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17 de julho de 2012

Como me tornei estúpido [Martin Page]

ATENÇÃO: este review ficou maior que o esperado (me empolguei...), mas prometo que valerá a pena lê-lo!

Minha melhor leitura de 2011 (e que ganhou um lugar de respeito na minha estante) foi A libélula dos seus oito anos. Como não podia deixar de ser, fui com sede ao pote em Como me tornei estúpido, primeiro romance do francês Martin Page. E vou dizer... superou expectativas! Posso afirmar que o autor está, definitivamente, entre meus preferidos (junto com García Márquez e Saramago).


Antoine, 25 anos, é um rapaz como muitos outros. Não gosta de ser manipulado, não gosta de explorações colonialistas, não gosta que lhe obriguem a estudar assuntos desinteressantes, odeia a burocracia e todas as suas máscaras.
Traduzir do aramaico e conhecer a fundo o cinema de Sam Peckinpah e Frank Capra, no entanto, não o levaram muito longe. Por isso, um belo dia, Antoine anuncia a seus amigos um plano perfeito. Investir na idiotice como forma de sobrevivência. Ele está convencido de que só a estupidez lhe permitirá ser plenamente aceito pela sociedade em que vive.

Genialmente exagerado e deliciosamente sarcástico, pincelado com cenas inimagináveis que se mostram fantasiadas de cotidiano (o que lembra aspectos do realismo mágico). Como me tornei estúpido deve ser saboreado sem pressa – serão necessárias diversas pausas para rir com a comicidade nada inocente e com a astúcia de muitos trechos.

Ao utilizar-se do caricato e de certo exagero, o autor provoca e faz pensar. A ideia de que a estupidez se faz necessária para a integração à sociedade é brilhante e leva verdade a tiracolo. Criticar a sociedade deliberadamente consumista, a ambição sem freios e o egocentrismo planetário não é algo superinovador, mas Martin Page revela tais críticas de maneira inteligente e dotada de personalidade.

De maneira impressionante, os seres humanos se parecem com o seu carro. Uns têm uma vida sem opções que avança com toda a prudência, não vai muito depressa, freia e tem frequentemente necessidade de reparos; é uma vida de qualidade inferior, pouco sólida, que não protege os seus ocupantes em caso de acidente. Outras vidas têm todas as opções possíveis: o dinheiro, o amor, a beleza, a saúde, a amizade, o sucesso, o airbag, assentos de couro, direção hidráulica, motor possante e ar-condicionado.

Só o que foi dito acima já seria motivo suficiente para colocar o livro na lista dos “must-read de toute urgence” (curti o termo que acabei de inventar, vou inseri-lo no meu glossário mental, sabe, para a posteridade...). Mas ainda não acabou. Antoine, o protagonista, é fascinante. Suas ideias, suas atitudes, seus princípios e seu modo de vida (antes e durante o caminho da estupidez) fazem com que o leitor tenha vontade de conhecê-lo em carne e osso. Além disso, ele tem um melhor amigo que brilha no escuro! Agora diz, quem mais tem um melhor amigo que brilha no escuro?!

Ele estava cansado da acuidade de observação que lhe dava uma imagem cínica das relações humanas. Queria viver, não saber a realidade da vida; queria justamente viver. (...) Antoine não desejava ser um perfeito imbecil, mas diluir sua inteligência no amálgama da vida, deixar de tentar analisar tudo, de tentar descobrir tudo. (...) Não se tratava de renunciar gratuitamente à razão: a finalidade era participar da vida em sociedade.

Se você quer ler algo que te surpreenda, que te faça rir e dedicar um aplauso mental ao terminar a última página, este é o livro. Lá no começo, eu disse que ele deve ser lido sem pressa. Acontece que isso é quase um desafio: garanto que você vai devorá-lo rapidinho...

Título: Como me tornei estúpido
Título original: Comment je suis devenu stupide
Autor(a): Martin Page
Editora: Rocco
Edição: 2005
Ano da obra: 2001
Páginas: 160

10 de junho de 2012

Extras [Scott Westerfeld]



No quarto livro da série, A Era da Perfeição ficou no passado. A libertação promovida graças aos esforços de Tally Youngblood deu fim a uma cultura onde a beleza e as modificações cerebrais eram a base do sistema. Nesse novo mundo onde Aya Fuse tenta sobreviver, existe uma coisa muito mais importante e poderosa do que a beleza: a fama.

Ocupando o 451.611º lugar em um ranking que mede a popularidade das pessoas, Aya é só uma Extra nesse complexo sistema social. Mas a descoberta de um grupo de misteriosas meninas que se arriscam a surfar em trens magnéticos pode ser a oportunidade perfeita para alcançar o seu lugar no topo. Uma matéria tão boa que irá despertar o interesse de todo mundo, incluindo alguém há muito desaparecido.


Por não se tratar exatamente de uma continuação dos três volumes anteriores da Série Feios, o leitor pode levar algum tempo para se acostumar com o universo de Extras. Em uma cidade* regida pela “economia de reputação”, é a fama que dita as regras e a colocação no ranking de reputação determina e move a existência da população.
* No início, só percebemos que a tal cidade situa-se no Japão pelos nomes claramente japoneses dos personagens. O fato é confirmado só mais adiante, ao ser mencionado que o japonês é a língua falada pelos protagonistas.

Passadas as estranhezas iniciais e uma vez familiarizados com os novos personagens, é tarefa árdua não se deixar envolver pela narrativa irresistível de Westerfeld. Quem leu os livros anteriores sabe do que estou falando. O autor sempre convence, por mais inimagináveis que sejam os elementos de suas histórias. E o leitor, por sua vez, pode aguardar surpresas no desenrolar da trama, elas são uma constante nos livros da série!

O tema, aliás, foi uma grande sacada do autor. Pessoas com câmeras flutuantes a tiracolo, vidas expostas em canais para quem quiser assistir, a necessidade de registrar absolutamente tudo em imagens e divulgá-las em seguida. A vida, por si só, já não é suficiente, é preciso que seja “testemunhada”. Os acontecimentos só adquirem status de “verdade” a partir do momento em que são divulgados, quando há gente falando sobre. Isso tudo nada mais é do que um retrato – caricato e futurista – do mundo “real-virtual” em que vivemos hoje. Facilmente podemos traçar paralelos e fazer comparações com estes tempos de Facebook, em que é possível conhecer tudo da vida de uma pessoa através das redes sociais – mesmo sem nunca tê-la visto pessoalmente.

Questões derivadas ao tema são abordadas de maneira interessante no livro. Distorção de fatos, bullying virtual, obsoletismo das informações, falta de privacidade (e, ainda, a impossibilidade de realmente optar por uma vida privada), e valores (como lealdade e honestidade) na era virtual. Tecnologia é sinônimo de progresso, certo? Nem sempre. Extras nos mostra uma população que parece retomar padrões e hábitos de seus ancestrais em uma espécie de ciclo contínuo e circular, ainda que esteja inserida em um mundo bem mais avançado. Muitas vezes, o lidar com tais avanços é mais relevante do que a simples disponibilidade deles.

Quando uma pessoa conta a mesma história várias vezes, fica mais fácil continuar acreditando nela.


Apesar de bem retratados e adequados ao contexto, os personagens não possuem a força dos protagonistas dos três volumes anteriores da série. Ainda, alguns elementos da trama são bastante dispensáveis, como a historinha Aya-Frizz, por exemplo. Para os mais nostálgicos, Tally, Shay e companhia aparecem na trama, algo do tipo “participação especial”, mas adianto que não é nada que vá matar as saudades das aventuras encerradas com Especiais.

Recomendo a leitura pelo tema e pela narrativa incansável de Scott Westerfeld. Apesar de não ser imperativo ter lido os volumes anteriores da série, alguns conceitos abordados nos outros livros podem acabar parecendo superficiais em Extras. Logo, é sempre mais interessante ler toda a série - e garanto que não se arrependerão!

Título: Extras
Título original: Extras
Autor(a): Scott Westerfeld
Editora: Galera Record
Edição: 2012
Ano da obra: 2007
Páginas: 416

10 de abril de 2012

A Arte da Invisibilidade [Allan Pitz]

“A arte da invisibilidade visa condicionar o homem moderno ao intelectualismo de avanço real e lógico, natural, em acordo com sua época. E, ousadia das ousadias, visa trazer de volta o homem pensador, que vagaria pelas prisões hipnóticas sem se deter a nenhuma delas. Apenas isso.”


Em A Arte da Invisibilidade, um tema que não é de todo novo nos é trazido acompanhado de metáforas interessantes e um humor característico. Um punhado de teoria da conspiração, a sociedade como órgão manipulador e objeto manipulado, e a plena consciência de tudo isso são abordados no livro. A diferença fica por conta de uma roupagem mais “pop” e bem-humorada – o sarcasmo é bastante utilizado aqui – que faz o assunto parecer menos complexo e mais atraente, principalmente aos olhos dos leitores mais jovens. Deparamo-nos com a ideia da existência de uma “matrix” capaz de controlar a sociedade e decidir seus rumos – inclusive, o livro faz referência à filosofia que permeia o filme Matrix. Escapar desta espécie de “ilusão” à qual somos todos submetidos e alcançar, portanto, a invisibilidade, é a principal proposta do livro.

O texto se desenrola na forma de um verdadeiro monólogo – como já avisa o subtítulo –, um desabafo do autor para com quem o lê. Não associem, porém, a palavra “monólogo” a um significado próximo de “entediante”, pois isso não seria verdadeiro. A leitura se faz de forma fluida e o livro é supercurtinho (132 páginas), daqueles que a gente até consegue ler na pausa do cafezinho (forcei, mas até que nem tanto!). Uma característica interessante foi que o autor bolou uma série de termos metafóricos para ilustrar suas ideias. Um glossário pode ser encontrado ao fim do livro com breves explicações dos termos.

Além disso, outro aspecto legal é a inclusão de frases de pensadores/escritores/filósofos intercalando os capítulos. O autor fez algo semelhante em Estação Jugular, e eu considero tal artifício realmente interessante.

Apesar do humor presente e do tema que, por si só, já é bastante interessante, fiquei com a impressão de que o autor esbarrou um pouco na repetição de ideias, além do texto adotar notável tom pretensioso em certos momentos. Enquanto algumas ideias aparecem e reaparecem, outros conceitos foram abordados apenas superficialmente – o que é, no caso, totalmente compreensível, já que entendo que o objetivo não tenha sido conceber uma “enciclopédia” sobre o assunto. O livro representa ótimo convite à reflexão aberta e sincera e, para aqueles que se interessarem, um incentivo à descoberta de todo o lado filosófico, sociológico (e etc) contido no tema.

Acho válido mencionar que o último capítulo faz um apanhado geral das ideias e conceitos apresentados no livro – aliás, tais ideias poderiam ser relativamente bem compreendidas com a leitura do referido capítulo apenas. Este é um ponto positivo, já que sintetiza toda a informação e ideias expostas, colocando um “pequeno kit para reflexão” pronto nas mãos do leitor.

Achei que esta foi uma leitura bastante válida, apesar de certamente não estar entre as minhas favoritas – ainda que o tema me seja fascinante. Incluindo um último comentário, pessoalmente, não gostei da sinopse da contracapa: achei-a “marketeira” demais e não totalmente condizente com a obra. O trecho na orelha do livro me pareceu bem mais apropriado, mas é só uma opinião pessoal. ;-)

Título / Título original: A Arte da Invisibilidade
Autor(a): Allan Pitz
Editora: Dracaena
Edição: 2011
Ano da obra: 2011
Páginas: 132

27 de fevereiro de 2012

Escola de Mulheres [Molière]


Publicado originalmente em 1662, Escola de Mulheres é uma comédia teatral que figura entre os grandes clássicos da literatura. Em tom satírico, o enredo se passa em pleno séc. XVII; casamento e adultério caminham juntos, e é de conhecimento geral que toda união vem acompanhada de um par de chifres, fato considerado mesmo inevitável e é tratado com certa complacência por parte dos maridos. Arnolfo sabe e comenta sobre seus conhecidos chifrudos, porém teme enormemente chegar um dia a sê-lo – mais que temer, ele não aceita de forma alguma que possa vir a ser traído por uma futura esposa. Então, criou uma jovem desde seus 4 anos de idade em um convento, para torná-la sua esposa. Arnolfo providenciou que a jovem Inês não recebesse educação adequada, fazendo-a idiota, estúpida e extremamente ingênua. Na visão de Arnolfo, é a mulher perfeita para se ter como esposa (já que acredita que as mulheres espirituosas e cultas utilizam-se de sua inteligência para bolar artimanhas para enganar os maridos). Porém o destino lhe prega uma boa peça: Inês e Horácio (filho de um amigo de Arnolfo) se apaixonam perdidamente e Arnolfo acompanha de perto o desenrolar do romance, pois, sem desconfiar de nada, Horácio o faz seu confidente.

Apesar de ter grande interesse em clássicos, as peças teatrais não estão entre minhas leituras preferidas. Li Escola de Mulheres sem grandes expectativas, mas para minha surpresa, a obra me agradou muito e manteve minha atenção do início ao fim. Achei-a divertidíssima, há momentos que são bem capazes de arrancar risadas dos leitores!

O livro traz linguagem simplificada e a leitura é gostosa de ser feita, fluindo rapidamente. Acho legal comentar que, a meu ver, a leitura fácil (e muito prazerosa) deve-se à excelente tradução de Millôr Fernandes. O texto é leve sem perder o espírito do tema tratado e a ironia que o cerca. (Dei uma espiadinha na versão original em francês: o texto é todo em verso e apresenta linguagem antiga – características próprias da época em que foi concebida a obra. Existe também uma outra tradução por Jenny Klabin Segall, que preserva tais características).

Os personagens – assim como as situações – são hilários, em especial o próprio Arnolfo, e também seus criados. A obra é uma sátira (bastante verossímil) e é muito interessante de ser discutida: o tema, mesmo depois de séculos, continua sendo bastante atual (diria que é o tipo de tema atemporal). É engraçado perceber como a ingenuidade de Inês, que deveria evitar o adultério, veio justamente a propiciar tal situação, uma vez que a moça agia puramente por instinto e nada via de errado em ver um rapaz pelo qual nutria paixão – ainda que estivesse destinada a se casar com Arnolfo.

É válido notar como, apesar da fúria e desgosto de Arnolfo, em certos momentos Inês consegue dele atitudes que revelam amor/afeto e disposição em satisfazê-la – lembrando que tudo acontece numa época em que era imposta a total submissão das mulheres, sendo sempre bem clara sua inferioridade em relação ao homem/marido. É, as mulheres sempre tiveram um jeitinho (proposital ou não) de "dobrar" os homens! =P

Bom, no fim das contas, a mensagem principal deste review é simplesmente: ler clássicos pode ser bem divertido! Além disso, Escola de Mulheres está longe de ser o tipo de leitura enfadonha que nos vem à mente (muitas vezes de forma automática) ao ouvirmos falar de obras muito antigas. Segunda mensagem do review, mas não menos importante: vale a pena dar uma chance para aquele gênero literário que não gostamos tanto assim. Como eu mencionei antes, não curto tanto o gênero dramático (teatro), e esta leitura foi uma agradável surpresa – que, inclusive, me deixou curiosa para descobrir outras obras de Molière.

Curiosidade: Escola de Mulheres foi um escândalo na época de sua concepção, e gerou muitas críticas. Em resposta, Molière escreveu nova peça chamada Crítica da Escola de Mulheres (La Critique de l’École des Femmes).

Sobre o autor: Jean-Baptiste Poquelin (mais conhecido como Molière), considerado um dos mestres da comédia satírica, marcou a dramaturgia francesa por suas críticas aos costumes da época. Com fina ironia penetrou profundamente nos sentimentos da alma e expôs as imperfeições inerentes à natureza humana, a sociedade e seus valores. Assim, em meio a situações cômicas e/ou irônicas emergem a pretensão, a arrogância, a soberba, a mesquinhez, a ostentação, o ciúme, demonstrados com sarcasmo cultivado. Com suas comédias de costumes satirizou a França de Luís XIV, os abusos da corte e a mediocridade da sociedade.

Título: Escola de Mulheres
Título original: L’École des Femmes
Autor(a): Molière
Editora: Paz e Terra
Edição: 1996
Ano da obra: 1662
Páginas: 130

26 de julho de 2011

Dublinenses [James Joyce]

Primeira obra que leio de James Joyce. Inclusive li que Dublinenses é uma boa pedida para quem quer conhecer um pouco do autor e começar a se aventurar em suas obras. É um livro de leitura mais fácil, ao contrário de Ulisses e Finnegans Wake – tidos como bastante complexos.


Dublinenses foi publicado originalmente em 1914 e consiste em 15 contos que retratam a vida e os habitantes de Dublin, sua cidade natal. Segundo o próprio autor, os contos formam uma espécie de história moral da Irlanda, e são narrados ao leitor através de uma abordagem realista.

Os contos mostram determinados momentos da vida, por exemplo, a juventude e a maturidade, além de proporcionarem um retrato da vida em sociedade, uma crítica de seus costumes. Há forte presença de características morais e comportamentais da Irlanda de então, sendo elas o alcoolismo (isso eu pude ver com meus próprios olhos, é fato: o irlandês gosta de encher a caneca, sim! =P ), o aspecto violento na vida familiar e a rigidez no catolicismo. O nacionalismo é notadamente presente, assim como o ressentimento em relação à Inglaterra. É interessante pontuar que os contos são narrados de maneira a permitir que observemos o que se passa, mas sem “pensar” ou “sentir” por nós, há certa neutralidade.

A leitura é bastante agradável e flui com facilidade. Os personagens são muito humanos, e a narrativa nos leva a embarcar no interior mais íntimo de cada um deles, aspecto que muito me agradou. Situações conflituosas mostram-se presentes em quase todos os contos e é interessante ver como os personagens lutam – ou não – para mudar determinada condição.

Os contos tratam de aspectos do cotidiano, como se observássemos a vida dos personagens durante certo período de tempo. E assim como começam, eles terminam, muitas vezes sem um “desfecho” propriamente dito. Um espelho da própria vida, que continua seguindo seu curso mesmo que nossa observação tenha sido interrompida.

Cada conto me agradou de maneira peculiar. Mas tenho dois deles como meus favoritos: Um caso doloroso e Os mortos (o mais famoso dentre todos do livro).
Divido com vocês um trechinho que chamou minha atenção no conto Um caso doloroso:
Concordaram em romper relações. Todo vínculo, disse ele, é um vínculo para o sofrimento.

Cartaz de Os Vivos e
Os Mortos


Curiosidade: o conto Os mortos teve uma adaptação para o cinema. Trata-se do filme Os Vivos e os Mortos (título original: The Dead), dirigido pelo norte-americano John Huston em 1987. Este foi o último filme do diretor e pai da atriz Anjelica Huston, que nele interpreta o papel de Gretta Conroy.

Gostei muito da leitura de Dublinenses e a recomendo fortemente a quem tiver interesse em conhecer um pouco da obra de James Joyce.





Título: Dublinenses
Título original: Dubliners
Autor(a): James Joyce
Editora: Civilização Brasileira (selo da Editora Record)
Edição: 2006 (11ª)
Ano da obra / Copyright: 1914

3 de julho de 2011

Especiais [Scott Westerfeld]

Primeiramente, agradeço a Galera Record pelo exemplar de Especiais! E aproveito para dizer que muito em breve haverá sorteio aqui no blog! Fiquem ligados! =P


Tally agora é praticamente uma arma letal, com reflexos ultrarrápidos, dentes e unhas afiados e uma beleza cruel. Mas o mais importante de tudo é que ela passa a ver e sentir o mundo de uma maneira diferente, de uma maneira sagaz. Agora tudo está muito claro em sua mente, e nenhuma emoção perfeita atrapalha sua concentração – ou pelo menos não deveria...
Tudo passa a depender de uma decisão: escutar um último e fraco suspiro de seu coração ou seguir seus instintos e dar continuidade à missão para qual foi treinada. De uma maneira ou de outra, Tally vai mudar para sempre seu destino e, como de costume, vai provar que não é como os outros.

Depois de Feios e Perfeitos, Especiais conclui a trajetória de Tally Youngblood (ainda que Extras seja o último volume, parece que ele não traz Tally como protagonista). E, como aconteceu com os dois livros anteriores, é praticamente impossível largar esse aqui antes de chegar ao final.

Desde Feios, Tally começou uma revolução que não pode ser ignorada ou simplesmente abandonada, e isso requer certa maturidade de sua parte.

Maturidade é uma palavra que se encaixa muito bem no contexto do livro. Ao longo da leitura, é possível perceber um amadurecimento gradativo de Tally perante tudo o que acontece ao seu redor. Ela se percebe frente a frente com tudo o que conseguiu alcançar com sua ousadia, todas as mudanças no mundo e escolhas que precisa fazer.

A narrativa de Scott Westerfeld continua deliciosa, e o enredo, surpreendente. Mais uma vez, o texto nos instiga a fazer uma série de questionamentos, a analisar mais a fundo certos conceitos que já vinham sendo desenvolvidos nos outros dois livros. Um deles é a liberdade; até que ponto os seres humanos sabem lidar com ela? Percebemos que aqui, liberdade pode significar uma tendência a retornar a padrões antigos dos Enferrujados, e que a fronteira entre progresso e retrocesso é frágil e – por que não? – repleta de falhas.

Especiais nos leva a conhecer um pouco mais da tão temida Circunstâncias Especiais e o papel que ela representa. Ao ser dominado pelo sentimento de superioridade e ao considerar medíocre tudo (e todos) que não esteja à altura de si, a figura de um Especial retrata o ser humano em sua essência (claro que de forma mais exagerada). Afinal sabemos que o egocentrismo e a necessidade de dominação são aspectos inatos do homem (e dos animais como um todo).

O interessante é que, se olharmos mais de perto os Perfeitos, os Especiais, os Enfumaçados, os aldeões das tribos, percebemos que cada um deles apresenta determinado aspecto do ser humano em demasia e ausência completa de outros aspectos. E concluímos que, ao que parece, os Feios são o grupo que une todos os aspectos de maneira mais equilibrada (ainda que expostos a tantas influências exercidas pelos outros grupos), fato que os tornaria quem sabe até mais poderosos que os demais.

Para não dizer que nada no enredo me irritou, muitas vezes me vi achando um saco a atitude de Tally em relação a Shay (“sim, chefe; não, chefe”). Mas isso também não deixa de ser um indício do crescimento interno de Tally, uma vez que reconhece alguém que em dada situação é mais experiente e, portanto, merece ser ouvido.

Já me alonguei muito nesse texto, e a conclusão não poderia ser mais óbvia: Especiais (assim como todos os livros da série) merece ser lido com entusiasmo e ser motivo de reflexão e revisão de conceitos. Recomendadíssimo em absoluto!

Título: Especiais
Título original: Specials
Autor(a): Scott Westerfeld
Editora: Galera Record
Edição: 2011
Copyright original: 2006

LEIA A RESENHA DE FEIOS
LEIA A RESENHA DE PERFEITOS

12 de abril de 2011

Perfeitos - "Uma narrativa de tirar o fôlego" (Booklist)

Finalmente, Tally é perfeita. A cirurgia foi um sucesso, sua vida em Nova Perfeição é ótima e a fama de feia rebelde fez dela uma celebridade! Mas, quando ela não consegue ver nenhum defeito em sua nova fase, um enfumaçado aparece e faz com que Tally se lembre de tudo...
Agora, Tally terá de enfrentar seu maior desafio e entender que, no mundo de Feios, nem sempre a aparência condiz com a realidade.

Se Feios é um livro e tanto e acaba deixando todos os leitores se mordendo de curiosidade, Perfeitos não fica atrás! O livro começa já em um ritmo acelerado, aumentando gradativamente ao longo da leitura. “Eletrizante” (ou, por que não “borbulhante”?) é a palavra ideal para defini-lo!

O que acontece quando ser perfeito não basta?
Durante toda a narrativa, o livro trata de responder a pergunta acima, criando conflitos que envolvem o leitor e dão margem a reflexões, tal qual seu antecessor. Confesso que é bastante difícil resenhar Perfeitos sem cair nos malditos spoilers, o que fará desta resenha um pouco “incompleta”, a meu ver.

Ao considerar tudo em seu estado mais perfeito, a única “preocupação” existente em Nova Perfeição são as inúmeras e badaladas festas, os artifícios um tanto bizarros para adornar a própria fisionomia, as cirurgias desnecessárias e com fins unicamente estéticos, as 1001 estripulias para fazer com que a sensação “borbulhante” se prolongue... Quando os habitantes de Nova Perfeição tanto se assemelham à nossa sociedade em seu aspecto de acomodamento perante o mundo e perante eles mesmos, Tally é o outro lado disso tudo, é o “olho” que consegue verdadeiramente enxergar o que se passa, a verdade além das aparências. Sim, Tally agora é perfeita, mas isso não quer dizer que tenha perdido sua essência de feia. Tally questiona e, com isso, nos faz questionar. Há momentos, inclusive, em que nos perguntamos se o que é tido como “melhor” é realmente o melhor. Um exemplo é uma conversa entre a Dra. Cable e Tally, em que a primeira explica à segunda as razões pelas quais a sociedade em Nova Perfeição é “melhor” em relação aos Enferrujados e aos Enfumaçados. Ao ler o trecho abaixo, é inevitável não nos desenvolvermos uma série de questões em nossas próprias cabeças (e inclusive percebermos que há certa verdade nas palavras da Dra. Cable):

Nós estamos sob controle, Tally, graças à operação. Largados à própria sorte, os seres humanos são uma praga. Eles se multiplicam sem controle, consomem todos os recursos naturais, destroem tudo em que botam as mãos. Sem a operação, os seres humanos sempre se tornam Enferrujados.
- Na Fumaça isso não acontece.
- Pare para pensar, Tally. Os Enfumaçados desmatavam suas terras, matavam animais para comer. Quando chegamos, eles estavam queimando árvores.
- Não eram muitas.
- E se existissem milhões de Enfumaçados? Bilhões deles, num curto espaço de tempo? Fora das nossas cidades controladas, a humanidade é uma doença, um câncer num corpo chamado mundo. (...)

Este é um ponto muito positivo desse livro, e da série como um todo: o de trazer à tona temas que muito dizem sobre o mundo e a sociedade em que atualmente estamos inseridos, e assim provocar questionamentos da parte dos leitores. Ressalto, ainda, que o livro fala a um público amplo, que vai desde os pré-adolescentes (se é que este termo ainda pode ser considerado hoje em dia) até os jovens adultos (principalmente, mas não necessariamente detendo-se neles), com uma linguagem simples e um enredo suficientemente maduro para agradar a toda essa faixa. Fazer com que tais tipos de reflexões e ideias entrem em ebulição na cabeça dos mais jovens é realmente um ponto mais que positivo e que não pode passar despercebido, principalmente em tempos em que Big Brother é tido como entretenimento – e tem audiência.

O livro revela algumas surpresas, achados que não comentarei para não estragar leituras ainda não começadas ou concluídas (apesar de que acho difícil que alguém que visita o blog ainda não tenha lido Perfeitos, mas ainda assim...).

Os conflitos e a confusão de sentimentos que atingem a protagonista é algo interessante – e angustiante. A culpa que carrega por se considerar a causa da queda da Fumaça, os sentimentos por Zane e David, a amizade conflituosa e cheia de mágoas com Shay, a tal da “cura”. E mesmo em um turbilhão de acontecimentos, a força de Tally se destaca. Mesmo sendo parte de um grupo de jovens com ideais semelhantes, nos deparamos com a desistência de Péris em determinado momento, provando que sair da zona de conforto requer força e determinação, principalmente quando se vive em um mundinho perfeito (e egocêntrico), onde não há motivação para lutar por um ideal maior que o próprio indivíduo.

Perfeitos é um livro para se deliciar do começo ao fim (e para querer morrer de curiosidade novamente em relação à continuação). Para pensar, para torcer pelos planos de Tally e seus amigos e, quem sabe, para nos curarmos nós mesmos desta capa que nos cobre os olhos e nos impede de enxergar o que realmente importa.

Título: Perfeitos
Autor(a): Scott Westerfeld
Publicação original: 2005


LEIA A RESENHA DE FEIOS
LEIA A RESENHA DE ESPECIAIS

6 de maio de 2010

Feios

FEIOS me chamou a atenção, primeiramente, pelo título. Postei anteriormente a sinopse aqui no blog, mas não aguentei de curiosidade e tive que encaixar o livro na minha fila de leitura – furando a fila, diga-se de passagem. Eu sei, a resenha está imensa; os pensamentos começam a surgir e as palavras borbulham, é difícil controlar! Por isso, agradeço desde já quem tiver a paciência de ler até o fim!

Tally Youngblood é feia. Não, isso não significa que ela seja alguma aberração da natureza. Não. Ela simplesmente ainda não completou 16 anos. Em Vila Feia, os adolescentes ficam presos em alojamentos até o aniversário de 16 anos, quando recebem um grande presente do governo: uma operação plástica como nunca vista antes na história da humanidade. Suas feições são corrigidas à perfeição; a pele é trocada por outra, sem imperfeições ou – nem pense nisso – espinhas; seus ossos são substituídos por uma liga artificial, mais leve e resistente; os olhos se tornam grandes; e os lábios, cheios e volumosos. Em suma, aos 16 anos todos ficam perfeitos.
Tally mal pode esperar pelo seu aniversário. Depois da operação, vai finalmente deixar Vila Feia e se mudar para Nova Perfeição, onde os perfeitos vivem e se divertem (o tempo todo).
Uma noite, ela conhece Shay, uma feia que não está nem um pouco ansiosa para completar 16 anos. Pelo contrário: Shay pretende fugir dos limites da cidade para ir viver na Fumaça, um grupo/comunidade de fugitivos, e sobreviver retirando seu sustento da natureza.
Para Tally, isso é uma maluquice. Quem iria querer ficar feio para sempre ou se arriscaria a voltar para a natureza e queimar árvores para se aquecer, em vez de viver com conforto em Nova Perfeição e se divertir à beça? Mas, quando sua amiga desaparece, os Especiais, autoridade máxima desse novo mundo, propõem um acordo a Tally: se unir a eles contra os Enfumaçados ou ficar feia para sempre. A escolha de Tally irá mudar o mundo ao seu redor, mas, principalmente, ela mesma.

Confesso que as primeiras páginas não foram tão interessantes e animadoras quanto eu esperava. Até cheguei a ter a sensação de que seria tudo “adolescente demais”. Realmente me pareceu um livro mais voltado a adolescentes, mas não é nem um pouco restrito a esse público. Conforme ia avançando na leitura, a história ganhava mais corpo e me atraía mais.

O cenário é futurista e nos deparamos com objetos inimagináveis, como anéis de interface e pranchas voadoras, permitindo que a imaginação voe alto ao ler cada linha. Algumas passagens, no entanto, podem parecer um pouco confusas. Refiro-me aos acontecimentos durante as viagens dos personagens, que algumas vezes mostram-se meio difíceis de serem imaginados, dando a sensação de que a imagem que fazemos não é exatamente o que o autor quis dizer com a respectiva descrição. Mas são só detalhes, nada que atrapalhe a leitura. Aliás, devo dizer que a leitura é bem simplificada e nada cansativa; o mundo no qual os personagens estão inseridos é acompanhado por explicações simples e coerentes acerca do funcionamento das coisas.

Gostei dos personagens principais, porém fiquei com a sensação de que a trama não me permitiu que os conhecesse muito bem. Não sei se foi só uma sensação, mas senti que faltou algo em relação a eles, talvez sentimentos e pensamentos mais elaborados, não sei. Algumas coisas que pensei a princípio depois se mostraram errôneas, e ao final não consegui formar uma opinião concreta a respeito de cada um deles. Imagino que nos próximos volumes da série haverá mais da essência dos personagens. Mas este foi só um comentário bem particular, não se trata exatamente de um ponto negativo, foi uma impressão que tive e não sei se é provável que mais alguém compartilhe dela.

A melhor característica do livro, a cereja do bolo, são as reflexões que ele provoca e as múltiplas questões que ele desperta. Até que ponto a evolução realmente significa evolução? Por um lado, o evoluído mundo mostrado no livro é altamente sustentável, as necessidades parecem ser sempre satisfeitas, e não há motivo aparente para guerras, desentendimentos ou sentimentos medíocres. Apesar de tantas vantagens, tudo se torna obsoleto com imensa facilidade, desde os mais simples objetos até sentimentos e relações, e inclusive as próprias pessoas. Se algo não tem mais utilidade, é descartado. O desapego é tanto que as pessoas não se importam em perder seus traços de nascença, se isso lhes garantir a perfeição. Auto-estima é algo inexistente e, sem possuir uma base sólida, construída através de valores e confiança, as pessoas passam a apoiar-se no status, na aparência, no “ter” na pele de um falso “ser”. E será que tudo isso está só nas páginas do livro?

Outro ponto interessante que podemos notar (e pensar sobre) é a questão da alienação. Em um pequeno diálogo entre Tally e Shay, isso é bem evidente:
– É tudo tão grandioso – murmurou Tally.
– É isso que ninguém percebe lá de dentro – disse Shay. – Como a cidade é pequena. Como eles têm de manter a pequenez de todos para que permaneçam presos.
Os perfeitos (e os feios na ansiosa espera por tornarem-se perfeitos) são manipulados de forma a acreditar que só existe um modo de vida – perfeito, por sinal –, e que não há nada diferente daquilo que conhecem. O mundo se restringe aos limites do que é conhecido por eles. E quando há alienação não há poder de escolha; a existência de possíveis opções é ignorada por todo mundo, ou quase. Pensando nisso, é possível comparar Feios com o filme A Vila, guardadas as devidas proporções. No filme dirigido por M. Night Shyamalan, uma comunidade vive isolada, com seus costumes, tradições, hierarquias e um modo de vida um tanto ultrapassado. Um pequeno grupo representa a autoridade máxima lá dentro, criando artifícios baseados no medo para que a comunidade e o modo de vida sejam intocados, ocultando de todos os habitantes (portanto, mantendo-os alienados) o fato de que fora da comunidade existe um mundo muito mais avançado, uma realidade totalmente diferente da vivida por eles. Essa comunidade do filme parece estar em uma época distante (tipo séculos passados) e ignora completamente que, na verdade, está inserida em um mundo como o atual.

Também é possível perceber em Feios alguma semelhança com o Mito/Alegoria da Caverna , de Platão, que conta mais ou menos o seguinte:
Existem alguns prisioneiros em uma caverna, acorrentados nela desde o seu nascimento. Eles estão presos de tal forma que tudo o que enxergam são sombras projetadas na parede diante deles. As sombras são reflexo de uma fogueira localizada atrás, na parte superior. Como tudo o que os prisioneiros conhecem são as sombras, eles acham que aquela é toda a realidade que existe. Um dos prisioneiros consegue se soltar e sair da caverna. Fica encantado com a realidade, percebendo que foi iludido completamente pelos seus sentidos dentro da caverna. Agora ele estava diante das coisas em si, e não de suas sombras. Diante do conhecimento, retornou à caverna e contou para os demais prisioneiros o que havia visto. Eles não acreditaram, e preferiram continuar na caverna, vendo e acreditando que o mundo é feito de sombras.
O Mito da Caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo. E aí entra a questão da essência X aparência. Em um resumo bem esdrúxulo, a realidade estaria no mundo das ideias (essência), porém a maioria dos indivíduos vive na ignorância, no mundo ilusório das coisas sensíveis (aparência), das imagens. Desta forma, as coisas que nos chegam através dos sentidos (tato, visão, audição, etc), são apenas as sombras das ideias. Quem estiver preso apenas ao conhecimento das coisas sensíveis não poderá alcançar o mundo das ideias (conhecimento inteligível). No livro, Tally e Shay conseguem sair da “caverna”, representada pela crença de que a vida em Nova Perfeição é a única realidade existente. E então surgem em nós, leitores, as perguntas: “o que fazer com a nova realidade descoberta? Como ‘abrir os olhos’ dos demais?”.

O livro também nos faz questionar sobre até que ponto as autoridades são absolutas e podem/devem interferir nas escolhas de cada indivíduo. A questão da manipulação... E os padrões impostos por meios externos (a mídia, por exemplo)... E a sociedade de massa... E a ideia de sermos observados todo o tempo... Etc, etc... Enfim, o livro dá margem a discussões variadas e consegue exitosamente unir entretenimento e reflexões mais profundas de forma simples e leve. Feios é para os leitores que querem ir além, enxergar o que está implícito na trama, fazer comparações e questionamentos; mas Feios também é para os que desejam apenas uma leitura descompromissada, leve e divertida. É um livro que pode ser lido e encarado de formas distintas. Inclusive, comparam-no a 1984, de George Orwell; embora ainda não o tenha lido, achei interessante a comparação.

Feios certamente fará com que os leitores fiquem instigados a ler o próximo livro da série (a menos que o leitor não tenha gostado mesmo do livro). Seja pelas tantas questões que parecem ser deixadas em aberto acerca da própria trama e dos personagens, seja pelo final que “não parece um final” (e confesso que deu uma raivinha por ter terminado justo naquela hora)... A história não é concluída neste primeiro volume, o que pode ser um tanto frustrante, mas, nesse caso, só nos resta esperar pelo próximo livro da série.

Título: Feios
Autor(a): Scott Westerfeld
Publicação original: 2005

LEIA A RESENHA DE PERFEITOS
LEIA A RESENHA DE ESPECIAIS

12 de março de 2010

As Intermitências da Morte

“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar.”

O que mais me atraiu no livro As Intermitências da Morte, além do fato de ser do escritor português José Saramago, foi a sensação de calamidade que a trama nos apresenta desde o início. Imaginem o que aconteceria em um país se a morte simplesmente parasse de matar? Pois foi exatamente isto o que aconteceu e, óbvio, me deixou com uma curiosidade (esta sim, mortal) para devorar as seguintes páginas. Como já disse, sou fascinada por estas calamidades com um quê de absurdo, como as que o autor já nos tinha proposto, por exemplo, em Ensaio sobre a Lucidez (em que toda uma cidade vota em branco nas eleições) e em Ensaio sobre a Cegueira (em que a tal cegueira branca toma conta da população). Para deixar mais claro, a morte deixando de trabalhar não impedia o envelhecimento, as doenças, os desastres. Estes continuavam a ocorrer, mas mesmo estando com a vida por um fio, as pessoas não morriam, ficavam em um estado suspenso, vivendo uma espécie de “não vida”. Um idoso doente que estivesse prestes a morrer, não morria, mas continuava em sua condição de enfermo, literalmente suspenso entre a vida e a morte, e envelhecendo.

O mais interessante é que, mesmo os acontecimentos sendo totalmente absurdos, alguns personagens (os relacionados à política, por exemplo) nos parecem bastante reais. O livro me teve tão envolvida na trama que tinha a sensação de estar de fato naquele país onde ninguém mais morria. Interessante também foi ver como a falta da morte afetou diferentes grupos da sociedade. A reação dos políticos, a posição da igreja, o desespero das famílias e os problemas causados aos hospitais e aos “lares do feliz ocaso” (ou asilos), que ficavam cada vez mais abarrotados de gente. Destaco a aparição da tal “máphia”, que logo arrumou um jeito de tirar proveito da situação, e a forma como os políticos acabavam por se colocar de acordo com o que ela propunha (claro, cuidando para não mostrar de forma tão óbvia). O livro trata da relação que tem o ser humano com a morte, e nos mostra que esta é necessária para que prossiga a vida. A humanização da morte é uma atração à parte e conduz a trama por caminhos impensados, culminando em um final surpreendente e encantador.

A utilização de períodos longos e pontuação de forma não convencional podem ser motivos para que alguns achem difícil ler Saramago. De fato, não é a mais simples das leituras, mas garanto que é imensamente prazerosa. Não a enxergo como sendo difícil, embora exija considerável atenção do leitor, o que também outras leituras exigem. Considerando o livro em todos os seus aspectos, sinto-me quase obrigada a dizê-lo: altamente recomendado!

(Tive grande dificuldade no momento de dar uma categoria a este livro e, mais precisamente a José Saramago, aqui no blog. Algumas pesquisas me conduziram ao seguinte caminho: de forma bastante simplificada, sendo o autor um romancista intelectual que utiliza o fantástico como meio para passar determinada mensagem, mais se aproximaria do Realismo Fantástico. Somos apresentados a um mundo como o que conhecemos, onde sucedem acontecimentos inexplicáveis pelas leis deste mundo, mas que, não se enquadrando em ilusões ou imaginação das personagens, são parte da realidade. Ainda que o realismo fantástico esteja “localizado” na América Latina, percebemos uma aproximação da obra de Saramago às suas características, ainda que “qualquer coisa” os separe. Aqui no blog, em uma atitude que pode ser errônea de minha parte, coloco este livro na categoria de Realismo Fantástico – por sua vez, considerado quase uma vertente do Fantástico. No entanto, muitos autores repudiam o gênero Fantástico/Fantasia por considerarem-no puramente comercial, não gostando ou mesmo evitando que sua obra seja classificada como tal.)

Título: As Intermitências da Morte
Autor(a): José Saramago
Publicação original: 2005

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