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10 de fevereiro de 2012

Resposta Certa [David Nicholls]

Primeiramente, aviso que li a edição portuguesa do livro, intitulada Uma Questão de Atração. Este foi o primeiro livro de David Nicholls, mas começou a ganhar a atenção das editoras estrangeiras somente após o sucesso estrondoso de Um Dia. Ele ainda não foi lançado no Brasil, porém vi que ele está entre os lançamentos de 2012 da Intrínseca. Atualizando: ele já foi lançado no Brasil e aproveitei para atualizar o post com a capa e o título brasileiros.


Década de 80. Brian Jackson é o típico nerd, além de ser fã de Kate Bush e de gostar de jogar Scrabble. Ao ingressar na universidade, em meio a todas as mudanças que isso acarreta em sua vida, ele se depara com a possibilidade de participar do Desafio Universitário*, um famoso concurso de TV (uma espécie de disputa entre universidades, em que seus alunos mais brilhantes devem responder a questões dos mais variados tipos). Mas não é só isso. Brian apaixona-se por Alice Harbinson, aspirante a atriz e bastante disputada entre os garotos da faculdade. Apesar dos obstáculos, Brian tentará de tudo para conquistá-la.

*University Challenge, concurso televisivo muito célebre na Inglaterra nos anos 80.

Como prometem os testemunhos na capa e contracapa portuguesas, o livro é realmente hilário e difícil de largar antes de chegar ao fim. E isto se deve, em minha opinião, não somente ao enredo em si, mas aos personagens. Estes são realmente peculiares!

Capa portuguesa
A narrativa é muito fluida, é o tipo de leitura em que a gente não vê as horas passarem enquanto lê. Repleto de situações cômicas, Resposta Certa pode até não ser um livro inesquecível, mas vai certamente divertir. Acredito que o fato de Nicholls escrever também para TV e cinema faz com que sua narrativa tenha ritmo e que seus personagens sejam naturalmente marcantes.

Não posso não falar do protagonista, Brian Jackson. Céus, acho que nunca me deparei com um personagem tão deslocado e desajeitado como ele! É o tipo de garoto que sempre mete os pés pelas mãos, que fala as coisas erradas nas horas mais erradas ainda. Enfim, vi nele uma enorme falta de senso de oportunidade. Inclusive, foram vários os momentos em que o personagem me fez sentir “vergonha alheia” – e este não é um sentimento tão frequente em mim, quando se trata de livros. Porém por vezes é possível compreender esse jeito do personagem. E adiciono que o achei até fofo em alguns momentos.
Garoto Nota 10 tem roteiro
do próprio David Nicholls
Quanto aos demais personagens, no geral são bem caracterizados (diria até caricatos, o que deixa tudo mais engraçado) e explorados na história. Merece destaque a personagem Rebecca Epstein, toda rebelde e politizada. Já Alice, bom, ela é a típica vadia, sem mais.

Detalhe interessante: no início de cada capítulo tem uma “pergunta e resposta” no estilo do que seria o Desafio. E o interessante é que, de alguma forma, essa pergunta tem qualquer relação com o respectivo capítulo.

A comparação com Um Dia é inevitável, até porque foi o primeiro livro do autor que a maioria (senão todo mundo) leu. E, claro, Um Dia é um livro e tanto. Resposta Certa não envolve tanto o leitor quanto Um Dia, mas também é uma ótima leitura. Sugiro não colocar altas expectativas, mas ainda assim recomendo fortemente o livro.


Curiosidade: existe um filme baseado no livro, cujo roteiro foi escrito pelo próprio David Nicholls. O filme, de 2006, leva o mesmo título do livro (no Brasil chama-se Garoto Nota 10) e a direção é de Tom Vaughan.

Título: Resposta Certa
Título original: Starter for Ten
Autor(a): David Nicholls
Editora: Intrínseca
Edição: 2012
Ano da obra: 2003
Páginas: 352

1 de abril de 2010

Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde

“Para Jérôme, que largou tudo e foi dar a volta ao mundo.
Para Mathieu, que não largou nada e dá voltas no escritório.
E para todos que sonham chutar o balde...”

Após o sucesso de Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho, livrinho genial, eu não podia deixar de conferir o Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde. E confesso que este último também conquistou minha simpatia, além de melhorar consideravelmente o meu humor a cada página virada.

Assim como no livro anterior, atividades um tanto lúdicas cujo tema é o ambiente corporativo também aparecem aqui. Mas isso não é tudo; também encontramos passatempos irônicos envolvendo amigos, familiares e aquelas obrigações sociais das quais sempre queremos – e muitas vezes não podemos – fugir.

Através deste irreverente livrinho de capa verde, a autora Claire Faÿ nos encoraja a nos libertarmos de algum peso (ou melhor, pessoa) imenso que carregamos, e a levar as abobrinhas para colorir na próxima reunião de trabalho. Em um barquinho, podemos desenhar companheiros que também remam contra a maré (e assim nos convencemos de que não estamos sozinhos) – ótimo para ajudar a retardar um pouco o processo de desmotivação. Se estivermos cansados de ficar à sombra alheia (sinto que isso cabe perfeitamente no mundo corporativo), basta desenhar-nos a nós mesmos à sombra de um belo coqueiro e está tudo resolvido... Pelo menos por enquanto!

Com o Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde, em poucos minutos, vemos como é simples dar um bolo em alguém ou simplesmente reconhecer (sem culpa) aquele cabeça-de-bagre em um jantar de família. Agora, se o problema for um chefe mala, eis a solução: a cada crítica que ele fizer, simplesmente dê a ele um “vale 1 ponto - demissão”. Continue fazendo isso até completar toda a cartela do livro e, junto com o último ponto, seu chefe receberá a simpática mensagem “Parabéns! Ganhou minha demissão”. Simples assim.

Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde é uma ótima opção quando o objetivo for o humor. E digo mais, se estiver em dúvida do que dar de presente para algum colega no amigo secreto do trabalho, não precisa nem pensar duas vezes: se o livrinho não resolve os entraves do dia-a-dia, pelo menos garante uns bons momentos de descontração!

Confira a seguir algumas páginas do livro (clique para ampliar em nova janela):

     

  

Título: Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde
Autor(a): Claire Faÿ
Publicação original: 2007

LEIA TAMBÉM:
Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho

16 de março de 2010

Incomodada ficava a sua avó

Apesar de ser formada em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, raras vezes me vi interessada em um livro sobre o tema. Cheguei a ler umas poucas “partes importantes” de alguns livros, conforme a necessidade para trabalhos e provas da faculdade. E só. Até que chegou às minhas mãos este livro aí ao lado, Incomodada Ficava a sua Avó; desde que o li, ocupa o posto de um dos únicos livros que gostei – e que li inteiro – acerca do tema Propaganda.

“Anúncios que marcaram época e curiosidades da propaganda”. Como diz o subtítulo, o livro é composto por uma coletânea de anúncios antigos acompanhados por crônicas bem-humoradas do renomado publicitário Lula Vieira, publicadas no Jornal do Commercio. Mas o que torna este livro tão atraente é que, através dos anúncios, mostra um verdadeiro reflexo do que era a sociedade brasileira e seus costumes nas décadas de 20, 30, 40,...

Surpreende ver como o preconceito por vezes aparecia de forma natural nos anúncios (coisa que não seria aceita com bom humor nos dias de hoje), a forma cruel com que os anúncios se dirigiam aos gordos, e o glamour e a elegância do hábito de fumar (chegando ao absurdo de se anunciar que determinado cigarro não afetava negativamente o organismo). É também bastante interessante ver os anúncios publicados durante a Segunda Guerra Mundial, em que diversas empresas paravam momentaneamente sua produção habitual para dedicar-se unicamente à produção de equipamentos para as Forças Armadas, fazendo com que determinados produtos se tornassem impossíveis de serem adquiridos. Um anúncio da Philco, por exemplo, dizia que os esforços para a guerra trariam algum bem para a humanidade, já que “os laboratórios da Philco estão realizando milagres na ciência eletrônica, muitos dos quais têm direta aplicação em produtos de tempo de paz”. Já a fabricante de máquinas de escrever Smith Corona, orgulhosamente, dizia que “os que atualmente possuem as máquinas L C Smith estão de sorte”, uma vez que “eles sabem que as suas L C Smiths durarão todo o período da guerra com o mínimo de serviços de reparação”.

O livro nos faz viajar por épocas em que os anúncios falavam ao público de forma rebuscada, com textos que divertem ao serem lidos atualmente. Você por acaso imaginaria que ao utilizar os Batons Michel seus lábios ganhariam “repentinamente a suavidade e a brandura dos lábios de uma menina”? Ou então, que o mesmo produto na tonalidade Amapola daria a seus lábios “o poder cativante da formosura divina”? Eu realmente gostaria de saber que poder é este!

Outra característica muito presente nos anúncios de tempos antigos é a presença de promessas impossíveis na forma de produtos milagrosos, capazes de curar 2.578 enfermidades, garantindo uma velhice feliz e saudável. Para as mulheres havia a Pasta Russa, que prometia levantar e “reativar” os tecidos dos seios (silicone para quê, não é mesmo?), uma vez que seios bonitos “são o tesouro mais precioso da mulher”, conforme dizia outro anúncio da época. Já para os homens, o fantástico Potentol garantia o equilíbrio das funções orgânicas, sendo a função sexual a mais importante; tudo muito bem dito e finalizado com as seguintes palavras: “Potentol dá alegria a uma vida triste”.

E a diversão continua com os anúncios de desodorantes, com clara intenção didática, em uma época em que seu uso era quase desconhecido. Merecem especial destaque os anúncios da Coca-Cola, com seus layouts bonitos e bem acabados, e a aparentemente impossível tarefa de introduzir a bebida no mercado brasileiro.

Enfim, poderia continuar falando dos anúncios por horas! É um livro que merece ser lido e que garantirá boas risadas, surpresas e momentos de nostalgia (no meu caso, uma nostalgia curiosa que costumo sentir às vezes... sabe aquela “saudade” de épocas que não vivemos?). Durante a leitura é possível notar como vários anúncios, criados há muitas décadas atrás, ainda são bastante atuais e funcionariam nos dias de hoje, não fosse um ou outro detalhe. É um livro para todos, independentemente se possuem alguma ligação ou prévio conhecimento em Publicidade e Propaganda. Os capítulos possuem títulos aleatórios, simplesmente agrupando as crônicas por assunto. Os anúncios não são apresentados em ordem cronológica, e nem os temas são abordados de forma muito aprofundada. Como diz o autor, “é uma conversa aberta sobre propaganda, onde o assunto principal serve como fio condutor, como pontapé inicial”.

É um livro muito agradável de ser lido, com textos curtos e muitas imagens. Mas ao contrário do que podem pensar, não o li em um só fôlego, mas o fiz de forma gradual e contínua, mantendo-o em minha cabeceira durante boas semanas. Todo noite eu o pegava e consumia uma pequena dose diária do mix de informação/curiosidades/humor que o livro oferece. E posso dizer que o resultado foi satisfação garantida!

Em tempo: esclarecendo o nome do livro, “Incomodada ficava a sua avó” é o título (em forma de trocadilho) de um anúncio de absorvente íntimo, já que antigamente não se referia à menstruação de forma direta – o período menstrual era chamado de “incômodo”. Com a criação dos novos absorventes íntimos, segundo o autor, “o lançamento de um deles marcava a diferença das duas épocas, dramatizando a diferença da atitude e da própria linguagem”.

Finalizo aqui com um trecho de uma das crônicas que compõem o livro:
“Acredito que entre as coisas que o mundo moderno esqueceu, o pó-de-arroz é uma das perdas mais dramáticas. Sem ele é muito mais difícil e caro fazer ‘sua presença maravilhosa nos footings elegantes, nos salões e no convívio aristocrático’. Aliás, junto com o pó-de-arroz, acabou também esse tal de convívio aristocrático democrático e universal. Já delirando – efeito do pó – eu diria que o desaparecimento do pó-de-arroz em nossa sociedade é a causa de toda a desigualdade social. Afinal, como se vê nos anúncios, para se freqüentar ‘os theatros e casinos’, bastava usar um pouco de pó-de-arroz.”

Título: Incomodada Ficava a sua Avó
Autor(a): Lula Vieira
Publicação original: 2003

4 de fevereiro de 2010

Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho

Foi num final de semana, há meses atrás, enquanto caminhava entre as prateleiras da Livraria Cultura (lugar adorável!) que o vi. Estava lá todo modesto, espremido entre livros bem maiores e o vidro da prateleira. E graças ao vidro eu o vi. A capa laranja também ajudou, apesar do tamanho compacto. Acabei passando reto, mas aquele título ficou por uns segundos na minha cabeça e tive que voltar para ver do que realmente se tratava. Uma ideia daquelas seria genial demais, eu pensei, e realmente era.

Com certo esforço, consegui resgatá-lo da prateleira. Fitei a capa, o título dizia  Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho. Demorei-me um pouco nela: a capa de um livro, quase sempre, é algo muito interessante se olhar às pressas. E, por fim, o abri. (Curiosidade: da artista gráfica francesa Claire Faÿ, o livro foi lançado em 2006 e surpreendeu ao permanecer na lista de best-sellers da França. Em 2007, esteve entre os 10 livros mais vendidos do mesmo país.)

O que eu posso dizer é que o livrinho me surpreendeu. A cada página deparei-me com passatempos bastante interessantes e totalmente dentro do contexto do ambiente no qual passamos 8 das 24 horas do nosso dia. E muita gente, ao ver o livro, deve ter se surpreendido pelo mesmo sentimento de identificação. Atividades como "desenhe a vaca indo para o brejo" me fizeram rir por apresentar causos do dia-a-dia que ainda nos deixarão uma úlcera nervosa de recordação. Uma atividade em especial achei genial, trata-se do já conhecido "relacione a coluna da esquerda com a coluna da direita", sendo que a coluna da esquerda eram as corriqueiras e mais que irritantes coisas que normalmente fazemos nos escritórios (responder email do chefe, por exemplo). Já a coluna da direita é que era boa, com desenhos de gestos com a mão (apontando o dedo de diversas formas, com significados nada amigáveis). Ligar as colunas nunca foi tão divertido desde aqueles passatempos que eu fazia nos gibis da Turma da Mônica! Merece atenção especial também o "coloque os pingos nos i's" e a "pausa para o café: colorir as xícaras até transbordarem" (a versão chá ou chocolate quente seria muito bem-vinda também, não?).

Em suma, apesar de ser fininho e relativamente discreto (não fosse pela capa laranja), o Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho diverte e ameniza as tensões de um dia atribulado. Ele é ousadinho, provoca sem avacalhar, já que, em tempos nos quais vender a alma para o demo já virou passado – agora a gente vende a alma para as corporações –, todo cuidado é pouco.

Título: Caderno de Rabiscos para Adultos Entediados no Trabalho
Autor(a): Claire Faÿ

Publicação original: 2006

LEIA TAMBÉM:
Caderno de Rabiscos para Adultos que Querem Chutar o Balde

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