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11 de maio de 2012

Um Mundo Brilhante [T. Greenwood]





O que fazer quando o mundo em que você vive não é o lugar a que você pertence?

Quando o professor Ben Bailey sai de casa para pegar o jornal e apreciar a primeira neve do ano, ele encontra um jovem caído e testemunha os últimos instantes de sua vida. Ao conhecer a irmã do rapaz, Ben se convence de que ele foi vítima de um crime de ódio e se propõe a ajudá-la a provar que se tratou de um assassinato.

Sem perceber, Ben inicia uma jornada que o leva a descobrir quem realmente é, e o que deseja da vida. Seu futuro, cuidadosamente traçado, torna-se incerto, pois ele passa a questionar tudo à sua volta. Descobre-se insatisfeito em uma posição que vinha mantendo por responsabilidade – mas também por passividade. Enquanto busca a felicidade, consciente de que escolhas precisam ser feitas e atitudes precisam ser tomadas, Ben se envolve em uma rede de mentiras da qual fica cada vez mais complicado sair.

Um Mundo Brilhante proporciona uma visão de camarote de quão frágeis são os aspectos que compõem a vida de uma pessoa – acontecimentos no meio familiar, emprego, relacionamentos. A pessoa em questão é Ben Bailey, mas poderia ser qualquer ser humano na face da Terra.

Fragmentos dolorosos da infância representam uma pesada carga que o personagem leva e, a partir deles, o leitor compreende que o maior problema de Ben tem apenas quatro letras: medo. E talvez seja ele, o medo, o grande responsável por fazê-lo esconder-se em mentiras que só fazem sabotar a si mesmo.

A característica que torna esta uma leitura interessante é a perspectiva bastante realista da vida. O amor é visto de maneira até pessimista, mas sem fugir da realidade. Quando o encanto termina, sempre ficam restos com os quais nem sempre é fácil lidar.
Hoje, o anel de noivado havia se tornado um lembrete constante da maior promessa que ele havia quebrado.

O preconceito e o descaso com a população indígena são abordados – de leve. A questão do crime contra o jovem indígena apenas permeia a história. O foco está mesmo nos conflitos pessoais do protagonista.

A narrativa é bastante envolvente. No entanto, o aspecto introspectivo se faz bem presente, a ação nem sempre é óbvia, o que pode não agradar alguns leitores. Além disso, não estamos diante de uma história de amor e muito menos de um suspense policial. Os dois aspectos apenas acompanham um protagonista que transita na desordem em que se tornou sua vida.

O leitor não deve esperar um final surpreendente, pois, assim como na vida real, nem tudo é feito de surpresas e acontecimentos mirabolantes. Mas pode – e certamente irá – pensar nos rumos tomados pelo protagonista. Este, ironicamente, tem plena consciência do caminho que deve seguir, embora seja ele mesmo o elemento que dificulta a concretização de suas verdadeiras escolhas.

Leitura recomendada aos que gostam de narrativas mais voltadas para um aspecto psicológico, para as questões internas dos personagens. Já aos que se entediam facilmente na falta de grandes reviravoltas ou de um ritmo mais intenso, não aconselharia.

Título: Um Mundo Brilhante
Título original: This Glittering World
Autor(a): T. Greenwood
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012
Ano da obra: 2011
Páginas: 336

25 de abril de 2012

O Homem Duplicado [José Saramago]


"Diz-se que só odeia o outro quem a si mesmo se odiar, mas o pior de todos os ódios deve ser aquele que leva a não suportar a igualdade do outro, e provavelmente será ainda pior se essa igualdade vier a ser alguma vez absoluta."

Tertuliano Máximo Afonso, professor de História, descobre acidentalmente a existência de um sósia seu, o ator Daniel Santa-Clara, ao assistir a uma comédia banal indicada por um colega de trabalho. O professor, então, vê-se obcecado por descobrir quem é aquele homem idêntico a ele.


Com uma narrativa impecável que utiliza do suspense, chegando a emparelhar-se com um thriller, Saramago nos traz o homem contemporâneo e toda a rede intrincada de problemas de ordem psicológica e social que o acompanham. Durante o romance, assistimos à perturbação e à perda gradual da identidade de Tertuliano Máximo Afonso, que começa a ocorrer tão logo ele descobre a existência de seu duplicado. O que a princípio parece tratar-se apenas de uma simples curiosidade, transforma-se em uma perigosa sequência de ações que podem levar a resultados desastrosos.

O texto retrata um mundo degradado que abriga homens degradados, tal como vemos se prestarmos atenção a nossa volta. Aparências que não refletem a verdade, relacionamentos vazios, comunicação escassa, egoísmo, a mentira utilizada como abrigo. Tertuliano Máximo Afonso e Daniel Santa-Clara, idênticos na aparência (em cada sinal e cicatriz) e tão dissonantes no caráter, envolvem-se em um verdadeiro jogo a fim de provar um ao outro quem é “o duplicado” – papel recusado por ambos – e quem é o primeiro, o “original”. E, em tal jogo, o leitor se questionará sem pausa: será que existe mesmo um vencedor?

Melhor do que eu mesma me pôr a falar do protagonista, prefiro que o trecho abaixo o faça:
Tertuliano Máximo Afonso não pertence ao número dessas pessoas extraordinárias que são capazes de sorrir até quando estão sozinhas, o próprio dele inclina-se mais para o lado da melancolia, do ensimesmamento, de uma exagerada consciência da transitoriedade da vida, de uma incurável perplexidade perante os autênticos labirintos cretenses que são as relações humanas.


Em toda a narrativa, encontramos trechos recheados de significado e de uma verdade nem sempre explícita, o tipo de passagem que dá vontade de copiar para reler depois. As conversas de Tertuliano Máximo Afonso com o “senso comum” e as referências à mitologia enriquecem a história e, ao juntarmos aí a astúcia com que o enredo foi conduzido, o resultado só pode ser um livro surpreendente.

O título e o tema podem falsamente sugerir ao leitor alguma pitada de ficção científica. No entanto, não esperem encontrar algo do gênero na obra, que é totalmente centrada nas turbulências do homem e apresenta no tema um aspecto mais introspectivo, voltado à reflexão.

A partir de um final arrebatador, só nos resta colocar ao menos mais duas questões – e é inevitável não fazê-lo – acerca do nosso Tertuliano Máximo Afonso e também da vida real: e se, afinal, déssemos mais ouvidos ao senso comum? Até que ponto seria ele benéfico?

Em tempo: soube recentemente que haverá uma adaptação hollywoodiana do livro, intitulada An Enemy, protagonizada por Jake Gyllenhaal. O filme será dirigido por Denis Villeneuve, diretor de Incêndios. Considerando a primazia do livro de Saramago, An Enemy tem tudo ser colocado na lista dos must-see.

Título / Título original: O Homem Duplicado
Autor(a): José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2002
Ano da obra: 2002
Páginas: 320

2 de janeiro de 2012

O Quarto de Jacob [Virginia Woolf]

A tradução é da escritora Lya Luft
Primeiro review de 2012, e não é qualquer review... Um ano que começa com Virginia Woolf tem que ser um bom ano, com certeza!

Com O Quarto de Jacob, Virginia Woolf começa a deixar de lado os modelos tradicionais para aventurar-se em um experimentalismo responsável por seu destaque na literatura mundial.
Acompanhamos a vida de Jacob Flanders, narrada sem contornos claros de começo-meio-fim, os acontecimentos parecem não ter sequência e conexão definidas. De forma introspectiva, são apresentados seus conflitos internos, questionamentos, amores...

Em O Quarto de Jacob tem-se a impressão de que tudo acontece de maneira fugaz. Personagens vêm e vão, assim como na vida real pessoas dividem breves instantes em comum, sem necessariamente seguirem um mesmo caminho. O enredo é quase um "não enredo", visto que a narrativa encontra-se muito mais no nível da consciência; a subjetividade está constantemente presente.

A vida de Jacob é contada sob uma perspectiva bastante subjetiva. Ao leitor são apresentadas diversas peças de um quebra-cabeça que ele próprio deverá montar para obter uma espécie de unidade do que está sendo contado. O aspecto psicológico é bastante forte e doa inigualável riqueza aos personagens. Jacob, em toda a sua introspecção, parece guardar-se em mistério e apresenta nuances diversas, como um enigma que pensamos ser possível decifrar, mas que, na realidade, deciframos apenas parcelas do todo. Os personagens, de forma geral, são riquíssimos nos planos psicológico e das emoções, aspecto que tenho percebido sempre presente ao ler Virginia Woolf.

O Quarto de Jacob não é uma obra “fácil” de ser lida – inclusive, não é uma obra fácil de escrever sobre, e penso que a causa principal deve-se à falta de um enredo delineado e de uma continuidade. Em determinados momentos, não é difícil o leitor desanimar. Mas, da mesma forma como em Rumo ao Farol, uma vez que se pega o ritmo da leitura, o texto flui e percebemos que se trata de uma bela obra que vale muito a pena ser lida.

DICA: não leia O Quarto de Jacob se você acha que a leitura não será feita de forma "seguida". Este não é o tipo de livro para começar a ler, passar dias com ele largado na estante ou esquecido na bolsa, e depois retomar a leitura normalmente. Não dá: vai ser inevitável perder o fio da meada.

Curiosidade: o personagem Jacob Flanders foi inspirado em um dos irmãos da autora, Thoby.

Título: O Quarto de Jacob
Título original: Jacob’s Room
Autor(a): Virginia Woolf
Editora: Novo Século
Edição: 2008
Ano da obra: 1922

4 de novembro de 2011

O Bigode [Emmanuel Carrère]



Em uma manhã qualquer, um homem decide raspar o bigode que ele vinha usando há 10 anos. Com ato tão simples pretende mudar um pouco, surpreender a mulher, os amigos. Porém ninguém percebe a mudança; afirmam, ainda, que ele jamais usou bigode. Ele começa, então, a recolher provas da existência do bigode, dando início a questionamentos e confusão, que nos fazem caminhar da realidade ao delírio sem saber de qual lado ficar.

Estamos diante de uma obra, no mínimo, intrigante. O Bigode, de Emmanuel Carrère, nos mostra um protagonista muito bem elaborado, porém, e por conta do próprio enredo, há a constante sensação de ausência da última peça de um quebra-cabeça. E é daí que vem o ponto alto do livro: o leitor não consegue desgrudar das páginas, tomado pela ânsia de entender o que se passa com o ex-bigodudo e o mundo ao redor dele.

O leitor é arrastado pelo redemoinho psicológico que envolve a trama. As questões são muitas, e colocamos à prova – junto com o protagonista – a veracidade dos fatos e a integridade psicológica dos personagens. Inclusive não descartamos a possibilidade de alguma conspiração contra nosso pobre protagonista.

O livro é narrado em terceira pessoa, mas sempre através do olhar do protagonista; é como se tudo nos fosse contado sob a perspectiva do personagem central – há momentos em que nos sentimos dentro de sua mente, inclusive. Os demais personagens têm seu papel no enredo, mas nada tão crucial. Agnes, a mulher do protagonista, tem algum destaque na trama, mas ainda assim, tudo – e todos – gira em torno do grande conflito que envolve o personagem principal, o homem que raspou o bigode.

A leitura é super fluida e o livro tem um ritmo acelerado. O aspecto psicológico (questionamentos, hipóteses perante os fatos) domina a narrativa. Merecem destaque as descrições presentes no livro, cruas e diretas, porém absolutamente carregadas de força, ou ainda demonstrando uma calmaria singular.

Não posso deixar de mencionar que o mais interessante desta leitura é tentar compreender o que a figura do bigode representa. Muito além de ser apenas um tufo de pelos, o bigode nos remete à identidade do personagem. Indo um pouco além, diria que esta identidade representada pelo bigode está mais próxima de ser aquilo que a sociedade moldou no personagem, um papel que ele representa para que as expectativas da vida cotidiana sejam atendidas. Um papel que todos nós representamos e do qual, muitas vezes, nos tornamos indissociáveis. Raspar o bigode seria mais do que uma simples fuga para o personagem do livro, seria libertar-se das pressões e cobranças – parar de andar conforme o fluxo para recuperar vontade própria e ir de encontro ao indivíduo real por trás do “disfarce” de todos os dias. Notamos, porém, um despreparo interno da parte dele em relação a esta libertação, uma visível impossibilidade de desvincular-se do papel que lhe foi atribuído na sociedade. A partir daí, a confusão mental, o possível delírio, encontra lugar para instalar-se, dada a busca desorientada do personagem por sua própria identidade – a real.

Nem preciso dizer que esta é uma leitura super recomendada. As 140 páginas, que já não são muitas, têm tudo para serem vorazmente devoradas por aqueles que apreciam conflitos e incertezas quanto à realidade – na literatura, claro.

Curiosidade: o livro teve uma adaptação para o cinema feita pelo próprio autor, também cineasta. La Moustache - que leva o mesmo nome do livro - foi premiado no Festival de Cannes de 2005.

Título: O Bigode
Título original: La Moustache
Autor(a): Emmanuel Carrère
Editora: Rocco
Edição: 2002
Ano da obra / Copyright: 1986

16 de agosto de 2011

Rumo ao Farol [Virginia Woolf]


Considerado o principal trabalho da inglesa Virginia Woolf e um dos mais importantes romances do século XX na Europa, Rumo ao Farol nos mostra a família Ramsay e amigos em sua casa de veraneio nas ilhas Hébridas. Um passeio ao farol torna-se inviável devido ao mau tempo. Enquanto lembranças e sentimentos velados percorrem o íntimo dos personagens, a presença da Sra. Ramsay, radiante e influente entre eles, é fortemente marcada. Como pano de fundo, os traumas da Primeira Guerra Mundial.

Quase tudo ocorre no plano subjetivo. As ações, em si, são poucas se comparadas à infinidade de pensamentos e lembranças que nos são narradas ao longo do livro. Estes, muitas vezes, não são conclusivos, podendo mesmo fazer rodeios até que sejam interrompidos por alguma visão ou acontecimento.

Ideias, pensamentos e lembranças de vários personagens fluem e percorrem caminhos que se ramificam. Assim, a leitura pode acontecer de forma um pouco mais lenta, e requer mais cuidado e atenção. Mas isto não a torna, de forma alguma, menos agradável – ainda que possa parecer cansativa até nos “acostumarmos” com o ritmo do livro.

Como que “espiando pela fechadura”, somos levados ao interior dos personagens, o que proporciona uma observação muito rica acerca deles. Inclusive, ao longo do livro, temos opiniões e sentimentos contraditórios a respeito dos personagens, já que, como em todo ser humano, a complexidade e a ambiguidade se mostram presentes. E, nesta observação minuciosa que é o livro, nos deparamos com mulheres que, em seu interior, se revelam muito mais fortes que os personagens masculinos. Os homens são bastante vulneráveis, possuem clara necessidade de auto-afirmação, e parecem buscar incessantemente a compreensão e aceitação feminina – tudo isso sob uma capa autoritária e prepotente. Ainda, eles ressaltam abertamente seu intelecto e colocam a figura feminina dentro da perpétua imagem da limitação, talvez sem plena consciência de que são as mulheres – em um ato extremamente doador e consciente – as responsáveis por colocá-los na posição que eles querem estar.

Além do mergulho nas profundidades dos personagens, o livro nos faz perceber a brevidade da vida – a meu ver, um ponto altíssimo da leitura. Um dia pode durar uma eternidade, ao passo que uma década transcorre com uma rapidez assustadora (trazendo muitas mudanças enquanto reforça a imutabilidade de algumas condições, sejam elas da própria vida ou dos personagens).

Rumo ao Farol me ofereceu uma leitura muito rica, responsável por alimentar ainda mais meu desejo de explorar as demais obras de Virginia Woolf. Particularmente, não o vejo como um livro para mera distração. Por outro lado, se você NÃO está em um daqueles momentos que requerem livros com enredo “mais leve”, e quer mesmo algo que te faça refletir sobre a vida, Rumo ao Farol pode ser uma ótima escolha.

“Qual o artifício para conseguir formar indissoluvelmente um único ser – como a água despejada numa jarra – com a pessoa que se adorava?”
“(...) sentia aquilo que chamava vida como alguma coisa terrível, hostil, pronta para se lançar sobre quem quer que lhe desse uma oportunidade.”

Título: Rumo ao Farol
Título original: To the Lighthouse
Autor(a): Virginia Woolf
Editora: O Globo
Edição: 2003 (Folha de S.Paulo – Biblioteca Folha)
Ano da obra / Copyright: 1927

4 de agosto de 2011

Folhas Caídas [Thomas H. Cook]

“Fotos de família sempre mentem...
Você pode capturar um determinado momento da vida
de uma pessoa, mas é impossível captar
o que se esconde por trás dos sorrisos forçados...”

Com uma vida confortável e uma família estruturada, Eric Moore pode se considerar um homem de sorte, feliz. Dono de uma loja de material fotográfico, tudo parece bem na pacata cidade de Wesley, até que Amy Giordano – uma garotinha de 8 anos que vive nas redondezas – desaparece misteriosamente. A vida perfeita de Eric, então, parece começar a se dissolver, já que seu filho adolescente Keith é quem tomava conta de Amy na noite de seu desaparecimento...

Com ritmo intenso e sem enrolação, Thomas H. Cook nos prende do início ao fim em Folhas Caídas. Tão logo começamos a leitura, somos levados em uma espiral diretamente à vida familiar de Eric Moore, à inocência e à posição distanciada que assume em relação aos confrontos de forma geral. Acompanhamos o personagem, que narra em primeira pessoa, atuando em meio aos conflitos que surgem e envolvem diretamente sua família (ocasionados pelo desaparecimento da menina Amy) e que são o estopim para que problemas há muito enterrados no passado venham à tona. De maneira muito convincente, o personagem nos leva junto a ele em suas suspeitas e descobertas.

O suspense nos acompanha até as páginas finais do livro, sendo mesmo impossível conter a curiosidade perante a trama. Os personagens convencem de forma surpreendente, e são humanos em tudo, inclusive – e principalmente – em suas falhas. Achei muito interessante a forma como o autor nos faz penetrar na mente de Eric, como observamos tudo através de seus olhos. Sabe aquele sentimento louco de perceber que, na realidade, não conhecemos ninguém de verdade? É isso o que o personagem enfrenta durante todo o livro. Cada pessoa, principalmente seus familiares, de uma hora para outra, parecem estranhos para ele – ou, creio eu, sempre foram, mas ele tratava de mascarar isso com uma visão cor-de-rosa na qual levava a vida perfeita com uma família perfeita. E é rapidamente que nos tornamos testemunhas oculares do desmoronamento de tudo o que o protagonista tinha como certo em sua vida. É triste, confesso, e não está longe da realidade, não. Alguns capítulos, inclusive, são intercalados por passagens nas quais o protagonista fala diretamente conosco, leitor, reforçando a sensação de que o que aconteceu com ele poderia acontecer com qualquer um de nós.

Gosto bastante de romances policiais, principalmente pela tensão quase que insuportável que é gerada entre os personagens e dentro de cada um deles. E nisto, Folhas Caídas foi excelente. Porém, eu esperava encontrar uma explicação minuciosa no final, destrinchando os fatos e revelando “a genialidade” do crime, o que não aconteceu (o livro é mais focado na fragilidade e incerteza das relações). Tirando este único ponto que deixou a desejar, de maneira geral, Folhas Caídas não só atendeu, como superou as expectativas que tive antes da leitura.

Título: Folhas Caídas
Título original: Red Leaves
Autor(a): Thomas H. Cook
Editora: Bertrand Brasil
Edição: 2011
Ano da obra / Copyright: 2005

21 de julho de 2011

Estação Jugular [Allan Pitz]

Graças à parceria com o autor Allan Pitz, o post de hoje traz o review do livro Estação Jugular. Agradeço MUITO ao Allan pelo livro e marcador (autografados!!!). =D

Não posso começar a falar do livro sem antes dizer uma coisa: Estação Jugular me surpreendeu de maneira muito positiva. Os motivos foram vários, principalmente a abordagem do tema e a veracidade que os personagens transmitem ao leitor.

Estação Jugular nos coloca a bordo de um ônibus dirigido por um motorista bastante peculiar, que conduz um único passageiro – Franz – a um destino que nem ele próprio sabe qual é. Franz, a princípio, foge de um sol castigante, sem saber exatamente onde se encontra e para onde vai. Aos poucos, e mesclando-se à confusão e às imprevisíveis visões de sua jornada a bordo do ônibus, a memória de Franz nos revela (e revela a si mesmo) os acontecimentos anteriores que culminaram no presente momento.

O livro, de fato, nos leva nessa viagem junto a Franz. Enxergamos através dos seus olhos cada etapa, cada “absurdo” e, por fim, cada descoberta. As pitadas nonsense me foram deliciosas, e as referências a obras de Van Gogh doam uma “loucura visual” que enriquece todo o cenário em nossas mentes. Através de associações e metáforas, cada capítulo nos coloca a refletir e é muitas vezes concluído com uma frase de alguma personalidade célebre, o que incentiva o pensamento a percorrer caminhos mais profundos. Achei super pertinente a inclusão de tais frases – um ponto mais que positivo do livro, em minha opinião.

Deixo aqui um trecho que possui um significado bastante verdadeiro acerca da existência humana:
Nesse tempo mudo vivi a infância outra vez; e mais doce e tenro do que antes eram os deleites de não saber nada sobre tudo. E correr atrás de qualquer sonho, qualquer esperança... Depois da infância tudo o que vi foi o amanhecer de um lobotomizado comum, fanático pela manutenção íntegra de si mesmo, fanático de si.

A leitura acontece de forma muito fluida e mantém o leitor suspenso em uma curiosidade constante. Mesmo quando o leitor já palpita sobre o que está realmente acontecendo com o personagem central, e quando as revelações começam a se desdobrar, a avidez por saber o que ocorrerá com Franz não deixa de estar presente em nenhum momento. Fiz a leitura em um único dia, e não foi só devido às pouco menos de 100 páginas (é, o livro é curtinho), mas sim pela curiosidade de saber como tudo iria terminar. Soma-se a isso o fato de que gostei da forma como o tema é apresentado e desenvolvido. Não dá para dar detalhes do tema em si porque seria um baita de um spoiler (e não é essa a minha intenção ao escrever os reviews).

No mais, o livro merece ser saboreado, mas não com calma, já que o leitor provavelmente vai ver que este não é o tipo de leitura que dá para ser feita em doses homeopáticas. O livro tem um ritmo próprio, aceleradinho, e não tem como lê-lo de outra forma. Estação Jugular, a meu ver, é um livro que tem personalidade e sabe ser original.

Título / Título original: Estação Jugular – Uma estrada para Van Gogh
Autor(a): Allan Pitz
Editora: Multifoco (selo Desfecho Romances)
Edição: 2011 (1ª)
Ano da obra / Copyright: 2011

12 de julho de 2011

Bubble Gum [Lolita Pille]

Confesso que os primeiros capítulos de Bubble Gum não me atraíram, achei que a leitura começou de forma entediante e, por um momento, juro que acreditei que seria assim até o fim do livro. Já praticamente me rendia à decepção, quando o enredo começou a tomar algum corpo e, de repente, me vi curiosa em relação às páginas seguintes.


Manon é uma jovem provinciana que sai do sul da França para tentar a vida como modelo em Paris, começando como garçonete. Derek Delano é herdeiro de uma multinacional do petróleo, aristocrata blasé cujo maior prazer é comprar e manipular as pessoas em jogos cruéis. Atraído por Manon, Derek é seduzido pela ideia de corrompê-la, de estragar seu destino. Afinal de contas, numa vida esvaziada de sentido, a destruição de um ser inocente é um projeto de vida que faz tanto sentido quanto qualquer outro. Graças a ele, Manon realiza o sonho de brilhar como modelo e atriz, mas ao preço da dependência de antidepressivos, cocaína e outros vícios. Mas logo se dá conta da armadilha em que caiu e planeja uma vingança.

Tudo é narrado em primeira pessoa por Manon e Derek, que se alternam em cada capítulo. Porém, não importa qual dos dois está narrando, o sentimento constante ao longo da leitura é o mesmo: raiva. Raiva por Manon ser tão estúpida, ter uma cabecinha tão pequena e ser altamente influenciável. E raiva por Derek e sua arrogância, sua crueldade e calculismo. Além disso, ambos parecem totalmente desprovidos de sentimentos e extremamente egocêntricos, até dignos de pena. Um ponto importante: não espere muita coisa em relação à narrativa, ora muito superficial, ora irritante (há trechos com frases bem longas, que poderiam até ser consideradas “descartáveis”). Por outro lado, esse aspecto do texto pode ser compreendido como muito próprio dos personagens (já que lemos tudo em primeira pessoa), com divagações e ideias que se interrompem e se cruzam.

Porém, e apesar dos meus comentários um tanto negativos, terminei o livro considerando-o muito bom. Através dos personagens, vemos críticas à sociedade e seus valores, além da real obsolescência de tudo o que é considerado valioso – fama, poder, sucesso. Bubble Gum nos mostra de forma cruel que tudo pode ser manipulado e que as pessoas não passam de meros objetos, como personagens de um filme. A tênue linha que separa o que é real do que não é por vezes torna-se mesmo invisível, de forma que a realidade faz-se passível de ser construída, e aí se incluem as pessoas e até mesmo suas emoções. Na orelha do livro há uma frase que ilustra muito bem essa ideia: “Quando a existência tem a profundidade de um pires, até as angústias são pré-fabricadas” – por Luciano Trigo.

Bubble Gum é o tipo de livro em que nada é o que parece ser. O desfecho surpreende. A antipatia que senti no início e o texto não muito agradável foram superados pela forma como os acontecimentos se desenrolam. Para concluir, afirmo que essa leitura revelou-se uma experiência verdadeiramente interessante.

Título / Título original: Bubble Gum
Autor(a): Lolita Pille
Editora: Intrínseca
Edição: 2004
Copyright original: 2004

29 de junho de 2011

Transgressão [Pat Barker]


Tom Seymour é um psicólogo infantil que trabalha no norte da Inglaterra há muitos anos. Um dia, ao caminhas às margens de um rio próximo à sua casa, salva um jovem que se afogava, e se dá conta de que trata-se de Danny Miller. Quando criança, Danny cometera um assassinato, e Tom testemunhara em seu julgamento – um testemunho que, desde então, começara a considerar falho. Danny cumpriu sua sentença e está fora da prisão. Agora pede ajuda a Tom. Mas quando este é relutantemente tragado de volta para dentro do mundo perturbador de Danny, começa a questionar as motivações dele – e as suas próprias.



Transgressão foi um livro que me manteve curiosa do início ao fim, e o tema foi o principal responsável por isso. Aliás, a curiosidade começa já na sinopse, já que uma criança que comete assassinato é, por si só, algo um tanto perturbador e instigante. O enredo percorre um caminho mais psicológico, assim que o texto possui um detalhamento bem interessante, como nuances de comportamento e todo o gestual dos personagens.

A leitura é bastante fluida e os personagens muito bem construídos, o que é essencial em um livro com temática psicológica. Danny é uma figura singular, fechado e misterioso, e ao mesmo tempo capaz de atrair e conquistar quem estiver ao seu redor. O desenrolar dos acontecimentos de sua infância coloca o leitor dentro do seu mundo, assistindo a tudo através de lentes potentes. Da mesma forma, Tom é trazido ao mundo de Danny através das memórias do jovem, e confronta-se com seu próprio julgamento a respeito do crime e da pessoa que tem diante de si. E fica muito claro que Tom precisa remexer nessa história e compreendê-la tanto quanto o próprio Danny; o psicólogo, que vê sua vida encher-se de vazio devido ao final de um casamento que já não funcionava, agarra-se de forma intensa ao caso de Danny e a seu pedido de ajuda.

Embora o livro não esteja entre os meus favoritos, suas 240 páginas foram muito capazes de manter interesse e curiosidade constantes, além da ânsia de ver desvendado o passado de Danny. Se você aprecia temas com aspecto psicológico, Transgressão é uma boa pedida!

Título: Transgressão
Título original: Border Crossing
Autor(a): Pat Barker
Editora: Ediouro
Edição: 2002
Copyright original: 2002

6 de maio de 2011

Ninguém Me Verá Chorar

Joaquín Buitrago, ex-fotógrafo de prostitutas e retratista no sanatório de La Castañeda nos anos 1920, acredita ter identificado numa das pacientes, Matilda Burgos, uma prostituta que ele encontrara anos atrás num dos prostíbulos da capital mexicana, La Modernidad.
Sua obsessão em confirmar a identidade de Matilda faz com que ele tenha acesso às fichas médicas dela. Joaquín, então, descobre as origens da paciente, assim como fatos e experiências determinantes na vida dela. Quanto mais o fotógrafo vai conhecendo a vida de Matilda, mais se convence que eles devem tentar viver juntos.
Estamos num México convulsionado por revoluções, no qual o velho e o novo lutam por seu espaço, e no qual a injustiça brilha sobre quem quer mudar o mundo para melhor. Este entorno é o cenário no qual os personagens desgraçados, perfeitamente perfilados pela autora, vêem evaporar seus sonhos, um atrás do outro, numa tragédia íntima que molda a realidade cultural, não somente do México, mas de grande parte da América Latina.
 
Quando achei esse livro, novinho, em um sebo, fui atraída primeiramente pela capa (que considero bela e singular). Nunca havia ouvido falar nele e tampouco conhecia a autora, mexicana. Mas ao ler a sinopse foi inevitável não levá-lo comigo! Por motivos diversos, mas principalmente por falar sobre o México unindo ficção e realidade, história. Não me arrependi, e considero este livro um pequeno tesouro que jamais sairá da minha prateleira!

Devo começar dizendo que Ninguém Me Verá Chorar não é um livro de leitura muito fácil. Não há tantos diálogos e os capítulos são bastante extensos. Apesar disso, me agradou bastante a linguagem, a forma como a autora nos faz descobrir as etapas da vida de Matilda Burgos. No livro, passado e presente intercalam-se o tempo todo, e algumas vezes fica difícil se situar durante a leitura. Mas isso definitivamente não chega a ser um ponto negativo, uma vez que está ligado intrinsecamente ao jeito como a história nos é mostrada, e não consigo imaginar o livro escrito de outra forma senão essa.

Cada personagem possui personalidade e desenvolvimento excepcionais. É difícil não se envolver. Merecem destaque as fichas médicas ao longo da história (mais precisamente no capítulo 3) que nos contam um pouco de alguns internos do La Castañeda, inclusive com passagens em primeira pessoa, relatos.

Outro ponto que merece ser mencionado é a forma como se mesclam as histórias individuais dos personagens e o momento histórico do México de então, os conflitos políticos, as perseguições. Somos levados para dentro do livro e quase podemos ver diante de nós o que nos é descrito com maestria pela autora. Apesar da história da protagonista ser fictícia – segundo a autora, uma reconstrução livre, fruto da imaginação – a obra é baseada em relatórios clínicos, documentos oficiais, cartas de internos do Manicômio Geral (conhecido como La Castañeda). A autora explica nas notas finais do livro: “Os dados históricos sobre o mundo das ruas, do manicômio e outras instituições de controle social no México porfiriano e na alvorada da pós-revolução provêm da minha tese de doutorado em história latino-americana.”

Achei particularmente interessante a relação entre Joaquín Buitrago e o médico Eduardo Oligochea (que foi cúmplice ao fazer com que Joaquín tivesse acesso à ficha médica de Matilda). Joaquín, durante todo o tempo, sabia que uma relação de amizade seria necessária para chegar ao seu objetivo; Eduardo, hermético e sistemático, se resguardava tão bem quanto ouvia tudo com paciência. Acho este trecho abaixo um bom exemplo para ilustrar tudo isso:
O médico residente não o interrompe. “Sou todo ouvidos.” Dentro dele, alinhadas numa ordem rigorosa, suas próprias emoções estão a salvo. Mudas. Não quer despertá-las. Não tem interesse em compartilhá-las. Se algo aprender nos manuais de anatomia, com as camas imundas dos hospitais, diante do pus e da peçonha da morte, é guardar sob a pele, bem escondido, o pronome eu. Os encontros com Joaquín lhe agradam porque podem transcorrer na terceira pessoa.

Esse outro trecho abaixo, acho-o ótimo para termos uma ideia do La Castañeda. 
O manicômio tem vinte e cinto blocos espalhados em 141.662 metros quadrados. Dentro, protegidos por altos muros e grades de ferro, os loucos e as castanheiras projetam suas sombras sobre lugares afastados do tempo. O manicômio é uma cidade de brinquedo. Tem guaritas, ruas, enfermarias, cárceres, moradias. Há tumulto, rixas, tráfico de cigarros e narcóticos, tentativas de suicídio. Há oficinas onde os homens fabricam esquifes e tapetes sem ferir as mãos com pregos e sem cortar as veias. Não recebem salário. As mulheres lavam os uniformes azuis até deixá-los desbotados e, nas oficinas de costura, fazem mantas e ponchos, remendam camisas e lençóis puídos. Há poetas escrevendo cartas a Deus; mecânicos, farmacêuticos, policiais, ladrões, anarquistas que renunciaram à violência. Acontecem histórias de amor. Melancolia calada. Classes sociais. Desespero que se expressa com gritos. A dor não acaba nunca.

Matilda Burgos é um enigma a ser decifrado ao longo do livro. Incompreensível em meio ao labirinto de sua própria vida, mas ao mesmo tempo de uma vulnerabilidade não óbvia. Chego até mesmo a pensar (mesmo não me sentindo no direito de tirar tais conclusões), que se Matilda tivesse aprendido a enfrentar e compartilhar suas perdas, sua dor, seu caminho teria sido outro, talvez nunca tivesse ido parar em um manicômio.
Colecionou suas lembranças e, uma a uma, as guardou em um lugar oculto. Depois, fechou a porta e colocou-lhe o cadeado do silêncio. “Ninguém me verá chorar. Nunca.” Mais que a própria dor, Matilda temia a compaixão alheia. Desde muito antes e sem saber havia decidido viver todas as suas perdas sozinha, sem a intromissão de ninguém, às vezes nem de si mesma.

Nem preciso dizer que adorei o livro, inclusive fiquei bastante interessada em ler outras obras de Cristina Rivera Garza. E com certeza o farei!

Por fim, durante toda a leitura, fui surpreendida e deleitei-me com belas frases, cheias de significados não escancarados, mas que fazem pensar e concordar. Deixo algumas dessas frases aqui: 
Nos edifícios da linguagem sempre há corredores sem luz, escadas imprevistas, sótãos ocultos atrás das portas fechadas, cujas chaves se perdem nos bolsos furados do único dono, o soberano rei dos significados.

Há certas conversas que só podem se realizar em silêncio.

O abraço que antecede o amor, no qual o amor culmina, é tépido como uma brisa, escuro como uma mina. Uma fotografia.

Título: Ninguém Me Verá Chorar
Autor(a): Cristina Rivera Garza
Publicação original: 1999

6 de agosto de 2010

Lolita [Vladimir Nabokov]

A mais famosa obra do russo Vladimir Nabokov, Lolita é um best-seller polêmico. Ao menos o era na época de seu lançamento, em 1955. Claro que hoje causa menos impacto, mas a falta de pudor e o aspecto imoral da obra são características impossíveis de ser ignoradas.

O livro nos traz Humbert Humbert (é assim, repetindo mesmo) narrando em primeira pessoa sua obsessão por meninas púberes (entre 8 e 14 anos), às quais ele denomina “ninfetas”. Após uma série de insatisfações na Europa, Humbert, então um homem de meia-idade, muda-se para os EUA, e acaba por hospedar-se na casa de Charlotte Haze. A partir do momento em que conhece a filha de 12 anos de Charlotte, Dolores Haze, Humbert desenvolve uma grande paixão e obsessão pela menina.

O protagonista nos fala abertamente de seu lado pedófilo, de forma até “natural”, o que pode espantar um pouco os desavisados. Mas, ao contrário do que podem pensar, não considero a narrativa como sendo vulgar, e palavras de baixo calão não são utilizadas. A franqueza, essa sim dá as caras em todos os momentos, já que Humbert detalha seus atos, pensamentos e opiniões.

(...) ao longo de toda uma vida de pedofilia, já adquirira uma certa experiência, havendo possuído visualmente incontáveis ninfetas salpicadas de sol nos parques e me espremido, com depravada cautela, nos cantos mais quentes e apinhados de ônibus repletos de escolares.

Em primeira pessoa, Humbert dirige-se ora ao leitor ora ao júri (do crime do qual ele é acusado). É um protagonista com o qual é impossível haver uma identificação da parte dos leitores por razões óbvias, mas ao mesmo tempo é inevitável torcer para que ele fique bem, de alguma forma. Humbert sofre bastante, e é claramente notado algum desvio de ordem psicológica em sua personalidade; suas adoradas ninfetas perceptivelmente representam a menina Annabel por quem Humbert se apaixonou ainda criança, e ele parece buscá-la em cada garota que cruza seu caminho.

Humbert não se sente atraído por mulheres adultas; ainda que reconheça a beleza de algumas, constantemente refere-se a elas de forma repulsiva. Sente também notável aversão por garotas universitárias. No trecho abaixo vemos um exemplo de como ele se refere – de forma um tanto machista, inclusive – às mulheres com quem saía ("satisfazendo" suas necessidades sexuais):
As fêmeas humanas que me era permitido manusear eram apenas agentes paliativos.

Lolita me pareceu uma obra bastante completa, na maior parte do tempo envolta em uma atmosfera densa, mas com direito a pequenas aberturas através das quais o espírito do protagonista parece inundar-se de felicidade – efêmera e um tanto questionável, porém sincera.

Sendo o próprio Humbert quem narra o romance, a personagem de Lolita fica restrita à visão dele. Somente sabemos dela o que Humbert nos conta, e é particularmente interessante como não conseguimos enxergar Lolita como uma “criança” de 12 anos (eu, pelo menos, não consegui). Apesar de ter lá seus momentos infantis, a meu ver, a garota assemelha-se mais a uma adolescente ou jovem adulta que alterna momentos de malícia, rebeldia e inocência conforme suas necessidades e interesses pessoais. Mas isso é o que Humbert nos permite – ou nos direciona – a enxergar. Ele pinta uma Lolita cínica, até interesseira, que mostra aversão a atitudes que sugerem romantismo e que parece brincar com os sentimentos dele o tempo todo. Apesar disso, não descarto a hipótese de Lolita ser apenas uma criança travessa, por vezes confusa com a série de acontecimentos em sua vida durante a puberdade, tendo que lidar com a descoberta do sexo e de sentimentos tão novos na vida de qualquer menina de sua idade. Ao mesmo tempo, acredito que a falta da figura paterna e o aparecimento de Humbert, a princípio como namorado de sua mãe, a faz projetar nele sentimentos que teria por seu pai.

Apesar de finalizarmos a leitura com uma sensação de não conhecermos direito quem é Lolita – não sabemos o que ela pensa nem o que motiva seus atos –, acabamos nos flagrando sensibilizados por um Humbert triste, incompleto e que busca incansavelmente por alguma peça perdida em sua vida.

Lolita é uma obra imperdível, capaz de fazer com que nos deparemos com opiniões e sentimentos conflitantes acerca das personagens e acontecimentos. Não é possível odiar completamente o homem que relata as tantas situações repugnantes do livro, mas de igual forma é impossível defendê-lo. Esse clássico de Nabokov me faz pensar que a relação entre Humbert e Lolita, além de possuidora de peculiar beleza, assemelha-se à vida de uma forma geral: contraditória, difícil de ser julgada, e irremediavelmente incompreendida em sua totalidade.

Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo.

Título: Lolita
Autor(a): Vladimir Nabokov
Publicação original: 1955

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