de Helena e, principalmente, perdoar a ambas. Inicia-se, então, uma revisão do passado – processo doloroso, mas imensamente revelador, pautado por situações comoventes, personagens complexos e pequenas verdades que contêm a história de cada um.







MINHA VIDA COM MAMÃE E OUTRAS HISTÓRIAS DE FAMÍLIA, de Bety Orsini, ed. Rocco
Autora de Cartas do coração – Uma antologia do amor, a jornalista Bety Orsini se volta agora para a sempre tumultuada relação entre mãe e filha. As crônicas mostram o zelo, a implicância, a cumplicidade, o desejo de aprovação e, acima de tudo, o amor incondicional que permeia toda relação mãe e filha, em textos comoventes e muitas vezes hilariantes.
Bety adora implicar com dona Amélia, mas basta abrir a boca com mais uma reclamaçãozinha para receber na hora uma resposta espirituosa da mãe. O pensamento perspicaz e a rapidez das respostas da senhora de 80 e poucos anos – algumas delas funcionando como verdadeiras alfinetadas na pose da filha – provocam o riso não apenas de Bety, mas de quem toma conhecimento das histórias narradas por ela. Dona Amélia já foi tema de inúmeros textos da jornalista e agora algumas dezenas deles foram reunidos no lançamento Minha vida com mamãe e outras histórias de família.




MÃES EM GUERRA, de Jill Kargman, ed. Planeta
Um retrato maldosamente divertido de mães indiscutivelmente exageradas. Toda mãe é capaz de cometer loucuras pelo bem de seu filho. Mas o que fazer quando a loucura vira o normal? Ao mudar-se para um dos bairros mais elegantes de Nova York com o marido Josh e a filha Violet, de dois anos, Hannah Allen se vê não só diante de um estilo de vida totalmente diferente do seu como no meio de uma verdadeira guerra de mães. Por trás da aparência de bonequinhas de luxo, suas novas vizinhas revelam-se beeem cruéis, prontas para destruir qualquer uma que represente a ameaça de ser uma mãe “melhor” do que elas.
Neste livro, Jill Kargman aposta em um novo gênero que vem conquistando fãs no mundo inteiro – o "mom-lit". Seguindo o ritmo de Sex and the City e Bridget Jones, só que com protagonistas-mães, o romance teve seus direitos vendidos para oito países, além do Brasil.

4 de novembro de 2011

O Bigode [Emmanuel Carrère]



Em uma manhã qualquer, um homem decide raspar o bigode que ele vinha usando há 10 anos. Com ato tão simples pretende mudar um pouco, surpreender a mulher, os amigos. Porém ninguém percebe a mudança; afirmam, ainda, que ele jamais usou bigode. Ele começa, então, a recolher provas da existência do bigode, dando início a questionamentos e confusão, que nos fazem caminhar da realidade ao delírio sem saber de qual lado ficar.

Estamos diante de uma obra, no mínimo, intrigante. O Bigode, de Emmanuel Carrère, nos mostra um protagonista muito bem elaborado, porém, e por conta do próprio enredo, há a constante sensação de ausência da última peça de um quebra-cabeça. E é daí que vem o ponto alto do livro: o leitor não consegue desgrudar das páginas, tomado pela ânsia de entender o que se passa com o ex-bigodudo e o mundo ao redor dele.

O leitor é arrastado pelo redemoinho psicológico que envolve a trama. As questões são muitas, e colocamos à prova – junto com o protagonista – a veracidade dos fatos e a integridade psicológica dos personagens. Inclusive não descartamos a possibilidade de alguma conspiração contra nosso pobre protagonista.

O livro é narrado em terceira pessoa, mas sempre através do olhar do protagonista; é como se tudo nos fosse contado sob a perspectiva do personagem central – há momentos em que nos sentimos dentro de sua mente, inclusive. Os demais personagens têm seu papel no enredo, mas nada tão crucial. Agnes, a mulher do protagonista, tem algum destaque na trama, mas ainda assim, tudo – e todos – gira em torno do grande conflito que envolve o personagem principal, o homem que raspou o bigode.

A leitura é super fluida e o livro tem um ritmo acelerado. O aspecto psicológico (questionamentos, hipóteses perante os fatos) domina a narrativa. Merecem destaque as descrições presentes no livro, cruas e diretas, porém absolutamente carregadas de força, ou ainda demonstrando uma calmaria singular.

Não posso deixar de mencionar que o mais interessante desta leitura é tentar compreender o que a figura do bigode representa. Muito além de ser apenas um tufo de pelos, o bigode nos remete à identidade do personagem. Indo um pouco além, diria que esta identidade representada pelo bigode está mais próxima de ser aquilo que a sociedade moldou no personagem, um papel que ele representa para que as expectativas da vida cotidiana sejam atendidas. Um papel que todos nós representamos e do qual, muitas vezes, nos tornamos indissociáveis. Raspar o bigode seria mais do que uma simples fuga para o personagem do livro, seria libertar-se das pressões e cobranças – parar de andar conforme o fluxo para recuperar vontade própria e ir de encontro ao indivíduo real por trás do “disfarce” de todos os dias. Notamos, porém, um despreparo interno da parte dele em relação a esta libertação, uma visível impossibilidade de desvincular-se do papel que lhe foi atribuído na sociedade. A partir daí, a confusão mental, o possível delírio, encontra lugar para instalar-se, dada a busca desorientada do personagem por sua própria identidade – a real.

Nem preciso dizer que esta é uma leitura super recomendada. As 140 páginas, que já não são muitas, têm tudo para serem vorazmente devoradas por aqueles que apreciam conflitos e incertezas quanto à realidade – na literatura, claro.

Curiosidade: o livro teve uma adaptação para o cinema feita pelo próprio autor, também cineasta. La Moustache - que leva o mesmo nome do livro - foi premiado no Festival de Cannes de 2005.

Título: O Bigode
Título original: La Moustache
Autor(a): Emmanuel Carrère
Editora: Rocco
Edição: 2002
Ano da obra / Copyright: 1986

10 de setembro de 2011

A Libélula dos Seus Oito Anos [Martin Page]

Imaginem uma leitura deliciosa... Pois bem, ler A Libélula dos Seus Oito Anos foi para mim uma delícia até difícil de ser explicada, tamanho o encanto que me proporcionou.


Escrito numa narrativa sarcástica, o romance traz figuras que fogem completamente ao usual, e que só se tornam críveis por conta da riqueza de detalhes psicológicos com que são descritos. A protagonista, Fio Régale, é uma jovem simples e muito pragmática, com uma incrível capacidade para a pintura e inigualável aptidão para enxergar o mundo ao seu redor. Ela gosta de neve e chá sem açúcar, e chantageia pessoas ameaçando tornar públicos seus segredos, os quais ela finge conhecer. Com isso, consegue dinheiro suficiente para se sustentar. O resultado é um romance único e irresistível sobre a banalidade da vida, urdido com o humor, a delicadeza e a desesperança tão peculiares do autor de Como me tornei estúpido.


São 175 páginas que dizem muito e que prendem do início ao fim. A narrativa traz uma boa dose de sarcasmo e é recheada de frases incríveis (e muito verdadeiras!), e mais incríveis ainda são os acontecimentos, que beiram – e mesmo adentram – o campo do absurdo. Um humor genial e que foge do óbvio está sempre presente. Sem pecar pelo excesso (característica tão comum de encontrarmos por aí), muitas passagens são bem capazes de arrancar risadas dos leitores.

O livro nos mostra claramente como as coisas, pessoas e informações podem ser banais e bem passíveis de serem modeladas. Verdades não passam de mera construção planejada, atingindo o status de verdades simplesmente porque alguém assim o quis e afirmou. Desta forma, é extremamente difícil encontrar a fronteira entre uma pessoa “ela-mesma” e o que as pessoas acreditam que ela seja; embora às vezes estes dois territórios pareçam bem demarcados, eles acabam por fundir-se de maneira incontornável. A defesa é tarefa impossível, já que, conforme a ideia passada no livro, não há como defender-se da admiração alheia.

Os personagens são a principal atração do livro, a cereja do bolo, eu diria. Construídos com excelência, eles possuem toques de uma excentricidade cativante e também sarcástica, principalmente Fio e sua melhor amiga, Zora. Saboreei a “esquisitice” de cada hábito e apreço que elas apresentavam, e concluí que não há de fato esquisitice, mas somente permissividade suficiente dentro de cada uma delas para ir (muito) além do convencional. Na essência, isto por vezes me trouxe um sentimento do tipo “pequenos prazeres da Amélie Poulain”...

Alguns detalhes que merecem atenção: a história de amor nada convencional dos pais de Fio; o ganha-pão politicamente incorreto – e inteligentíssimo – da protagonista antes da reviravolta em sua vida; o excêntrico gosto de Zora por dar tiros de arma em eletrodomésticos; a creperia de Misha Shima; e há muitos outros detalhes especiais no livro (é impossível citá-los todos)!

Claro que não posso deixar de fora alguns trechos excelentes com os quais me deparei no decorrer da leitura:

Aproximaram-se cada vez mais. Suas personalidades combinavam. Até que um dia ambas assumiram a responsabilidade de ser uma a melhor amiga da outra. Fio tivera outros amigos antes de Zora, pois todo mundo tem amigos. Tinha também uma torradeira; nem todo mundo tem uma torradeira.

Há quem tenha pés grandes, outros têm manchas vermelhas. Já Zora possuía a incrível faculdade de detestar.
(...)
O ódio é uma forma de se consolar em relação às coisas que nunca se poderão ter. Zora não odiava por ela mesma, mas pelos outros. De certa maneira, seu ódio era uma forma de altruísmo.

Não podemos nos defender da admiração, não podemos desconfiar de quem gosta de nós, é uma guerra da qual sairemos sempre perdedores.
(...)
A admiração embute um canibalismo sublimado.

Tenho a impressão de que não consegui expressar aqui o quanto este livro me fascinou. RECOMENDADÍSSIMO: Fio e Zora estão entre os personagens mais singulares que já “conheci” (arrisco mesmo a pensar que todo mundo que leu o livro teve uma vontade secreta de que elas fossem reais só para tê-las como amigas); o livro já está entre meus favoritos; e o francês Martin Page tem tudo para estar entre meus autores favoritos também (estou completamente empolgada para devorar outras obras dele).

Título: A Libélula dos seus Oito Anos
Título original: La Libellule de ses Huit Ans
Autor(a): Martin Page
Editora: Rocco
Edição: 2010
Ano da obra / Copyright: 2003

9 de junho de 2011

Vi na Livraria: A Descoberta das Bruxas


A DESCOBERTA DAS BRUXAS - Deborah Harkness - Ed. Rocco

A respeitada pesquisadora Diana Bishop passou a vida tentando negar a sua verdadeira identidade. Filha única de pais bruxos, ela se torna órfã aos sete anos e passa a rejeitar as suas habilidades mágicas, determinada a se parecer o máximo possível com os humanos. Quando descobre acidentalmente um misterioso manuscrito escondido há séculos, Diana traz à tona um mundo sobrenatural aterrador, com uma horda de demônios, vampiros e bruxas. A partir daí, a aventura de Diana por 1500 anos de histórias está apenas começando. Diana Bishop, é tragada contra a vontade para um turbilhão de conspirações e disputas de poder em torno do exemplar perdido Ashmole 782. O manuscrito, redigido pelo alquimista Elias Ashmole, é encontrado por Diana na biblioteca em que pesquisa. Ao tocar o livro, ela sente uma atração irresistível por ele, algo poderosamente mágico, que a faz levá-lo para casa. O que ela não imagina é que o manuscrito é procurado há anos, e cobiçado por seres que ultrapassam a esfera humana, como demônios e vampiros. Um dos interessados na obra do alquimista é Matthew Clairmont, um geneticista com paixão por Darwin. Charmoso e misterioso, apesar da aparência jovem, Matthew vaga pela Terra há mais de 1500 anos. O vampiro se aproxima de Diana, despertando nela uma forte desconfiança de que, por trás de todo o seu galanteio, se esconda apenas o interesse em obter o livro. Os motivos de sua busca pelo exemplar não são revelados, mas o afeto dele pela poderosa bruxa não demora muito a ficar claro. Diana, relutante em assumir sua natureza de bruxa, também resiste a admitir seus sentimentos pelo vampiro. O casal, no entanto, não demora a se formar.

Apesar de ser um livro já bem conhecido de todos, achei interessante colocar a sinopse dele aqui no Vi na Livraria. Motivos, existem de sobra: recém-lançado no Brasil, o romance alcançou os primeiros lugares nas listas dos mais vendidos nos EUA e foi bastante disputado na Feira de Frankfurt em 2009. Além disso, o livro chama a atenção, seja pela capa ou por suas 640 páginas.
A autora, Deborah Harkness, tem participação confirmada na Bienal do Livro do Rio, que acontecerá de 1º a 11 de setembro no Riocentro.

Sobre a autora: Deborah Harkness é especializada em história da ciência, magia e medicina. Além de escrever e lecionar em uma universidade da Califórnia, é apaixonada por vinhos e mantém um premiado blog sobre o assunto, Good Wine Under $20. A Descoberta das Bruxas é seu romance de estreia.

13 de junho de 2010

Violino

Trata-se de um romance único – não faz parte de séries nem tem continuações – que conta a história de duas personagens devotas à música. Uma delas é Triana, que sonha em se tornar uma musicista, apesar de ter seu talento desacreditado. Já com seus 54 anos, perde seu segundo marido logo no início do livro. A outra personagem é Stefan, um jovem e atormentado fantasma de um aristocrata russo, que em vida havia sido aluno e amigo de Beethoven e de Paganini. Stefan utiliza seu violino mágico para enfeitiçar e dominar Triana, querendo levá-la à loucura através de sua música.

Violino traz uma história densa, em alguns momentos chega a ser perturbadora, e nem por isso menos bela. As personagens, dotadas de uma personalidade excepcional, são de certa forma forçadas a enfrentar suas mais terríveis memórias. Memórias que envolvem morte, perdas, culpa, frustrações, e lágrimas. A cada página, o inferno pessoal de Triana nos é revelado, trazido à tona principalmente pela música do violino de Stefan, personagem que se torna cada vez mais real e ameaçador na vida dela.

Stefan também nos abre suas mais aterradoras lembranças, tendo como pivô dos acontecimentos seu inseparável Stradivarius longo. A aparição do espectro de Beethoven é algo que deve ser mencionado; é especial, não pela forma como aparece, mas somente pelo simples fato de aparecer.

As extensas e detalhadas descrições de Anne Rice tornam a história bastante rica. Temos a sensação de que tudo é sólido e palpável, desde os mais profundos sentimentos até a própria música, tão vivas são as descrições. E chega a ser engraçado falar de vida quando o tema mais presente no livro é a morte. As duas personagens principais sofrem muito e, de certa forma, precisam uma da outra, apesar da relação entre Triana e Stefan ser hostil e agressiva. Triana martiriza a si mesma (e, com isso, Stefan também passa a martirizá-la) porque sente uma terrível culpa pela morte da mãe e da filha, e por ter permitido que a irmã mais nova partisse. Ela alimenta a culpa que sente e Stefan, por sua vez, parece alimentar-se do sofrimento de Triana. O humano e o sobrenatural caminham juntos em cada momento da trama. Indo mais além, podemos enxergar a história toda como uma espécie de batalha travada entre Triana e Stefan (e, principalmente, entre cada um deles com seu próprio eu) para a libertação de suas almas.

Violino não é exatamente o que eu chamaria de uma leitura fácil, embora devo deixar claro que a trama me encantou. A imensa carga de sofrimento cultivado dá a sensação de que a história fica, em muitos momentos, repetitiva e um pouco cansativa. Triana remói intensa e continuamente seu passado e o sofrimento que carrega consigo, o que nos faz achar que dá voltas e voltas para retornar ao mesmo ponto de onde começou. Contudo, não achei que a leitura foi, em nenhum momento, enfadonha. Apenas é preciso realmente mergulhar nos acontecimentos e nos sentimentos das personagens, caso contrário a trama parecerá sem sentido e possivelmente será abandonada antes do final.

Um aspecto especialmente formidável é que o livro nos leva a viajar com os protagonistas para locais e épocas diferentes, seja através de suas memórias ou dos acontecimentos que se desenrolam em tempos mais atuais. Nova Orleans, Viena, Veneza, e até Rio de Janeiro, só para citar alguns lugares. Triana nos fala em primeira pessoa, e ao mostrar-nos suas memórias, somos subitamente transportados para o local onde aconteceram e nos sentimos na própria pele da personagem. Já quando Stefan nos revela seu triste passado, transforma Triana, os leitores e ele próprio – Stefan fantasma – em espectadores da decadência de um Stefan ainda vivo e do início de sua trajetória como fantasma. É como estar na plateia VIP de um sombrio espetáculo.

Ler Violino foi uma ótima experiência. Li poucas coisas de Anne Rice, mas desde o primeiro livro percebi que gosto bastante da forma como ela escreve. Recomendo o livro para quem já leu alguma outra obra da autora. Para quem nunca leu Anne Rice, recomendaria começar por algum de seus outros livros (da série Crônicas Vampirescas, por exemplo) antes de encarar Violino.

“Aberto fica este túmulo, com todos alegre e carinhosamente juntos. Não há palavras para descrever uma união tão meiga e total; nossos corpos, nossos cadáveres, nossos ossos tão intensamente enroscados.
Não conheço qualquer separação. Nem da mãe, nem do pai, nem de Karl, nem de Lily, nem de todos os vivos e todos os mortos, já que somos uma só família neste túmulo viscoso e esfarelante, neste lugar que nos pertence, íntimo e secreto, nesta câmara que penetra na terra, onde podemos apodrecer e nos misturar quando as formigas vierem, quando a pele estiver coberta de fungos.”

Título: Violino
Autor(a): Anne Rice
Publicação original: 1997

11 de fevereiro de 2010

Cântico de Sangue - Crônicas Vampirescas

Último livro da sequência de Crônicas Vampirescas da autora Anne Rice, Cântico de Sangue traz o conhecidíssimo vampiro Lestat, com sua personalidade e senso de humor singulares, narrando os acontecimentos em primeira pessoa. Não são raros os momentos em que ele abre um parêntese em meio aos fatos contados para falar diretamente ao leitor, deleitando-nos com sua irreverência natural.

Concede a Mona Mayfair o Dom das Trevas, salvando-a da morte e fazendo pulsar sua beleza e determinação voraz. Juntamente com Quinn Blackwood, empreendem uma jornada em busca de Morrigan, a filha desaparecida de Mona, e o livro torna-se ainda mais instigante com a aparição dos fascinantes e misteriosos Taltos – seres ligados profunda e secretamente à família Mayfair.

Não há como deixar de lado a paixão repentina de Lestat por Rowan Mayfair, bruxa e médica de destaque. A tensão latente entre ambos e o fato de Lestat de certa forma não admitir o que sente, nos deixam curiosos quanto a um possível romance; no entanto, não pode ser ignorada a presença de Michael Curry (marido de Rowan), o que faz com que novamente nos questionemos a respeito do futuro do sentimento que assola nosso protagonista. Ainda, a constante batalha “viver na companhia de humanos X imortalidade” permeia os acontecimentos, culminando na necessidade de escolhas maduras.

O livro é envolvente e o vampiro Lestat é uma figura sem igual. Da autora, nem preciso comentar que, em minha opinião, Anne Rice é campeã em matéria de vampiros (uma pena a mudança de rumo em sua carreira). Ainda assim e finalizando, senti falta do erotismo que promete a sinopse na contracapa do livro: “... o famoso vampiro insiste em percorrer o longo e tortuoso caminho do conhecimento nesta história repleta de suspense e erotismo.”

Título: Cântico de Sangue
Autor(a): Anne Rice
Publicação original: 2003

9 de fevereiro de 2010

Os Contos de Beedle, o Bardo: saudades de Hogwarts

Não é novidade e nem lançamento, mas certamente merece um lugarzinho de honra por aqui. Refiro-me ao livro Os Contos de Beedle, o Bardo – coletânea de contos bruxos que marca importante presença no último livro da série Harry Potter.

Trata-se de uma coletânea de 5 contos de fadas do universo dos bruxos, com direito a ilustrações por J.K. Rowling e comentários do ilustre professor Alvo Dumbledore. Assim como nos contos de fadas que fizeram parte de nossa infância, a estrutura dos contos aqui é a mesma: o bem e o mal são facilmente identificados e cada conto carrega consigo uma moral e valores. Os contos divertem e convencem, sendo inevitável não imaginar crianças bruxas de todas as partes ouvindo-os de seus pais e avós, e tendo-os tradicionalmente como parte de sua educação.

É interessante mencionar que os direitos autorais do livro foram doados para o Children’s High Level Group (cofundado por J.K.Rowling), ajudando crianças que vivem em instituições.

O livro foi inicialmente concebido como um presente: J.K. Rowling escreveu à mão sete edições para presentear amigos. Uma das edições foi leiloada pela loja Amazon pelo valor de US$ 4 milhões. Uma edição de colecionador pode ser encontrada à venda na Amazon, trazendo dez ilustrações inéditas por J.K. Rowling, além de um case no formato de um livro da biblioteca de Hogwarts, entre outros detalhes. Veja fotos e mais informações clicando aqui.

Enfim, o que mais encanta em Os Contos de Beedle, o Bardo é ser transportado novamente ao mundo de Hogwarts, uma vez que o final da série deixou saudades e súplicas por um prolongamento – ainda que pequeno – deste universo do qual fizemos parte durante alguns inesquecíveis anos de nossas vidas.

Título: Os Contos de Beedle, o Bardo
Autor(a): J.K. Rowling
Publicação original: 2008

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