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24 de agosto de 2012

Vi na Livraria: Borralheiro (minha viagem pela casa), de Fabrício Carpinejar



Há alguns anos li, assim por acaso e de um só fôlego, os textos de Canalha!. E foi uma deliciosa descoberta, já que não conhecia nada do autor. Nele, Carpinejar me cativou com o humor de suas crônicas, com a figura do homem dos dias atuais, seu comportamento e seu papel – ambos em constante transformação.
Por isso escolhi Borralheiro para o Vi na Livraria. Uma outra faceta do homem contemporâneo. Um livro que me atrai e que quero, um dia, ler.

BORRALHEIRO (minha viagem pela casa), de Fabrício Carpinejar, Ed. Bertrand Brasil, 2011.

O homem é o novo dono do lar. O novo romântico. O novo casamenteiro. Não tem vergonha de chorar, lembra a data do primeiro beijo e conhece de cor e salteado onde ficam as toalhas e quais estão secas.

Em 100 crônicas, o escritor confidencia as estratégias divertidas de sedução e faz advertências saborosas, como nunca mexer no umbigo da namorada ou apertar suas bochechas. Em altas doses de lirismo e humor, Carpinejar embarca em uma viagem sem volta pela residência. Passeia por cada cômodo, brincando com as diferenças do comportamento entre marido e mulher e destruindo condicionamentos do sexo e do amor. O escritor não foge de uma boa discussão de relacionamento, tanto que acha que a briga deveria ser profissionalizada com O Dia da DR.

Depois dos sucessos de Canalha! e Mulher Perdigueira, Carpinejar retrata a mudança do comportamento masculino. Descobre agora o Borralheiro, personagem que não se sente menosprezado por cuidar das tarefas domésticas. O autor convida cada um a repensar a rotina e se apaixonar novamente pelo casamento. Se em Canalha!, ele indicava a importância dos bicos da caixa de leite, aqui divide com a mulher copos de requeijão e iogurte.

Para ler algumas das crônicas de Borralheiro, acessem a página do livro.

17 de agosto de 2012

A delicadeza [David Foenkinos]

Tendo a canção L’amour en fuite (O amor em fuga), de Alain Souchon, como fundo musical, Foenkinos constrói uma comédia sentimental saborosa.

Nathalie e François viviam o que se poderia chamar de um amor perfeito. Uma felicidade daquelas que despertam admiração dos que a observam e o medo de quem a vive. Depois de sete anos de casamento, a tragédia atravessa a rotina de Nathalie: François morre, deixando a jovem mergulhada numa dor quase insuportável. E a perdida Nathalie encontra-se, no caminho em busca por si mesma, com o não menos confuso Markus.
Nathalie, em um luto aparentemente eterno, é atraente e constantemente assediada pelo diretor da empresa. Markus é um sueco sem muitos atrativos físicos e com um histórico de insucessos amorosos que colaboram para a sua timidez e para a falta de jeito com o sexo oposto. No entanto, ele transmite certa calmaria e possui um senso de humor que se revela aos poucos em frases não muito habituais, mas certeiras. Contrariando todas as expectativas, é com ele e por ele que Nathalie enfrentará a dor da perda e tentará seguir em frente.

O beijo é muitas vezes o ponto de partida das mais diversas histórias de amor, sejam elas breves, eternas, bem-sucedidas ou não. Em A delicadeza, David Foenkinos colocou o beijo como a linha que separa a depressão e o recolhimento da protagonista de sua redescoberta dos assuntos do coração. E foi de maneira inusitada, e por isso mesmo, dotada de charme ímpar.

Com um beijo é que começa a história de Nathalie e Markus. Relacionamento de início desajeitado, manco até, e por isso mesmo hilário. Engana-se quem pensa que A delicadeza traz uma história de amor convencional. O livro não é daqueles para se roer de curiosidade e torcer para que mocinho e mocinha fiquem juntos no final. É um livro em que os protagonistas se descobrem – ao outro e a si mesmo – e o leitor acompanha esse caminho regalado por um texto com pitadas de humor. Esse humor aparece também através de “minicapítulos” que intercalam a narrativa, destinados simplesmente a entrar em algum detalhe sobre algo já mencionado e que, aparentemente, não tem importância na trama. Pequenas informações a título de curiosidade – os ingredientes necessários para preparar um risoto de aspargos, um pensamento de um filósofo polonês, ou o título de um quadro – que acabam por dar um brilho a mais no todo e realçar o humor na obra.

O ambiente de trabalho (ambos são parte da mesma equipe de trabalho em uma multinacional sueca) revela as “pequenas” podridões contidas no jogo das normas sociais. Os comentários que nunca cessam, as relações empobrecidas e superficiais, e a necessidade de invadir o outro por nada saber fazer com o vazio dentro de si. Não haveria, a meu ver, melhor ambiente para fazer brotar algo – talvez a única coisa realmente viva e verdadeira lá dentro – entre os protagonistas. Ponto para o autor!

A delicadeza traz uma história charmosa. Seus personagens, também charmosos, são traçados com excelência pelo autor, e parecem ganhar vida própria em uma trama que navega pelas várias nuances da palavra "delicadeza"...

Curiosidade: o livro foi adaptado para o cinema pelo próprio David Foenkinos junto com seu irmão, Stéphane Foenkinos. O filme, intitulado A Delicadeza do Amor, é estrelado por Audrey Tautou e François Damiens e chegou às telas em 2011.

Título: A delicadeza
Título original: La délicatesse
Autor(a): David Foenkinos
Editora: Rocco
Edição: 2011
Ano da obra: 2009
Páginas: 192


Li a obra em seu idioma de origem, o francês. Não é uma leitura difícil, mas recomendaria apenas aos que já possuem um nível mais avançado da língua; diria que requer uma importante compreensão gramatical.

Recorri ao dicionário algumas vezes, ainda que o vocabulário e as expressões que desconhecia não chegassem a impedir o entendimento pelo contexto – tanto que lia tranquilamente na rua, sem ter um dicionário a tiracolo. Ótimo para quem já fala francês e quer praticar um pouco mais.

E sim, é a Audrey Tautou na capa (em uma das cenas do filme), o que deixou o livro ainda mais irresistível, não?!


LA DÉLICATESSE (David Foenkinos, Éditions Gallimard, Collection Folio – 5177, 2012)

30 de maio de 2012

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios [Marçal Aquino]

Aos que foram leitores vorazes da série Vaga-Lume, o nome Marçal Aquino provavelmente fará lembrar A Turma da Rua Quinze. Fora os títulos infanto-juvenis, o autor escreveu poesia, roteiros de cinema e romances para o público adulto; isso além de atuar no campo do jornalismo. Mas este post é justamente para falar sobre o livro cuja adaptação estreou nos cinemas recentemente: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios.

O fotógrafo Cauby se recupera de um trauma numa pensão barata, numa cidade do Pará prestes a ser palco de uma nova corrida do ouro. Sua voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo – mas não é do ambiente hostil ao seu redor que ele está falando. O motivo de sua descida ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um pastor evangélico.

A trajetória do fotógrafo, dado a premonições e a um humor desencantado, vai sendo explicada por meio de pistas: a história do fotógrafo Chang; o mistério do jornalista local Viktor Laurence,... Mesmo diante de todos os riscos, Cauby decide cumprir seu destino com o fatalismo dos personagens trágicos.

"Nunca acreditei no diabo", diz ele. "Apenas em pessoas seduzidas pelo mal."


Se o título e a capa – linda, por sinal – já atraem atenções, esperem até devorar esta história, página por página, até o último ponto final. Uma história de amor avassaladora e cheia de particularidades nos é contada em primeira pessoa por Cauby. Outras histórias são contadas em paralelo, como por exemplo, a que une o pastor Ernani e Lavínia – esta, o objeto de amor e desejo de Cauby. Ainda, o relato da história do amor platônico vivido pelo careca, hóspede da pensão, entremeia-se muitas vezes com a história de Cauby, mostrando as dimensões e facetas do amor, e as loucuras que só os que o sentem são capazes de cometer.

Mas a cereja do bolo é Lavínia. Misteriosa e sedutora, ela se desdobra em duas: uma mais recatada e, oposta a esta, uma Lavínia selvagem e cheia de volúpia. Revelou-se uma personagem como poucas vezes presenciei nos livros. Ainda que o texto navegue pelo psicológico de Lavínia, uma aura de mistério permanece intocada – o principal atrativo do livro. Em minha modesta opinião de leitora, vejo em Lavínia traços da Capitu machadiana – no que se refere ao aspecto sedutor e à bruma de segredo que as envolve. Livros e mais livros poderiam ser escritos, ainda assim, admitamos, seria impossível penetrar certos cantos da mente, da alma e do coração de Capitu. E foi de forma semelhante que enxerguei a Lavínia de Marçal Aquino.

Palavras sábias são adicionadas através das citações de um tal professor e psiquiatra Benjamim Schianberg. Este “teórico do amor”, que só existe na ficção, expressa verdades de forma tão direta quanto crua em seus livros, cujos trechos Cauby divide com o leitor:
O professor Benjamim Schianberg, o homem que dizia ocupar-se das “fezes da alma”, escreveu que nos alimentamos tanto do bem quanto do mórbido. No meio disso, ele assunta, existe a poesia.
(Curiosidade: o personagem foi objeto de inspiração para o filme “O Amor Segundo B. Schianberg” - direção de Beto Brant, Brasil, 2009.)

Página de abertura da primeira parte da história
(Imagem: blog prascucuias.com.br)
Outros personagens enriquecem a trama. Em todos eles existe um quê de mistério, como se fossem parte de um intrincado jogo de palitinhos – aquele em que ao tocar um palito erroneamente, acabamos por mover todos os restantes. Ainda, e permeando todo o contexto da trama, há o conflito entre uma companhia mineradora e os garimpeiros, fazendo com que o clima de tensão esteja sempre presente na narrativa. Uma tensão geral, que abala a cidade, caminhando em paralelo com as tensões individuais de cada personagem.

Sem mais, seria injusto não concluir de forma imperativa: leiam Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios o quanto antes!

Trailer do filme Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (direção de Beto Brant e Renato Ciasca, 2011), cujo roteiro é do próprio Marçal Aquino:



Título / Título original: Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios
Autor(a): Marçal Aquino
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2011
Ano da obra: 2005
Páginas: 232

2 de maio de 2012

Para Sempre [Kim e Krickitt Carpenter]

Para Sempre fala, acima de tudo, de superação. Por se tratar de uma história real, o livro traz certa carga sentimental e nos faz refletir sobre a importância da motivação perante situações difíceis.

A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente no dia 24 de novembro de 1993, dois meses após o seu casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a "Krickitt" com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava.

Como narrador, Kim Carpenter conta sua história de amor com Krickitt, como se conheceram, o casamento, e o acidente que mudou a vida de ambos e suas consequências. Ele descreve suas angústias – derivadas do acidente – e faz com que o leitor perceba a grandiosidade de seu amor pela esposa.

Uma característica da obra que não me agradou foi a ênfase que é dada, constantemente, na religião e na fé em deus. Ainda que estes tenham sido aspectos fortes na história de Kim e Krickitt (e lembrando que tudo é narrado por Kim), a impressão é a de que o texto tenta convencer o leitor de que a fé cristã foi a principal responsável pela sobrevivência e recuperação de Krickitt, e ainda, pela reestruturação da vida do casal. Ou seja, as pessoas que cruzaram o caminho do casal, os ótimos profissionais envolvidos, etc, tudo teria sido “colocado” na vida deles por obra da fé. Um pouco demais, não?

Abri o review falando que esta é uma história de superação. E prefiro continuar nesta perspectiva, digamos, mais realista – ou racional, se preferirem. Acredito que, no lugar das palavras “fé” ou “deus”, caberiam muito bem estas outras palavrinhas mágicas: “determinação”, “força de vontade”, “amor”.

Permitam-me abrir um parêntese:
Ao “julgar” o livro pela capa, o leitor espera encontrar “a história que inspirou o filme” – conforme lemos na própria capa. Não vi o filme, portanto não sei apontar as semelhanças e diferenças em relação ao livro e à história real. O que não se imagina, no entanto, é a abordagem através da qual é contada essa história. Somente ao olhar os dados de catalogação no interior do livro, é que vemos como item número 1: “Biografia cristã”. Informação que a capa e a sinopse não transmitem. Se, por um lado, isto pode servir para “aumentar” o público abrangente, no final, a quantidade de leitores decepcionados também é maior. Leitores que, muito provavelmente, não fazem parte do real público do livro. (Um consumidor insatisfeito sempre tem boa memória.)

Para Sempre não foi uma leitura muito marcante em termos positivos. Mas o texto também não é horrível. Tirando todo o aspecto em torno da religião, é interessante observar a reconstrução da vida do casal. O livro ainda reúne características capazes de fazer com que alguns leitores se emocionem. Contudo, e particularmente falando, Para Sempre não conseguiu me causar grande comoção.
Título: Para Sempre
Título original: The Vow
Autor(a): Kim e Krickitt Carpenter
Editora: Novo Conceito
Edição: 2012
Ano da obra: 2012
Páginas: 144

16 de abril de 2012

Lançamento 03/05: Equinócios de Amor

Hoje vim trazer para vocês um release (mais fresquinho, impossível!) de um lançamento da Editora Alcantis. Trata-se de Equinócios de Amor, do qual participo com o conto "Rambla de Mar".

Confiram abaixo mais detalhes sobre o livro e sobre o lançamento, que será no dia 03 de maio!
(Apesar da empolgação, estou tão triste por não poder ir ao lançamento...)

SINOPSE:
Antologia que traz para o universo literário uma série de contos românticos inspirados no relacionamento humano romântico e apaixonado, produzidos por novos talentos da literatura nacional que demonstram, nesta linda obra, bastante personalidade com narrativas que encantam e emocionam o leitor. O livro reúne contos que abordam questões como relacionamentos proibidos, paixão arrebatadora, destinos cruzados, entrega incondicional, mas também traz contos que discorrem sobre as oportunidades perdidas e os desdobramentos de um amor que não foi correspondido.

“Observá-la pela primeira vez, para Alessandro, foi como olhar um arco-íris de tons pastéis... Começou pelos cabelos, muito lisos, que caíam na altura do pescoço, sem tocar-lhe os ombros. Eram de um azul-turquesa a princípio duvidoso, porém deliciosamente excêntrico quando observado com calma.”

“Ao fechar a porta do carro, ainda encarando os castanhos melancólicos, a jovem suspirou em derrota. Durante meses ela desejou reencontrá-lo para dizer que fizera falta, que o admirava, que aprendera a vê-lo mais do que um amigo. No entanto, agora, suas palavras em nada resultariam.”

SOBRE A ANTOLOGIA:
Equinócios de Amor é a materialização de uma iniciativa que nasceu com uma proposta audaciosa, de exortar novos autores à criação de contos que permeassem a sensibilidade existente no relacionamento apaixonado entre duas pessoas, e que reuniu, após duas fases eliminatórias, considerando as regras de utilização da língua portuguesa e os seus aspectos técnicos, 14 encantadoras histórias criadas pelos autores eleitos:
Agatha - Alamanda - Alaor Rocha - Aline T.K.M. =P - Augustos Reis - Denise Smith - Francine Porfirio Ortiz - Maggie King - R. Artur Freire - Ren Deville - Ricardo Biazotto - Wellington S.O.

FICHA TÉCNICA:
Gênero: Contos/Crônicas
Editora: Alcantis/APED
Ano: 2012/1ª Edição
Nº de páginas: 144
ISBN: 978-85-98792-35-4
Preço: R$ 19,90

LANÇAMENTO:
Quando? 03/05/2012
Que horas? A partir das 17h
Onde? Livraria da Travessa - Rua Sete de Setembro, nº 54 - Centro - Rio de Janeiro, RJ

10 de fevereiro de 2012

Resposta Certa [David Nicholls]

Primeiramente, aviso que li a edição portuguesa do livro, intitulada Uma Questão de Atração. Este foi o primeiro livro de David Nicholls, mas começou a ganhar a atenção das editoras estrangeiras somente após o sucesso estrondoso de Um Dia. Ele ainda não foi lançado no Brasil, porém vi que ele está entre os lançamentos de 2012 da Intrínseca. Atualizando: ele já foi lançado no Brasil e aproveitei para atualizar o post com a capa e o título brasileiros.


Década de 80. Brian Jackson é o típico nerd, além de ser fã de Kate Bush e de gostar de jogar Scrabble. Ao ingressar na universidade, em meio a todas as mudanças que isso acarreta em sua vida, ele se depara com a possibilidade de participar do Desafio Universitário*, um famoso concurso de TV (uma espécie de disputa entre universidades, em que seus alunos mais brilhantes devem responder a questões dos mais variados tipos). Mas não é só isso. Brian apaixona-se por Alice Harbinson, aspirante a atriz e bastante disputada entre os garotos da faculdade. Apesar dos obstáculos, Brian tentará de tudo para conquistá-la.

*University Challenge, concurso televisivo muito célebre na Inglaterra nos anos 80.

Como prometem os testemunhos na capa e contracapa portuguesas, o livro é realmente hilário e difícil de largar antes de chegar ao fim. E isto se deve, em minha opinião, não somente ao enredo em si, mas aos personagens. Estes são realmente peculiares!

Capa portuguesa
A narrativa é muito fluida, é o tipo de leitura em que a gente não vê as horas passarem enquanto lê. Repleto de situações cômicas, Resposta Certa pode até não ser um livro inesquecível, mas vai certamente divertir. Acredito que o fato de Nicholls escrever também para TV e cinema faz com que sua narrativa tenha ritmo e que seus personagens sejam naturalmente marcantes.

Não posso não falar do protagonista, Brian Jackson. Céus, acho que nunca me deparei com um personagem tão deslocado e desajeitado como ele! É o tipo de garoto que sempre mete os pés pelas mãos, que fala as coisas erradas nas horas mais erradas ainda. Enfim, vi nele uma enorme falta de senso de oportunidade. Inclusive, foram vários os momentos em que o personagem me fez sentir “vergonha alheia” – e este não é um sentimento tão frequente em mim, quando se trata de livros. Porém por vezes é possível compreender esse jeito do personagem. E adiciono que o achei até fofo em alguns momentos.
Garoto Nota 10 tem roteiro
do próprio David Nicholls
Quanto aos demais personagens, no geral são bem caracterizados (diria até caricatos, o que deixa tudo mais engraçado) e explorados na história. Merece destaque a personagem Rebecca Epstein, toda rebelde e politizada. Já Alice, bom, ela é a típica vadia, sem mais.

Detalhe interessante: no início de cada capítulo tem uma “pergunta e resposta” no estilo do que seria o Desafio. E o interessante é que, de alguma forma, essa pergunta tem qualquer relação com o respectivo capítulo.

A comparação com Um Dia é inevitável, até porque foi o primeiro livro do autor que a maioria (senão todo mundo) leu. E, claro, Um Dia é um livro e tanto. Resposta Certa não envolve tanto o leitor quanto Um Dia, mas também é uma ótima leitura. Sugiro não colocar altas expectativas, mas ainda assim recomendo fortemente o livro.


Curiosidade: existe um filme baseado no livro, cujo roteiro foi escrito pelo próprio David Nicholls. O filme, de 2006, leva o mesmo título do livro (no Brasil chama-se Garoto Nota 10) e a direção é de Tom Vaughan.

Título: Resposta Certa
Título original: Starter for Ten
Autor(a): David Nicholls
Editora: Intrínseca
Edição: 2012
Ano da obra: 2003
Páginas: 352

25 de janeiro de 2012

Anna e o Beijo Francês [Stephanie Perkins]







“Isto é tudo o que sei sobre a França: Madeline, Amélie e Moulin Rouge. A Torre Eiffel e o Arco do Triunfo também, embora eu não saiba qual a verdadeira função de nenhum dos dois.”

Anna Oliphant muda-se para Paris, resultado unicamente da decisão de seu pai, um famoso escritor norte-americano, que deseja que a filha estude durante um ano em um colégio interno de elite na Cidade Luz. Mas Anna não gostou nada da ideia, já que sua vida está toda em Atlanta: um emprego, sua melhor amiga e um rolo prestes a virar namoro. Mas em Paris há Étienne St. Clair: bonitão, inteligente, muito carismático e... comprometido. Anna e Étienne acabam se tornando amigos muito próximos e aí tudo fica MUITO complicado.

O que eu posso falar de Anna e o Beijo Francês?!?! Com certeza devo mencionar que é aquele tipo de livro que você lê muito rápido, que te faz adorar e odiar os personagens – ao mesmo tempo! – e que traz momentos de friozinho na barriga.

Ok, vamos ser sérios. O enredo não traz nada de verdadeiramente inovador, além de reunir elementos bastante óbvios: garota encontra garoto em Paris. E, se considerarmos que o garoto em questão é praticamente “perfeito” aos olhos femininos e que temos Paris como pano de fundo (acho que nem preciso comentar nada sobre Paris, né!)... Porém, neste caso, os clichês foram aplicados de maneira positiva, ao invés de simplesmente afundar o livro em uma historinha boba – o que não raro acontece por aí. A autora juntou ingredientes manjados e os transformou em um livro muito gostosinho de ler! A leitura se mostra em um ritmo ideal, e as intrigas acrescentam certo movimento na história, mantendo o livro bem longe do tédio. A narrativa é feita em 1ª pessoa, sob a ótica de Anna.

Basicamente, o enredo é focado em um possível romance entre os protagonistas, mas existem também outras histórias na vida deles, e ainda outras relacionadas aos amigos deles. Estas outras histórias são abordadas no livro, mas não de forma muito aprofundada – também não ficam na superficialidade extrema; diria que nos é mostrado o suficiente. Os personagens são interessantes e conquistam o leitor nos primeiros capítulos. É interessante ver como eles lidam com os altos e baixos entre si, como eles enxergam os obstáculos e os tantos tropeços nessa amizade que vem acompanhada de atração quase que irresistível. Existe entre os protagonistas uma tensãozinha sexual constante, sem ser apelativa ou forçada. Ponto mega positivo.

Infelizmente, encontrei pontos que não me agradaram no livro. Tive a impressão de que a tradução não foi tão cuidadosa assim, e que escaparam errinhos de revisão. Foi uma pena, achei que o livro merecia atenção maior neste quesito. Apesar de tudo, a leitura não sofreu prejuízos imensos.

Mergulhado no universo de fim de adolescência, Anna e o Beijo Francês não é um livro de grandes mensagens, mas é REALMENTE gostoso de ler. O enredo envolve e faz com que seja praticamente impossível largá-lo. Recomendo, com certeza!

P.S. (desnecessário e bastante pessoal): o personagem St. Clair é simpático, mas essa aura toda de perfeição em torno dele não me chamou muito a atenção. Quero dizer, pode ser que a maioria das garotas babe por ele (e certamente foi essa a intenção da autora), mas ele tem um perfil que, na minha concepção, está consideravelmente longe do que eu vejo como atraente.

Título: Anna e o Beijo Francês
Título original: Anna and the French Kiss
Autor(a): Stephanie Perkins
Editora: Novo Conceito
Edição: 2011 – 2ª impressão
Ano da obra: 2010
Páginas: 288

10 de outubro de 2011

O Voo da Estirpe [Adriana Vargas Aguiar]

O review de hoje traz uma obra participante do Clube dos Novos Autores. Para quem não conhece a iniciativa, vale a pena visitar o blog. =)

Uma história de amor que ultrapassa barreiras. Clarice vive seus dias sem realmente se dar conta de que está viva, sem aproveitar cada instante e cada sopro de vida em seus poros. Até conhecer Klaus, portador de uma doença terminal. O amor é inevitável e vem acompanhado do medo da perda. Através de Klaus, Clarice descobre o que significa viver e, a partir de então, liberta-se de antigos padrões para finalmente encontrar-se com ela mesma, em um importante ciclo de autoconhecimento.

O Voo da Estirpe – primeiro livro da trilogia de mesmo nome – traz uma leitura rica em conteúdo. Repleto de sentimento, o enredo emociona e incentiva a reflexão. Diria até que é praticamente impossível ler o livro e não ser tocada(o )por ele em nenhum momento.

Clarice, a personagem central, nos narra em primeira pessoa toda a transformação pela qual sua vida é submetida. E essa característica da narração é, a meu ver, mesmo fundamental para que a história tenha certo tom pessoal, aspecto que envolve o leitor como se este recebesse confidências com o coração aberto.

Ainda mais que os acontecimentos em si, o que realmente cativa o leitor são os personagens, Clarice e Klaus, tão humanos em suas qualidades e defeitos, erros e acertos. Inclusive arrisco dizer que todo mundo tem um pouco de Clarice em si. Através da jornada ao encontro de sua essência como ser humano, somos levados a olhar para o interior de nós mesmos e, nem que seja por um instante, passamos a ver a vida portando outras lentes. Já Klaus, por sua vez, lida com sua condição de maneira admirável – chega a ser meio surreal, confesso, mas ainda assim, carrega grandiosa beleza em seus atos.

Durante a leitura, alguns aspectos da narrativa me incomodaram um pouquinho (em relação à pontuação, no geral), mas friso que se trata de uma opinião realmente pessoal. No mais, a leitura flui com naturalidade, sendo bem possível devorar o livro em poucas horas.

Para finalizar, O Voo da Estirpe nos brinda com uma leitura que nos torna incapazes de encarar com indiferença. O livro é tocante e acredito que, após lê-lo, ninguém sairá ileso.

Título / Título original: O Voo da Estirpe
Autor(a): Adriana Vargas Aguiar
Clube dos Novos Autores
Ano: 2011

4 de setembro de 2011

O Mundo de Vidro [Maurício Gomyde]


Até onde pode ir a paixão de uma pessoa por outra? Como, quando e por que começa?
Até que ponto pode-se cometer alguma loucura para fazer parte da vida de alguém?
Quais as consequências da paixão avassaladora incompreendida? E quando não se admite a óbvia paixão por outra pessoa?


Em O Mundo de Vidro, Maurício Gomyde conta a história de duas pessoas, Ele e Ela. Ele é um cara tímido e sem muita experiência no amor, que a conhece por acaso e logo se vê tomado por uma paixão inexplicável e incontrolável. Linda e inteligente (e arrasada pelo término de um relacionamento), Ela tem inúmeros pretendentes que tentam tê-la a todo custo. E é neste cenário que Ele fará de tudo (ou quase) para conquistá-la.

Primeiramente, confesso que no início não botei muita fé. Até cheguei a achar as pitadas de humor um pouco irritantes, às vezes. Mas foi só uma impressão precipitada e equivocada; a cada capítulo, O Mundo de Vidro certamente ganhou minha simpatia.

Os personagens centrais, Ele e Ela, são bem reais, podem ser qualquer um ou todos nós. No começo, Ele me irritava consideravelmente. Achava-o realmente estranho, e queria mesmo dar uns tapas nele a cada vez que soltava o tal de “Er... Aham... Cof... Cof...” antes de cada frase falada. Porém, ao longo da história, já não o via mais como um ser tão estranho e comecei a me divertir com os acontecimentos em torno dele. Acho legal destacar os “personagens de estimação”: Ela com um basset chamado Paul Macartney, tarado por grudar nas pernas alheias; Ele com uma papagaia chamada Horácio (mas é fêmea mesmo!) que não era nada convencional em suas falas.

Uma característica que merece atenção é que, embora narrado em terceira pessoa, o livro parece mostrar tudo em um ponto de vista mais masculino. A meu ver, é um aspecto bastante positivo e confere um tipo de humor e comentários que, talvez, não rolassem se a perspectiva dos fatos pendesse para o lado feminino.

A leitura é super leve e o livro é do tipo que a gente devora rapidamente, dada a curiosidade para saber o desfecho. É divertido e tem algumas doses de romantismo e frases bonitas, conforme a leitura avança.

Em O Mundo de Vidro, basicamente, vemos o processo da conquista e percebemos a maneira em que tantas vezes o ser humano complica o que não deveria ser complicado. Trata-se de uma leitura que, para mim, valeu a pena; certamente a recomendaria aos que tenham interesse em temas acerca de relacionamentos com um toque descontraído.

(Ah, para quem ficou curioso do porquê do título – eu, pelo menos, estava bem curiosa antes da leitura –, ele é revelado ao longo do livro e de uma forma bastante bela!)

Título / Título original: O Mundo de Vidro
Autor(a): Maurício Gomyde
Editora: Porto 71
Edição: 3ª - 2011
Ano da obra / Copyright: 2011

15 de junho de 2011

Um Dia [David Nicholls]


Tudo começa em uma sexta-feira, 15 de julho de 1988. Emma Morley e Dexter Mayhew mal se conheceram e a chegada da vida “pós-universidade” parece se encarregar de separá-los. Eis o ponto de partida para uma forte e complicada relação de amizade cheia de altos e baixos, em que os acontecimentos são narrados durante o período de 20 anos, sempre no mesmo dia – 15 de julho – de cada ano.

Devo começar dizendo que estamos diante de um livro magnífico. Um Dia nos presenteia com personagens construídos com excelência, diálogos sagazes e um enredo com o qual é impossível não se envolver. Cada capítulo refere-se ao dia 15 de julho de cada ano (uma estrutura que considerei genial) e isso contribui para que sempre haja “movimento” na história, além de mostrar a ação do tempo sobre a vida e os próprios personagens. Simplesmente não há passagens cansativas, não há marasmo; o livro consegue prender do começo ao fim.

Em primeiro plano temos o relacionamento entre duas pessoas e, de forma paralela, somos mergulhados nas expectativas dos personagens em relação à própria vida. Sucessos, fracassos, desilusões, projetos, motivações, tudo isso permeia cada acontecimento narrado, e como na vida real, esse conjunto torna-se crucial na determinação dos caminhos de cada personagem. Aliás, considero o enredo bastante realista, um retrato de algumas fases da vida em que imagino que todos compartilham muitos dos sentimentos (e frustrações, e convicções,...) narrados. Durante a leitura, enxerguei a mim mesma em muitas partes, sob vários aspectos.

Os personagens são, a meu ver, o ponto mais alto do livro. Dexter é o tipo que demora a amadurecer, que leva a vida no imediatismo, e para quem o que é tangível tem mais valor. Muitas vezes deixa-se dominar pela arrogância e pelo desejo por status. Emma é geniosa, intelectual e de opiniões fortes, e não é exatamente uma pessoa muito fácil de lidar. Pessoalmente, acho o personagem de Emma fascinante em todos os seus aspectos; mesmo quando quer ser chata (e consegue perfeitamente!), ela revela traços de uma personalidade marcante, ainda que a falta de autoconfiança se mostre muito presente e acabe por prejudicá-la em vários momentos.

Um Dia me emocionou bastante (e veja bem, não sou do tipo que se emociona facilmente com livros). Também me “assustou” um pouco ao mostrar como a vida passa tão rápido sem que percebamos – uma verdade à qual normalmente não damos muita atenção no dia-a-dia. Se o que você procura é uma fofa e delicada história de amor e amizade, esse não é o livro mais indicado (ainda que a capa o sugira de maneira irresistível). Mas se você quer algo mais real – tanto para o bem como para o mal –, mas nem por isso menos surpreendente, Um Dia tem tudo para ser aquele livro que vai ficar na sua memória por um bom tempo (e provavelmente vai te fazer pensar e questionar algumas coisas na sua própria vida).

E como todo mundo já deve saber, a versão cinematográfica de Um Dia, dirigido por Lone Scherfig e com Anne Hathaway (adoro ela!) e Jim Sturgess nos papéis principais, tem estreia prevista para julho nos EUA. Não preciso nem comentar que aguardo ansiosamente para conferir essa história na telona!

Título: Um Dia
Autor(a): David Nicholls
Editora: Intrínseca
Edição: 2011
Copyright: 2009

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