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8 de outubro de 2012

5 motivos para ler Lolita Pille

Lolita Pille nasceu em Sèvres, na França, no dia 27 de agosto de 1982, filha de pai arquiteto e mãe contadora. Nascida em família rica (mas ela se diz "de classe média"), Lolita passou a adolescência envolta em luxo, frequentando a área vip dos clubs mais badalados de Paris. Levava uma vida de futilidades e excessos de todo tipo. Chegou a começar a faculdade de Direito, que ela logo abandonou. De expressão consideravelmente blasé e de natureza desbocada, é adepta a cigarro, bebida e grifes de luxo. Em uma visita ao Rio de Janeiro em 2005, após provar variantes da caipirinha, a jovem autora disse sem reservas que a caipiroska de Paris "é melhor". Ao passear na Rocinha (com bolsa de grife a tiracolo), a fala da moça, então com 22 anos, foi a seguinte: "Parecem mais felizes do que eu".

5 motivos para ler Lolita Pille...

1. A autora escreveu seus primeiros livros bem jovem e diz que o fez sem pensar muito. No entanto, seu primeiro título (que ela escreveu aos 18 anos), Hell - Paris 75016, fez um baita sucesso e virou best-seller, sendo publicado em vários países. O livro critica o estilo de vida de jovens parisienses abastados, cuja rotina baseia-se em drogas, boates, lojas de grife e promiscuidade. Foi só mais adiante que ela desenvolveu verdadeiro interesse por literatura, sentindo necessidade de ler cada vez mais e de ser mais exigente em relação à literatura.

2. O interessante é que Hell foi baseado no próprio universo da autora, em um período de sua vida já deixado para trás. No livro, Lolita Pille mostra uma juventude de classe alta podre em seus excessos, o que causou barulho e foi motivo de desagrado nesse meio. Em entrevista concedida em fevereiro de 2011, às voltas com o lançamento de seu terceiro livro (Cidade da Penumbra), a autora diz que já não pertence a esse mundinho de Hell. Pelo contrário, aos 29 anos, ela já não mergulha nas loucas badalações de outrora e tem se concentrado mais na carreira literária.

3. Lolita Pille se declara feminista e critica a visão da mulher como um objeto; sobre o universo da cirurgia plástica, ela afirma que "a monstruosidade virou padrão de beleza".

4. Hell - Paris 75016 ganhou versão cinematográfica francesa em 2006, intitulada Hell, dirigida por Bruno Chiche. Curiosidade: no início deste ano, o livro teve adaptação teatral em São Paulo, com direção de Hector Babenco. A peça, de título homônimo ao livro, contou com Bárbara Paz no papel da fútil Hell.

5. Lolita Pille é comentada e causa rebuliço, mas está longe de ser amada. Além de ter sido criticada pela imprensa convencional, ela conquistou considerável antipatia na internet - ela se diz detestada na web. Basicamente porque os internautas a consideram "afiliada ao grande sistema", característica que a autora não atribui a si mesma. Também foi alvo do desagrado de amigos e conhecidos jovens de classe AAA, que não gostaram nada de ver seu estilo de vida retratado com tamanha acidez e "desrespeito" em Hell, e reagiram expulsando Pille desse meio social.


OBRAS:
Hell - Paris 75016 (2002)
Bubble Gum (2004)
Cidade da Penumbra (2008)

17 de agosto de 2012

A delicadeza [David Foenkinos]

Tendo a canção L’amour en fuite (O amor em fuga), de Alain Souchon, como fundo musical, Foenkinos constrói uma comédia sentimental saborosa.

Nathalie e François viviam o que se poderia chamar de um amor perfeito. Uma felicidade daquelas que despertam admiração dos que a observam e o medo de quem a vive. Depois de sete anos de casamento, a tragédia atravessa a rotina de Nathalie: François morre, deixando a jovem mergulhada numa dor quase insuportável. E a perdida Nathalie encontra-se, no caminho em busca por si mesma, com o não menos confuso Markus.
Nathalie, em um luto aparentemente eterno, é atraente e constantemente assediada pelo diretor da empresa. Markus é um sueco sem muitos atrativos físicos e com um histórico de insucessos amorosos que colaboram para a sua timidez e para a falta de jeito com o sexo oposto. No entanto, ele transmite certa calmaria e possui um senso de humor que se revela aos poucos em frases não muito habituais, mas certeiras. Contrariando todas as expectativas, é com ele e por ele que Nathalie enfrentará a dor da perda e tentará seguir em frente.

O beijo é muitas vezes o ponto de partida das mais diversas histórias de amor, sejam elas breves, eternas, bem-sucedidas ou não. Em A delicadeza, David Foenkinos colocou o beijo como a linha que separa a depressão e o recolhimento da protagonista de sua redescoberta dos assuntos do coração. E foi de maneira inusitada, e por isso mesmo, dotada de charme ímpar.

Com um beijo é que começa a história de Nathalie e Markus. Relacionamento de início desajeitado, manco até, e por isso mesmo hilário. Engana-se quem pensa que A delicadeza traz uma história de amor convencional. O livro não é daqueles para se roer de curiosidade e torcer para que mocinho e mocinha fiquem juntos no final. É um livro em que os protagonistas se descobrem – ao outro e a si mesmo – e o leitor acompanha esse caminho regalado por um texto com pitadas de humor. Esse humor aparece também através de “minicapítulos” que intercalam a narrativa, destinados simplesmente a entrar em algum detalhe sobre algo já mencionado e que, aparentemente, não tem importância na trama. Pequenas informações a título de curiosidade – os ingredientes necessários para preparar um risoto de aspargos, um pensamento de um filósofo polonês, ou o título de um quadro – que acabam por dar um brilho a mais no todo e realçar o humor na obra.

O ambiente de trabalho (ambos são parte da mesma equipe de trabalho em uma multinacional sueca) revela as “pequenas” podridões contidas no jogo das normas sociais. Os comentários que nunca cessam, as relações empobrecidas e superficiais, e a necessidade de invadir o outro por nada saber fazer com o vazio dentro de si. Não haveria, a meu ver, melhor ambiente para fazer brotar algo – talvez a única coisa realmente viva e verdadeira lá dentro – entre os protagonistas. Ponto para o autor!

A delicadeza traz uma história charmosa. Seus personagens, também charmosos, são traçados com excelência pelo autor, e parecem ganhar vida própria em uma trama que navega pelas várias nuances da palavra "delicadeza"...

Curiosidade: o livro foi adaptado para o cinema pelo próprio David Foenkinos junto com seu irmão, Stéphane Foenkinos. O filme, intitulado A Delicadeza do Amor, é estrelado por Audrey Tautou e François Damiens e chegou às telas em 2011.

Título: A delicadeza
Título original: La délicatesse
Autor(a): David Foenkinos
Editora: Rocco
Edição: 2011
Ano da obra: 2009
Páginas: 192


Li a obra em seu idioma de origem, o francês. Não é uma leitura difícil, mas recomendaria apenas aos que já possuem um nível mais avançado da língua; diria que requer uma importante compreensão gramatical.

Recorri ao dicionário algumas vezes, ainda que o vocabulário e as expressões que desconhecia não chegassem a impedir o entendimento pelo contexto – tanto que lia tranquilamente na rua, sem ter um dicionário a tiracolo. Ótimo para quem já fala francês e quer praticar um pouco mais.

E sim, é a Audrey Tautou na capa (em uma das cenas do filme), o que deixou o livro ainda mais irresistível, não?!


LA DÉLICATESSE (David Foenkinos, Éditions Gallimard, Collection Folio – 5177, 2012)

17 de julho de 2012

Como me tornei estúpido [Martin Page]

ATENÇÃO: este review ficou maior que o esperado (me empolguei...), mas prometo que valerá a pena lê-lo!

Minha melhor leitura de 2011 (e que ganhou um lugar de respeito na minha estante) foi A libélula dos seus oito anos. Como não podia deixar de ser, fui com sede ao pote em Como me tornei estúpido, primeiro romance do francês Martin Page. E vou dizer... superou expectativas! Posso afirmar que o autor está, definitivamente, entre meus preferidos (junto com García Márquez e Saramago).


Antoine, 25 anos, é um rapaz como muitos outros. Não gosta de ser manipulado, não gosta de explorações colonialistas, não gosta que lhe obriguem a estudar assuntos desinteressantes, odeia a burocracia e todas as suas máscaras.
Traduzir do aramaico e conhecer a fundo o cinema de Sam Peckinpah e Frank Capra, no entanto, não o levaram muito longe. Por isso, um belo dia, Antoine anuncia a seus amigos um plano perfeito. Investir na idiotice como forma de sobrevivência. Ele está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.

Genialmente exagerado e deliciosamente sarcástico, pincelado com cenas inimagináveis que se mostram fantasiadas de cotidiano (o que lembra aspectos do realismo mágico). Como me tornei estúpido deve ser saboreado sem pressa – serão necessárias diversas pausas para rir com a comicidade nada inocente e com a astúcia de muitos trechos.

Ao utilizar-se do caricato e de certo exagero, o autor provoca e faz pensar. A ideia de que a estupidez se faz necessária para a integração à sociedade é brilhante e leva verdade a tiracolo. Criticar a sociedade deliberadamente consumista, a ambição sem freios e o egocentrismo planetário não é algo superinovador, mas Martin Page revela tais críticas de maneira inteligente e dotada de personalidade.

De maneira impressionante, os seres humanos se parecem com o seu carro. Uns têm uma vida sem opções que avança com toda a prudência, não vai muito depressa, freia e tem frequentemente necessidade de reparos; é uma vida de qualidade inferior, pouco sólida, que não protege os seus ocupantes em caso de acidente. Outras vidas têm todas as opções possíveis: o dinheiro, o amor, a beleza, a saúde, a amizade, o sucesso, o airbag, assentos de couro, direção hidráulica, motor possante e ar-condicionado.

Só o que foi dito acima já seria motivo suficiente para colocar o livro na lista dos “must-read de toute urgence” (curti o termo que acabei de inventar, vou inseri-lo no meu glossário mental, sabe, para a posteridade...). Mas ainda não acabou. Antoine, o protagonista, é fascinante. Suas ideias, suas atitudes, seus princípios e seu modo de vida (antes e durante o caminho da estupidez) fazem com que o leitor tenha vontade de conhecê-lo em carne e osso. Além disso, ele tem um melhor amigo que brilha no escuro! Agora diz, quem mais tem um melhor amigo que brilha no escuro?!

Ele estava cansado da acuidade de observação que lhe dava uma imagem cínica das relações humanas. Queria viver, não saber a realidade da vida; queria justamente viver. (...) Antoine não desejava ser um perfeito imbecil, mas diluir sua inteligência no amálgama da vida, deixar de tentar analisar tudo, de tentar descobrir tudo. (...) Não se tratava de renunciar gratuitamente à razão: a finalidade era participar da vida em sociedade.

Se você quer ler algo que te surpreenda, que te faça rir e dedicar um aplauso mental ao terminar a última página, este é o livro. Lá no começo, eu disse que ele deve ser lido sem pressa. Acontece que isso é quase um desafio: garanto que você vai devorá-lo rapidinho...

Título: Como me tornei estúpido
Título original: Comment je suis devenu stupide
Autor(a): Martin Page
Editora: Rocco
Edição: 2005
Ano da obra: 2001
Páginas: 160

5 de junho de 2012

Vi na Livraria: Em Caso de Felicidade, de David Foenkinos



EM CASO DE FELICIDADE, de David Foenkinos, ed. Rocco

O que fazer quando um casal não consegue suportar a lembrança dos dias felizes do início do relacionamento e contrapô-la com a entediante rotina de um casamento que já dura oito anos? Em Caso de Felicidade acompanha o irresistível fascínio de um casal por uma arrebatadora história de amor. Ao sair em busca de aventuras extraconjugais, Jean-Jacques e Claire se deparam com um turbilhão de emoções que acabará levando-os de volta na direção um do outro, mesmo que não se deem conta disso inicialmente. Como nos filmes de François Truffaut, o romance de David Foenkinos tece uma delicada trama de relações amorosas em tom de comédia sentimental.

Felizes, nos tornamos um pouco desajeitados aos olhos do mundo, além de termos a medida exata do que é ou pode vir a ser a infelicidade. No ápice de uma alegria maior que ele, Jean-Jacques reflete, através de um narrador perspicaz: "Um futuro terrível se projetava diante dele, em sombras imprecisas. Ninguém sabia o que fazer em caso de felicidade. Havia seguro de vida, seguro para veículos e para morte ocorrida dentro de algum veículo. Mas quem nos protegerá da felicidade? Ele acabava de perceber que essa felicidade, tão forte como se tornara, era a pior coisa que podia ter-lhe acontecido."

A curiosidade e o interesse pelas obras do autor e roteirista francês David Foenkinos me motivaram a mostrar Em Caso de Felicidade aqui.
Do autor, tenho o livro La Délicatesse – cuja edição brasileira chama-se A Delicadeza –, ainda não lido, que deu origem ao filme A Delicadeza do Amor, estrelado por Audrey Tautou. O filme, em cartaz desde o final de maio, tem roteiro por David Foenkinos e é dirigido pelo autor e seu irmão, Stéphane Foenkinos.

29 de abril de 2012

Dia do Trabalho = Livro + Filme

1º de maio, Dia do Trabalho... Nada melhor que a duplinha livro + filme sobre uma profissão (e um universo), digamos, interessante. Explico melhor...

Apesar de ambos, livro e filme, não se tratarem de lançamentos (e nem é este o intuito dos posts “livro + filme”), achei bem válido mostrá-los aqui. Basicamente, foram dois os motivos pelos quais escolhi o livro $ 29,99 (cuja adaptação cinematográfica é intitulada 99 Francos) para este post:

1. Tenho muita vontade de ler e descobrir mais sobre o autor (nunca li nada dele) e sobre a literatura francesa contemporânea.
2. Sou formada em Publicidade e Propaganda, e a proposta – tanto do livro quanto do filme – me parece genial. A desconstrução da imagem de glamour da publicidade e os infortúnios pessoais do protagonista (que parecem regados com uma deliciosa dose de ironia) possivelmente rendem um pacote “diversão + reflexão” por umas boas horas.

E acrescento aí mais um motivo em relação ao filme:
3. Sou fã do cinema francês.



LIVRO: $ 29,99, de Frédéric Beigbeder, ed. Record, 2003

$ 29,99 é uma parábola sobre a propaganda, seus súditos e profissionais, entre eles o próprio autor*. Octave é um publicitário famoso, com um salário invejável e capaz de atrair ainda mais dinheiro, mulheres e cocaína em quantidades suficientes para torná-lo uma espécie de super-homem. Mas, na verdade, logo o leitor descobre que Octave está mais para morto do que vivo, é infeliz, insatisfeito e nem todo o aparente glamour de sua vida o impede de ser um eterno nostálgico, noite e dia suspirando pela mulher que o deixou.

*Frédéric Beigbeder trabalhou em algumas grandes agências de publicidade, a Young & Rubicam de Paris foi uma delas.





FILME: 99 FRANCOS(99 Francs, de Jan Kounen, França, 2007)

Sinopse: O mundo da publicidade pode ser maravilhoso, mas também pode destruir. Octave é publicitário de uma agência famosa e tem acesso fácil a drogas, mulheres e dinheiro. A vida dele muda totalmente quando conhece Sophie, depois do fracasso de uma campanha que ele fez para uma empresa importante. Uma sátira cômico-dramática do mundo publicitário.




26 de março de 2012

Vídeo-review: Océan Indien e Pays Nordiques

Confiram o review dos livros Océan Indien e Pays Nordiques, ambos em língua francesa. Obras BASTANTE notáveis! Abaixo do vídeo, vocês encontrarão uma breve sinopse dos livros e um pouquinho sobre a coleção.
Desta vez, contei com uma cola básica para falar dos locais (reparem que eu olho o tempo todo para baixo!). Bom, espero que curtam o vídeo! =P



Músicas do vídeo:
Lucy in the Sky with Diamonds – The Beatles
Le Bruit du Dehors – Poney Express
I Go to Sleep – Anika
Tempo Perdido – Legião Urbana



OCÉAN INDIEN
La Réunion, les Comores, l’île Maurice - Entre témoignage, poésie et fantastique, un premier recueil de nouvelles illustrées sur l’Océan Indien qui mêle des textes aux sensibilités différentes.

Título: Océan Indien
Autor(a): Maryvette Balcou, William Cally, Joëlle Ecormier, Isabelle Hoarau
Editora: Reflets d’ailleurs
Edição: 2011
Ano da obra: 2011
Páginas: 127



PAYS NORDIQUES
Le Danemark, l’Islande, les Îles Féroé, le Groenland - Un premier recueil de nouvelles des pays nordiques, par des auteurs reconnus et des textes forts, actuels, qui soulèvent les peurs, les interrogations et la difficulté à trouver sa place.

Título: Pays Nordiques
Autor(a): Charlotte Blay, Bodil Bredsdorff, Erik Juul Clausen, Cecilie Eken, Marjun Syderbo Kjelnaes, Jónína Leósdóttir, Hanne Marie Svendsen
Editora: Reflets d’ailleurs
Edição: 2011
Ano da obra: 2011
Páginas: 127





Coleção "ARCHIPEL"
Destinada aos adolescentes, “Archipel” apresenta espaços geográficos e culturais singulares através de narrativas contemporâneas que incentivam o questionamento a respeito do mundo, abordando temas de cunho histórico e social. O diferencial desta coleção consiste, também, em apresentar ao final do livro documentários que trazem informações sobre os países e aprofundam alguns temas tratados nos contos.

27 de fevereiro de 2012

Escola de Mulheres [Molière]


Publicado originalmente em 1662, Escola de Mulheres é uma comédia teatral que figura entre os grandes clássicos da literatura. Em tom satírico, o enredo se passa em pleno séc. XVII; casamento e adultério caminham juntos, e é de conhecimento geral que toda união vem acompanhada de um par de chifres, fato considerado mesmo inevitável e é tratado com certa complacência por parte dos maridos. Arnolfo sabe e comenta sobre seus conhecidos chifrudos, porém teme enormemente chegar um dia a sê-lo – mais que temer, ele não aceita de forma alguma que possa vir a ser traído por uma futura esposa. Então, criou uma jovem desde seus 4 anos de idade em um convento, para torná-la sua esposa. Arnolfo providenciou que a jovem Inês não recebesse educação adequada, fazendo-a idiota, estúpida e extremamente ingênua. Na visão de Arnolfo, é a mulher perfeita para se ter como esposa (já que acredita que as mulheres espirituosas e cultas utilizam-se de sua inteligência para bolar artimanhas para enganar os maridos). Porém o destino lhe prega uma boa peça: Inês e Horácio (filho de um amigo de Arnolfo) se apaixonam perdidamente e Arnolfo acompanha de perto o desenrolar do romance, pois, sem desconfiar de nada, Horácio o faz seu confidente.

Apesar de ter grande interesse em clássicos, as peças teatrais não estão entre minhas leituras preferidas. Li Escola de Mulheres sem grandes expectativas, mas para minha surpresa, a obra me agradou muito e manteve minha atenção do início ao fim. Achei-a divertidíssima, há momentos que são bem capazes de arrancar risadas dos leitores!

O livro traz linguagem simplificada e a leitura é gostosa de ser feita, fluindo rapidamente. Acho legal comentar que, a meu ver, a leitura fácil (e muito prazerosa) deve-se à excelente tradução de Millôr Fernandes. O texto é leve sem perder o espírito do tema tratado e a ironia que o cerca. (Dei uma espiadinha na versão original em francês: o texto é todo em verso e apresenta linguagem antiga – características próprias da época em que foi concebida a obra. Existe também uma outra tradução por Jenny Klabin Segall, que preserva tais características).

Os personagens – assim como as situações – são hilários, em especial o próprio Arnolfo, e também seus criados. A obra é uma sátira (bastante verossímil) e é muito interessante de ser discutida: o tema, mesmo depois de séculos, continua sendo bastante atual (diria que é o tipo de tema atemporal). É engraçado perceber como a ingenuidade de Inês, que deveria evitar o adultério, veio justamente a propiciar tal situação, uma vez que a moça agia puramente por instinto e nada via de errado em ver um rapaz pelo qual nutria paixão – ainda que estivesse destinada a se casar com Arnolfo.

É válido notar como, apesar da fúria e desgosto de Arnolfo, em certos momentos Inês consegue dele atitudes que revelam amor/afeto e disposição em satisfazê-la – lembrando que tudo acontece numa época em que era imposta a total submissão das mulheres, sendo sempre bem clara sua inferioridade em relação ao homem/marido. É, as mulheres sempre tiveram um jeitinho (proposital ou não) de "dobrar" os homens! =P

Bom, no fim das contas, a mensagem principal deste review é simplesmente: ler clássicos pode ser bem divertido! Além disso, Escola de Mulheres está longe de ser o tipo de leitura enfadonha que nos vem à mente (muitas vezes de forma automática) ao ouvirmos falar de obras muito antigas. Segunda mensagem do review, mas não menos importante: vale a pena dar uma chance para aquele gênero literário que não gostamos tanto assim. Como eu mencionei antes, não curto tanto o gênero dramático (teatro), e esta leitura foi uma agradável surpresa – que, inclusive, me deixou curiosa para descobrir outras obras de Molière.

Curiosidade: Escola de Mulheres foi um escândalo na época de sua concepção, e gerou muitas críticas. Em resposta, Molière escreveu nova peça chamada Crítica da Escola de Mulheres (La Critique de l’École des Femmes).

Sobre o autor: Jean-Baptiste Poquelin (mais conhecido como Molière), considerado um dos mestres da comédia satírica, marcou a dramaturgia francesa por suas críticas aos costumes da época. Com fina ironia penetrou profundamente nos sentimentos da alma e expôs as imperfeições inerentes à natureza humana, a sociedade e seus valores. Assim, em meio a situações cômicas e/ou irônicas emergem a pretensão, a arrogância, a soberba, a mesquinhez, a ostentação, o ciúme, demonstrados com sarcasmo cultivado. Com suas comédias de costumes satirizou a França de Luís XIV, os abusos da corte e a mediocridade da sociedade.

Título: Escola de Mulheres
Título original: L’École des Femmes
Autor(a): Molière
Editora: Paz e Terra
Edição: 1996
Ano da obra: 1662
Páginas: 130

27 de novembro de 2011

O Escafandro e a Borboleta [Jean-Dominique Bauby]


Em 8 de dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral mergulhou brutalmente Jean-Dominique Bauby em coma profundo. Ao sair dele, todas as suas funções motoras estavam deterioradas. Atingido por aquilo que a medicina chama de “locked-in syndrome” (literalmente, trancado no interior de si mesmo), ele não podia mexer-se, comer, falar e nem mesmo respirar sem a ajuda de aparelhos. Em seu corpo inerte, só um olho se mexia. Esse olho – o esquerdo – é o vínculo que ele tem com o mundo, com os outros, com a vida. Com esse olho, ele pisca uma vez para dizer “sim”, duas para dizer “não”. Com esse olho, ele chama a atenção de seu visitante para as letras do alfabeto que lhe são ditadas, formando assim palavras, frases, páginas inteiras... Com esse olho, ele escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, foi memorizando as páginas antes de ditá-las e de corrigi-las, depois.
Do interior da bolha de vidro de seu escafandro, onde voam borboletas, ele nos envia cartões-postais de um mundo que só podemos imaginar. Quando só restam palavras, nenhuma palavra é demais.
Jean-Dominique Bauby nasceu em 1952. Jornalista, tinha dois filhos e era redator-chefe da revista Elle francesa. Faleceu dez dias depois da publicação do livro, em 1997.

Desde que vi o filme, de mesmo título e dirigido por Julian Schnabel (2007), tive uma vontade louca de ler o livro. E não me arrependi.

Cartaz do filme - imperdível
Apesar do contexto trágico em que foi escrito, O Escafandro e a Borboleta não é um livro para se debulhar em lágrimas – pelo menos, isso não aconteceu comigo. A partir da condição do autor e de suas narrações a respeito do cotidiano visto de dentro do seu escafandro, somos inseridos em um rico processo de auto-reflexão. Narrado em primeira pessoa, o livro traz uma grande lição de vida embutida nas entrelinhas. Contudo, ao contrário do que muitos possam vir a pensar, não chega nem perto do piegas e não contém excessos de sentimentalismo.

Uma característica interessante é que os capítulos são meio que “independentes” entre si; em cada um deles (que, em muitos momentos, assemelham-se a crônicas), um aspecto diferente é abordado sob a ótica – genial, eu diria – do autor. Desta forma, a leitura não se aproxima, em nenhum momento, do tédio e não tem enrolações de nenhuma espécie. Mesmo em um contexto denso e considerando seu triste estado, Jean-Do tem um senso de humor incrível. Por vezes, utiliza da ironia e do sarcasmo, revestindo seu sofrimento em uma roupagem mais “leve”. Ainda assim, nunca deixamos de notar que o desespero existe e é grande. Importante: o livro não é uma biografia (apesar de eu ter colocado "biografia" como uma das tags, simplesmente por seu fator real), porém tudo o que lemos é real e foi escrito pelo próprio Jean-Dominique, orientando-se pelo alfabeto ditado e usando seu olho para indicar as letras.

Para terminar, O Escafandro e a Borboleta é realmente uma daquelas obras que, em algum momento da vida, todo mundo deveria ler.

Título: O Escafandro e a Borboleta
Título original: Le Scaphandre et le Papillon
Autor(a): Jean-Dominique Bauby
Editora: Martins Fontes
Edição: 2009
Ano da obra: 1997

21 de novembro de 2011

Cinema = Livro + Filme

Com todo esse burburinho acerca da estreia de Amanhecer - parte I, 4º filme da saga Crepúsculo (ainda não vi, mas pretendo conferir em breve!), acho legal notarmos também outras adaptações literárias interessantes que estão nos cinemas ou que chegarão nas próximas semanas.


Recomendadíssimo, mas minha opinião é suspeita, já que sou fã do diretor. Sendo um filme de Almodóvar, já adianto que tem características peculiares. Ama-se ou odeia-se, não há meio-termo. Quanto ao livro: preciso lê-lo!
A PELE QUE HABITO
(La Piel que Habito, de Pedro Almodóvar, Espanha, 2011)
O doutor Robert Ledgard passou doze anos se dedicando à criação de um novo tipo de pele depois que sua mulher sofreu queimaduras fatais num acidente de carro. Essa nova pele é sensível ao toque, porém resistente a qualquer tipo de agressão. Durante esses anos, alguns jovens da região desapareceram, nem todos por vontade própria. Uma delas é Vera, cobaia mantida refém pelo médico e por sua assistente, Marilia, em um quarto de sua mansão, El Cigarral.
6º filme em que Almodóvar e Pedro Bandera trabalham juntos.
A Pele que Habito foi selecionado para a competição oficial do Festival de Cannes 2011.
LIVRO: Tarântula (de Thierry Jonquet, ed. Record)


Já tenho a edição em francês do livro, esperando para ser devorada!
A CHAVE DE SARAH
(Elle s’Appelait Sarah, de Gilles Paquet-Brenner, França, 2011)
Julia (Kristin Scott Thomas) é uma jornalista que vê a sua vida envolvida com a de uma garota chamada Sarah: uma menina que teve a família destruída por nazistas, na maior perseguição de judeus na França. Às vezes o passado pode desvendar o futuro.
O filme foi vencedor do Prêmio da Audiência e do troféu de Melhor Diretor do Festival de Cinema de Tóquio 2010
LIVRO: A Chave de Sarah (de Tatiana de Rosnay, ed. Suma de Letras)


Não poderia deixar de mencionar... Praticamente um clássico moderno, o livro já é queridinho de muita gente – e já está entre meus favoritos.
UM DIA
(One Day, de Lone Scherfig, EUA/Reino Unido, 2011)
*Estreia prevista para 2 de dezembro.
Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgees) se conheceram na faculdade, em 15 de julho. Esta data serve de base para acompanhar a vida deles ao longo de 20 anos. Neste período Emma enfrenta dificuldades para ser bem sucedida na carreira, enquanto que Dexter consegue sucesso fácil, tanto no trabalho quanto com as mulheres. A vida de ambos passa por várias outras pessoas, mas sempre está, de alguma forma, interligada.
LIVRO: Um Dia (de David Nicholls, ed. Intrínseca)


Li o primeiro capítulo em um livreto, há alguns anos, e tenho muita vontade de ler o livro todo. O filme parece ser verdadeiramente belo: só pelo ballet é certo que valerá a pena conferir!
O ÚLTIMO DANÇARINO DE MAO
(Mao’s Last Dancer, de Bruce Beresford, Austrália, 2009)
*Estreia prevista para 9 de dezembro.

Com apenas 11 anos, um garoto chinês é levado de um vilarejo pobre para estudar balé na escola de dança Madame Mao, em Pequim. Em 1979 entra para a Companhia Houston Ballet (Texas, EUA). Lá, apaixona-se por uma bailarina e decide não mais voltar. A situação acarreta um desconforto diplomático entre as nações e faz com que o bailarino fique proibido de voltar à China para rever seus familiares.
História real baseada na autobiografia de Li Cunxin.
Premiado na 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2009, como Melhor Filme na opinião do público.
Premiado pelo público e por sua trilha sonora no Australian Film Institute.
O filme foi exibido no Festival Internacional de Cinema do Rio de 2011.
LIVRO: Adeus China: o último bailarino de Mao (de Li Cunxin, ed. Fundamento)

4 de novembro de 2011

O Bigode [Emmanuel Carrère]



Em uma manhã qualquer, um homem decide raspar o bigode que ele vinha usando há 10 anos. Com ato tão simples pretende mudar um pouco, surpreender a mulher, os amigos. Porém ninguém percebe a mudança; afirmam, ainda, que ele jamais usou bigode. Ele começa, então, a recolher provas da existência do bigode, dando início a questionamentos e confusão, que nos fazem caminhar da realidade ao delírio sem saber de qual lado ficar.

Estamos diante de uma obra, no mínimo, intrigante. O Bigode, de Emmanuel Carrère, nos mostra um protagonista muito bem elaborado, porém, e por conta do próprio enredo, há a constante sensação de ausência da última peça de um quebra-cabeça. E é daí que vem o ponto alto do livro: o leitor não consegue desgrudar das páginas, tomado pela ânsia de entender o que se passa com o ex-bigodudo e o mundo ao redor dele.

O leitor é arrastado pelo redemoinho psicológico que envolve a trama. As questões são muitas, e colocamos à prova – junto com o protagonista – a veracidade dos fatos e a integridade psicológica dos personagens. Inclusive não descartamos a possibilidade de alguma conspiração contra nosso pobre protagonista.

O livro é narrado em terceira pessoa, mas sempre através do olhar do protagonista; é como se tudo nos fosse contado sob a perspectiva do personagem central – há momentos em que nos sentimos dentro de sua mente, inclusive. Os demais personagens têm seu papel no enredo, mas nada tão crucial. Agnes, a mulher do protagonista, tem algum destaque na trama, mas ainda assim, tudo – e todos – gira em torno do grande conflito que envolve o personagem principal, o homem que raspou o bigode.

A leitura é super fluida e o livro tem um ritmo acelerado. O aspecto psicológico (questionamentos, hipóteses perante os fatos) domina a narrativa. Merecem destaque as descrições presentes no livro, cruas e diretas, porém absolutamente carregadas de força, ou ainda demonstrando uma calmaria singular.

Não posso deixar de mencionar que o mais interessante desta leitura é tentar compreender o que a figura do bigode representa. Muito além de ser apenas um tufo de pelos, o bigode nos remete à identidade do personagem. Indo um pouco além, diria que esta identidade representada pelo bigode está mais próxima de ser aquilo que a sociedade moldou no personagem, um papel que ele representa para que as expectativas da vida cotidiana sejam atendidas. Um papel que todos nós representamos e do qual, muitas vezes, nos tornamos indissociáveis. Raspar o bigode seria mais do que uma simples fuga para o personagem do livro, seria libertar-se das pressões e cobranças – parar de andar conforme o fluxo para recuperar vontade própria e ir de encontro ao indivíduo real por trás do “disfarce” de todos os dias. Notamos, porém, um despreparo interno da parte dele em relação a esta libertação, uma visível impossibilidade de desvincular-se do papel que lhe foi atribuído na sociedade. A partir daí, a confusão mental, o possível delírio, encontra lugar para instalar-se, dada a busca desorientada do personagem por sua própria identidade – a real.

Nem preciso dizer que esta é uma leitura super recomendada. As 140 páginas, que já não são muitas, têm tudo para serem vorazmente devoradas por aqueles que apreciam conflitos e incertezas quanto à realidade – na literatura, claro.

Curiosidade: o livro teve uma adaptação para o cinema feita pelo próprio autor, também cineasta. La Moustache - que leva o mesmo nome do livro - foi premiado no Festival de Cannes de 2005.

Título: O Bigode
Título original: La Moustache
Autor(a): Emmanuel Carrère
Editora: Rocco
Edição: 2002
Ano da obra / Copyright: 1986

10 de setembro de 2011

A Libélula dos Seus Oito Anos [Martin Page]

Imaginem uma leitura deliciosa... Pois bem, ler A Libélula dos Seus Oito Anos foi para mim uma delícia até difícil de ser explicada, tamanho o encanto que me proporcionou.


Escrito numa narrativa sarcástica, o romance traz figuras que fogem completamente ao usual, e que só se tornam críveis por conta da riqueza de detalhes psicológicos com que são descritos. A protagonista, Fio Régale, é uma jovem simples e muito pragmática, com uma incrível capacidade para a pintura e inigualável aptidão para enxergar o mundo ao seu redor. Ela gosta de neve e chá sem açúcar, e chantageia pessoas ameaçando tornar públicos seus segredos, os quais ela finge conhecer. Com isso, consegue dinheiro suficiente para se sustentar. O resultado é um romance único e irresistível sobre a banalidade da vida, urdido com o humor, a delicadeza e a desesperança tão peculiares do autor de Como me tornei estúpido.


São 175 páginas que dizem muito e que prendem do início ao fim. A narrativa traz uma boa dose de sarcasmo e é recheada de frases incríveis (e muito verdadeiras!), e mais incríveis ainda são os acontecimentos, que beiram – e mesmo adentram – o campo do absurdo. Um humor genial e que foge do óbvio está sempre presente. Sem pecar pelo excesso (característica tão comum de encontrarmos por aí), muitas passagens são bem capazes de arrancar risadas dos leitores.

O livro nos mostra claramente como as coisas, pessoas e informações podem ser banais e bem passíveis de serem modeladas. Verdades não passam de mera construção planejada, atingindo o status de verdades simplesmente porque alguém assim o quis e afirmou. Desta forma, é extremamente difícil encontrar a fronteira entre uma pessoa “ela-mesma” e o que as pessoas acreditam que ela seja; embora às vezes estes dois territórios pareçam bem demarcados, eles acabam por fundir-se de maneira incontornável. A defesa é tarefa impossível, já que, conforme a ideia passada no livro, não há como defender-se da admiração alheia.

Os personagens são a principal atração do livro, a cereja do bolo, eu diria. Construídos com excelência, eles possuem toques de uma excentricidade cativante e também sarcástica, principalmente Fio e sua melhor amiga, Zora. Saboreei a “esquisitice” de cada hábito e apreço que elas apresentavam, e concluí que não há de fato esquisitice, mas somente permissividade suficiente dentro de cada uma delas para ir (muito) além do convencional. Na essência, isto por vezes me trouxe um sentimento do tipo “pequenos prazeres da Amélie Poulain”...

Alguns detalhes que merecem atenção: a história de amor nada convencional dos pais de Fio; o ganha-pão politicamente incorreto – e inteligentíssimo – da protagonista antes da reviravolta em sua vida; o excêntrico gosto de Zora por dar tiros de arma em eletrodomésticos; a creperia de Misha Shima; e há muitos outros detalhes especiais no livro (é impossível citá-los todos)!

Claro que não posso deixar de fora alguns trechos excelentes com os quais me deparei no decorrer da leitura:

Aproximaram-se cada vez mais. Suas personalidades combinavam. Até que um dia ambas assumiram a responsabilidade de ser uma a melhor amiga da outra. Fio tivera outros amigos antes de Zora, pois todo mundo tem amigos. Tinha também uma torradeira; nem todo mundo tem uma torradeira.

Há quem tenha pés grandes, outros têm manchas vermelhas. Já Zora possuía a incrível faculdade de detestar.
(...)
O ódio é uma forma de se consolar em relação às coisas que nunca se poderão ter. Zora não odiava por ela mesma, mas pelos outros. De certa maneira, seu ódio era uma forma de altruísmo.

Não podemos nos defender da admiração, não podemos desconfiar de quem gosta de nós, é uma guerra da qual sairemos sempre perdedores.
(...)
A admiração embute um canibalismo sublimado.

Tenho a impressão de que não consegui expressar aqui o quanto este livro me fascinou. RECOMENDADÍSSIMO: Fio e Zora estão entre os personagens mais singulares que já “conheci” (arrisco mesmo a pensar que todo mundo que leu o livro teve uma vontade secreta de que elas fossem reais só para tê-las como amigas); o livro já está entre meus favoritos; e o francês Martin Page tem tudo para estar entre meus autores favoritos também (estou completamente empolgada para devorar outras obras dele).

Título: A Libélula dos seus Oito Anos
Título original: La Libellule de ses Huit Ans
Autor(a): Martin Page
Editora: Rocco
Edição: 2010
Ano da obra / Copyright: 2003

12 de julho de 2011

Bubble Gum [Lolita Pille]

Confesso que os primeiros capítulos de Bubble Gum não me atraíram, achei que a leitura começou de forma entediante e, por um momento, juro que acreditei que seria assim até o fim do livro. Já praticamente me rendia à decepção, quando o enredo começou a tomar algum corpo e, de repente, me vi curiosa em relação às páginas seguintes.


Manon é uma jovem provinciana que sai do sul da França para tentar a vida como modelo em Paris, começando como garçonete. Derek Delano é herdeiro de uma multinacional do petróleo, aristocrata blasé cujo maior prazer é comprar e manipular as pessoas em jogos cruéis. Atraído por Manon, Derek é seduzido pela ideia de corrompê-la, de estragar seu destino. Afinal de contas, numa vida esvaziada de sentido, a destruição de um ser inocente é um projeto de vida que faz tanto sentido quanto qualquer outro. Graças a ele, Manon realiza o sonho de brilhar como modelo e atriz, mas ao preço da dependência de antidepressivos, cocaína e outros vícios. Mas logo se dá conta da armadilha em que caiu e planeja uma vingança.

Tudo é narrado em primeira pessoa por Manon e Derek, que se alternam em cada capítulo. Porém, não importa qual dos dois está narrando, o sentimento constante ao longo da leitura é o mesmo: raiva. Raiva por Manon ser tão estúpida, ter uma cabecinha tão pequena e ser altamente influenciável. E raiva por Derek e sua arrogância, sua crueldade e calculismo. Além disso, ambos parecem totalmente desprovidos de sentimentos e extremamente egocêntricos, até dignos de pena. Um ponto importante: não espere muita coisa em relação à narrativa, ora muito superficial, ora irritante (há trechos com frases bem longas, que poderiam até ser consideradas “descartáveis”). Por outro lado, esse aspecto do texto pode ser compreendido como muito próprio dos personagens (já que lemos tudo em primeira pessoa), com divagações e ideias que se interrompem e se cruzam.

Porém, e apesar dos meus comentários um tanto negativos, terminei o livro considerando-o muito bom. Através dos personagens, vemos críticas à sociedade e seus valores, além da real obsolescência de tudo o que é considerado valioso – fama, poder, sucesso. Bubble Gum nos mostra de forma cruel que tudo pode ser manipulado e que as pessoas não passam de meros objetos, como personagens de um filme. A tênue linha que separa o que é real do que não é por vezes torna-se mesmo invisível, de forma que a realidade faz-se passível de ser construída, e aí se incluem as pessoas e até mesmo suas emoções. Na orelha do livro há uma frase que ilustra muito bem essa ideia: “Quando a existência tem a profundidade de um pires, até as angústias são pré-fabricadas” – por Luciano Trigo.

Bubble Gum é o tipo de livro em que nada é o que parece ser. O desfecho surpreende. A antipatia que senti no início e o texto não muito agradável foram superados pela forma como os acontecimentos se desenrolam. Para concluir, afirmo que essa leitura revelou-se uma experiência verdadeiramente interessante.

Título / Título original: Bubble Gum
Autor(a): Lolita Pille
Editora: Intrínseca
Edição: 2004
Copyright original: 2004

3 de julho de 2010

Vi na Livraria: Coração Apertado


CORAÇÃO APERTADO - Marie NDiaye
Com uma linguagem e uma atmosfera que lembram o melhor de Kafka, Coração apertado é um romance perturbador, narrado em primeira pessoa pela protagonista Nadia. Ela e Ange são um casal de professores de escola primária no interior da França, extremamente dedicado a seu ofício. De uma hora para outra, começam a notar que seus vizinhos, alunos, colegas e desconhecidos passam a olhá-los e tratá-los de modo diferente e violento, sem um motivo aparente. Já no início da narrativa, Ange é ferido e seu corpo passa por metamorfoses visíveis – outro acento kafkiano.
Com uma escrita sóbria e densa, Marie NDiaye cria um suspense apavorante, com toque de humor ferino e dilacerante, que não se desvia das tensões sociais da França de hoje. Nas palavras de Beatriz Bracher, que assina o texto de orelha da edição, “Coração Apertado é surpreendente e terrível até o final”.

Coração Apertado no SKOOB

1 de abril de 2010

Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde

“Para Jérôme, que largou tudo e foi dar a volta ao mundo.
Para Mathieu, que não largou nada e dá voltas no escritório.
E para todos que sonham chutar o balde...”

Após o sucesso de Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho, livrinho genial, eu não podia deixar de conferir o Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde. E confesso que este último também conquistou minha simpatia, além de melhorar consideravelmente o meu humor a cada página virada.

Assim como no livro anterior, atividades um tanto lúdicas cujo tema é o ambiente corporativo também aparecem aqui. Mas isso não é tudo; também encontramos passatempos irônicos envolvendo amigos, familiares e aquelas obrigações sociais das quais sempre queremos – e muitas vezes não podemos – fugir.

Através deste irreverente livrinho de capa verde, a autora Claire Faÿ nos encoraja a nos libertarmos de algum peso (ou melhor, pessoa) imenso que carregamos, e a levar as abobrinhas para colorir na próxima reunião de trabalho. Em um barquinho, podemos desenhar companheiros que também remam contra a maré (e assim nos convencemos de que não estamos sozinhos) – ótimo para ajudar a retardar um pouco o processo de desmotivação. Se estivermos cansados de ficar à sombra alheia (sinto que isso cabe perfeitamente no mundo corporativo), basta desenhar-nos a nós mesmos à sombra de um belo coqueiro e está tudo resolvido... Pelo menos por enquanto!

Com o Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde, em poucos minutos, vemos como é simples dar um bolo em alguém ou simplesmente reconhecer (sem culpa) aquele cabeça-de-bagre em um jantar de família. Agora, se o problema for um chefe mala, eis a solução: a cada crítica que ele fizer, simplesmente dê a ele um “vale 1 ponto - demissão”. Continue fazendo isso até completar toda a cartela do livro e, junto com o último ponto, seu chefe receberá a simpática mensagem “Parabéns! Ganhou minha demissão”. Simples assim.

Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde é uma ótima opção quando o objetivo for o humor. E digo mais, se estiver em dúvida do que dar de presente para algum colega no amigo secreto do trabalho, não precisa nem pensar duas vezes: se o livrinho não resolve os entraves do dia-a-dia, pelo menos garante uns bons momentos de descontração!

Confira a seguir algumas páginas do livro (clique para ampliar em nova janela):

     

  

Título: Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde
Autor(a): Claire Faÿ
Publicação original: 2007

LEIA TAMBÉM:
Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho

15 de fevereiro de 2010

Moulin Rouge, amores doloridos e boemia latejante

Desfiles das escolas de samba, carros alegóricos, aquele som infernal (perdoem-me os apreciadores) vindo da televisão e de onde quer que seja; ao invés de tudo isso, amores não correspondidos, “French Cancan”, as ruas de Montmartre e o famoso Moulin Rouge. Com vocês, uma ótima opção para os que não morrem de amores pelas festividades do Carnaval, mas ainda assim querem preencher o feriado com algo de qualidade: Moulin Rouge!

Ao contrário do que muitos podem pensar de início, o livro Moulin Rouge não relata aquela linda história de amor entre Christian e Satine do filme de Baz Luhrmann, mas sim a trajetória (mais como uma biografia romanceada) do pintor francês pós-impressionista e litógrafo Henri-Marie-Raymonde de Toulouse-Lautrec-Monfa, ou apenas Henri de Toulouse-Lautrec; e devo dizer: é um livro que figura entre os meus favoritos.

Toulouse-Lautrec nasceu na nobreza francesa, mas foi a vida boêmia parisiense de fins do século XIX que ele adotou como sua (ou teria sido a boemia que o adotou?). Essa vida, inclusive, era o tema principal de suas pinturas; seu estilo mostrava linhas livres e cores intensas, transmitindo expressividade e movimento. Dançarinas como La Goulue e Jane Avril apareciam retratadas em seus cartazes para o cabaré Moulin Rouge, onde exercia papel de frequentador assíduo.

Contudo, a vida de Toulouse-Lautrec esteve longe da felicidade e glória, estas se mostrando apenas como leves e efêmeros (por vezes falsos) sopros em sua trajetória. Sua doença – que fez dele um homem adulto com pernas de menino –, o sabor amargo dos amores não correspondidos e o alcoolismo desempenharam importantes papeis em sua curta vida e conferem uma dose extra (e realmente emocionante) de drama na história. Outra característica que torna o livro ainda mais cativante são as interações – reais – entre Toulouse-Lautrec e nomes célebres como Vincent Van Gogh, entre outros.

Moulin Rouge é um livro para ser saboreado em todas e cada uma de suas palavras. Moulin Rouge é atrevido ao tocar-nos o fundo da alma. Moulin Rouge é um livro de amor, ainda que em sua mais triste faceta.

Curiosidades:
- Este livro deu origem a um filme de mesmo nome, Moulin Rouge (1952), dirigido por John Houston e ganhador de 2 estatuetas do Oscar.
- No filme Moulin Rouge de Baz Luhrmann (2001), Toulouse-Lautrec aparece como um personagem secundário, envolvido e sofrendo com as tragédias do casal protagonista.

    
Pequenos exemplos da arte de Toulouse-Lautrec

Título: Moulin Rouge
Autor(a): Pierre La Mure
Publicação original: 1950

4 de fevereiro de 2010

Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho

Foi num final de semana, há meses atrás, enquanto caminhava entre as prateleiras da Livraria Cultura (lugar adorável!) que o vi. Estava lá todo modesto, espremido entre livros bem maiores e o vidro da prateleira. E graças ao vidro eu o vi. A capa laranja também ajudou, apesar do tamanho compacto. Acabei passando reto, mas aquele título ficou por uns segundos na minha cabeça e tive que voltar para ver do que realmente se tratava. Uma ideia daquelas seria genial demais, eu pensei, e realmente era.

Com certo esforço, consegui resgatá-lo da prateleira. Fitei a capa, o título dizia  Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho. Demorei-me um pouco nela: a capa de um livro, quase sempre, é algo muito interessante se olhar às pressas. E, por fim, o abri. (Curiosidade: da artista gráfica francesa Claire Faÿ, o livro foi lançado em 2006 e surpreendeu ao permanecer na lista de best-sellers da França. Em 2007, esteve entre os 10 livros mais vendidos do mesmo país.)

O que eu posso dizer é que o livrinho me surpreendeu. A cada página deparei-me com passatempos bastante interessantes e totalmente dentro do contexto do ambiente no qual passamos 8 das 24 horas do nosso dia. E muita gente, ao ver o livro, deve ter se surpreendido pelo mesmo sentimento de identificação. Atividades como "desenhe a vaca indo para o brejo" me fizeram rir por apresentar causos do dia-a-dia que ainda nos deixarão uma úlcera nervosa de recordação. Uma atividade em especial achei genial, trata-se do já conhecido "relacione a coluna da esquerda com a coluna da direita", sendo que a coluna da esquerda eram as corriqueiras e mais que irritantes coisas que normalmente fazemos nos escritórios (responder email do chefe, por exemplo). Já a coluna da direita é que era boa, com desenhos de gestos com a mão (apontando o dedo de diversas formas, com significados nada amigáveis). Ligar as colunas nunca foi tão divertido desde aqueles passatempos que eu fazia nos gibis da Turma da Mônica! Merece atenção especial também o "coloque os pingos nos i's" e a "pausa para o café: colorir as xícaras até transbordarem" (a versão chá ou chocolate quente seria muito bem-vinda também, não?).

Em suma, apesar de ser fininho e relativamente discreto (não fosse pela capa laranja), o Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho diverte e ameniza as tensões de um dia atribulado. Ele é ousadinho, provoca sem avacalhar, já que, em tempos nos quais vender a alma para o demo já virou passado – agora a gente vende a alma para as corporações –, todo cuidado é pouco.

Título: Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho
Autor(a): Claire Faÿ

Publicação original: 2006

LEIA TAMBÉM:
Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde

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