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10 de junho de 2012

Extras [Scott Westerfeld]



No quarto livro da série, A Era da Perfeição ficou no passado. A libertação promovida graças aos esforços de Tally Youngblood deu fim a uma cultura onde a beleza e as modificações cerebrais eram a base do sistema. Nesse novo mundo onde Aya Fuse tenta sobreviver, existe uma coisa muito mais importante e poderosa do que a beleza: a fama.

Ocupando o 451.611º lugar em um ranking que mede a popularidade das pessoas, Aya é só uma Extra nesse complexo sistema social. Mas a descoberta de um grupo de misteriosas meninas que se arriscam a surfar em trens magnéticos pode ser a oportunidade perfeita para alcançar o seu lugar no topo. Uma matéria tão boa que irá despertar o interesse de todo mundo, incluindo alguém há muito desaparecido.


Por não se tratar exatamente de uma continuação dos três volumes anteriores da Série Feios, o leitor pode levar algum tempo para se acostumar com o universo de Extras. Em uma cidade* regida pela “economia de reputação”, é a fama que dita as regras e a colocação no ranking de reputação determina e move a existência da população.
* No início, só percebemos que a tal cidade situa-se no Japão pelos nomes claramente japoneses dos personagens. O fato é confirmado só mais adiante, ao ser mencionado que o japonês é a língua falada pelos protagonistas.

Passadas as estranhezas iniciais e uma vez familiarizados com os novos personagens, é tarefa árdua não se deixar envolver pela narrativa irresistível de Westerfeld. Quem leu os livros anteriores sabe do que estou falando. O autor sempre convence, por mais inimagináveis que sejam os elementos de suas histórias. E o leitor, por sua vez, pode aguardar surpresas no desenrolar da trama, elas são uma constante nos livros da série!

O tema, aliás, foi uma grande sacada do autor. Pessoas com câmeras flutuantes a tiracolo, vidas expostas em canais para quem quiser assistir, a necessidade de registrar absolutamente tudo em imagens e divulgá-las em seguida. A vida, por si só, já não é suficiente, é preciso que seja “testemunhada”. Os acontecimentos só adquirem status de “verdade” a partir do momento em que são divulgados, quando há gente falando sobre. Isso tudo nada mais é do que um retrato – caricato e futurista – do mundo “real-virtual” em que vivemos hoje. Facilmente podemos traçar paralelos e fazer comparações com estes tempos de Facebook, em que é possível conhecer tudo da vida de uma pessoa através das redes sociais – mesmo sem nunca tê-la visto pessoalmente.

Questões derivadas ao tema são abordadas de maneira interessante no livro. Distorção de fatos, bullying virtual, obsoletismo das informações, falta de privacidade (e, ainda, a impossibilidade de realmente optar por uma vida privada), e valores (como lealdade e honestidade) na era virtual. Tecnologia é sinônimo de progresso, certo? Nem sempre. Extras nos mostra uma população que parece retomar padrões e hábitos de seus ancestrais em uma espécie de ciclo contínuo e circular, ainda que esteja inserida em um mundo bem mais avançado. Muitas vezes, o lidar com tais avanços é mais relevante do que a simples disponibilidade deles.

Quando uma pessoa conta a mesma história várias vezes, fica mais fácil continuar acreditando nela.


Apesar de bem retratados e adequados ao contexto, os personagens não possuem a força dos protagonistas dos três volumes anteriores da série. Ainda, alguns elementos da trama são bastante dispensáveis, como a historinha Aya-Frizz, por exemplo. Para os mais nostálgicos, Tally, Shay e companhia aparecem na trama, algo do tipo “participação especial”, mas adianto que não é nada que vá matar as saudades das aventuras encerradas com Especiais.

Recomendo a leitura pelo tema e pela narrativa incansável de Scott Westerfeld. Apesar de não ser imperativo ter lido os volumes anteriores da série, alguns conceitos abordados nos outros livros podem acabar parecendo superficiais em Extras. Logo, é sempre mais interessante ler toda a série - e garanto que não se arrependerão!

Título: Extras
Título original: Extras
Autor(a): Scott Westerfeld
Editora: Galera Record
Edição: 2012
Ano da obra: 2007
Páginas: 416

25 de agosto de 2011

Amores Infernais [vários]


5 contos (de diferentes autores) que abordam o amor adolescente de maneira a fugir um pouco da “receitinha de bolo” palavras melosas+suspiros+final feliz.
Amores Infernais traz uma leitura razoável (ou seja, até dá para distrair...), porém acho válido frisar que é bem voltado aos leitores adolescentes.

O que me deixou mais curiosa em relação a este livro foi a presença de Scott Westerfeld entre os autores. Como apreciadora da série Feios, nutri considerável expectativa em relação ao conto dele em Amores Infernais. E, de fato, Abominável mundo perfeito foi um dos contos de que mais gostei no livro. O aspecto futurista esteve em cena novamente e a originalidade da história merece destaque.
O outro conto que divide o posto de “meu preferido” (e que, junto ao anterior, “salva” o livro) é Mais ralo que água, de Justine Larbalestier – esposa de Scott Westerfeld. O conto me atraiu por ser trágico e delicado, e por envolver essa ideia de uma aldeia “parada no tempo”, costumes e crenças antigas em contraponto com o mundo atual (e o conflito que isso gera na vida dos jovens daquele lugar).

Os outros três contos, em minha opinião, não têm nada de especial e nem de muito novo. Trazem o sobrenatural (tema já tão batido hoje) em histórias que muito provavelmente serão esquecidas pelos leitores algum tempo depois de terminarem o livro. Talvez Perdido de amor seja mais curioso em relação aos outros dois, mas não é muito mais que isso, curioso. Fan fic foi o que menos gostei por achá-lo extremamente óbvio.

Como disse antes, fica o tempo todo muito claro que Amores Infernais visa o público adolescente. Os contos, de maneira geral, são muito teen. Além da forte presença do ambiente escolar, há sempre aquela “preocupação” em não deixar que o amor atrapalhe os estudos e o futuro profissional. Achei isto até exagerado, como se o objetivo fosse passar uma imagem do que é considerado correto e influenciar positivamente os leitores.

O livro não é de todo péssimo, já que é de fácil leitura e pode ser uma boa distração – na falta de opção. Também é caprichadinho no quesito capa e interior, gostei disso. Não chego a recomendar a leitura, exceto, talvez, para o público pré-adolescente (ou para quem estiver curioso em relação ao conto de Scott Westerfeld).

Título: Amores Infernais
Título original: Love is Hell
Autor(a): Laurie Faria Stolarz, Scott Westerfeld, Justine Larbalestier, Gabrielle Zevin, Melissa Marr
Editora: Galera Record
Edição: 2011
Ano da obra / Copyright: 2008

3 de julho de 2011

Especiais [Scott Westerfeld]

Primeiramente, agradeço a Galera Record pelo exemplar de Especiais! E aproveito para dizer que muito em breve haverá sorteio aqui no blog! Fiquem ligados! =P


Tally agora é praticamente uma arma letal, com reflexos ultrarrápidos, dentes e unhas afiados e uma beleza cruel. Mas o mais importante de tudo é que ela passa a ver e sentir o mundo de uma maneira diferente, de uma maneira sagaz. Agora tudo está muito claro em sua mente, e nenhuma emoção perfeita atrapalha sua concentração – ou pelo menos não deveria...
Tudo passa a depender de uma decisão: escutar um último e fraco suspiro de seu coração ou seguir seus instintos e dar continuidade à missão para qual foi treinada. De uma maneira ou de outra, Tally vai mudar para sempre seu destino e, como de costume, vai provar que não é como os outros.

Depois de Feios e Perfeitos, Especiais conclui a trajetória de Tally Youngblood (ainda que Extras seja o último volume, parece que ele não traz Tally como protagonista). E, como aconteceu com os dois livros anteriores, é praticamente impossível largar esse aqui antes de chegar ao final.

Desde Feios, Tally começou uma revolução que não pode ser ignorada ou simplesmente abandonada, e isso requer certa maturidade de sua parte.

Maturidade é uma palavra que se encaixa muito bem no contexto do livro. Ao longo da leitura, é possível perceber um amadurecimento gradativo de Tally perante tudo o que acontece ao seu redor. Ela se percebe frente a frente com tudo o que conseguiu alcançar com sua ousadia, todas as mudanças no mundo e escolhas que precisa fazer.

A narrativa de Scott Westerfeld continua deliciosa, e o enredo, surpreendente. Mais uma vez, o texto nos instiga a fazer uma série de questionamentos, a analisar mais a fundo certos conceitos que já vinham sendo desenvolvidos nos outros dois livros. Um deles é a liberdade; até que ponto os seres humanos sabem lidar com ela? Percebemos que aqui, liberdade pode significar uma tendência a retornar a padrões antigos dos Enferrujados, e que a fronteira entre progresso e retrocesso é frágil e – por que não? – repleta de falhas.

Especiais nos leva a conhecer um pouco mais da tão temida Circunstâncias Especiais e o papel que ela representa. Ao ser dominado pelo sentimento de superioridade e ao considerar medíocre tudo (e todos) que não esteja à altura de si, a figura de um Especial retrata o ser humano em sua essência (claro que de forma mais exagerada). Afinal sabemos que o egocentrismo e a necessidade de dominação são aspectos inatos do homem (e dos animais como um todo).

O interessante é que, se olharmos mais de perto os Perfeitos, os Especiais, os Enfumaçados, os aldeões das tribos, percebemos que cada um deles apresenta determinado aspecto do ser humano em demasia e ausência completa de outros aspectos. E concluímos que, ao que parece, os Feios são o grupo que une todos os aspectos de maneira mais equilibrada (ainda que expostos a tantas influências exercidas pelos outros grupos), fato que os tornaria quem sabe até mais poderosos que os demais.

Para não dizer que nada no enredo me irritou, muitas vezes me vi achando um saco a atitude de Tally em relação a Shay (“sim, chefe; não, chefe”). Mas isso também não deixa de ser um indício do crescimento interno de Tally, uma vez que reconhece alguém que em dada situação é mais experiente e, portanto, merece ser ouvido.

Já me alonguei muito nesse texto, e a conclusão não poderia ser mais óbvia: Especiais (assim como todos os livros da série) merece ser lido com entusiasmo e ser motivo de reflexão e revisão de conceitos. Recomendadíssimo em absoluto!

Título: Especiais
Título original: Specials
Autor(a): Scott Westerfeld
Editora: Galera Record
Edição: 2011
Copyright original: 2006

LEIA A RESENHA DE FEIOS
LEIA A RESENHA DE PERFEITOS

12 de abril de 2011

Perfeitos - "Uma narrativa de tirar o fôlego" (Booklist)

Finalmente, Tally é perfeita. A cirurgia foi um sucesso, sua vida em Nova Perfeição é ótima e a fama de feia rebelde fez dela uma celebridade! Mas, quando ela não consegue ver nenhum defeito em sua nova fase, um enfumaçado aparece e faz com que Tally se lembre de tudo...
Agora, Tally terá de enfrentar seu maior desafio e entender que, no mundo de Feios, nem sempre a aparência condiz com a realidade.

Se Feios é um livro e tanto e acaba deixando todos os leitores se mordendo de curiosidade, Perfeitos não fica atrás! O livro começa já em um ritmo acelerado, aumentando gradativamente ao longo da leitura. “Eletrizante” (ou, por que não “borbulhante”?) é a palavra ideal para defini-lo!

O que acontece quando ser perfeito não basta?
Durante toda a narrativa, o livro trata de responder a pergunta acima, criando conflitos que envolvem o leitor e dão margem a reflexões, tal qual seu antecessor. Confesso que é bastante difícil resenhar Perfeitos sem cair nos malditos spoilers, o que fará desta resenha um pouco “incompleta”, a meu ver.

Ao considerar tudo em seu estado mais perfeito, a única “preocupação” existente em Nova Perfeição são as inúmeras e badaladas festas, os artifícios um tanto bizarros para adornar a própria fisionomia, as cirurgias desnecessárias e com fins unicamente estéticos, as 1001 estripulias para fazer com que a sensação “borbulhante” se prolongue... Quando os habitantes de Nova Perfeição tanto se assemelham à nossa sociedade em seu aspecto de acomodamento perante o mundo e perante eles mesmos, Tally é o outro lado disso tudo, é o “olho” que consegue verdadeiramente enxergar o que se passa, a verdade além das aparências. Sim, Tally agora é perfeita, mas isso não quer dizer que tenha perdido sua essência de feia. Tally questiona e, com isso, nos faz questionar. Há momentos, inclusive, em que nos perguntamos se o que é tido como “melhor” é realmente o melhor. Um exemplo é uma conversa entre a Dra. Cable e Tally, em que a primeira explica à segunda as razões pelas quais a sociedade em Nova Perfeição é “melhor” em relação aos Enferrujados e aos Enfumaçados. Ao ler o trecho abaixo, é inevitável não nos desenvolvermos uma série de questões em nossas próprias cabeças (e inclusive percebermos que há certa verdade nas palavras da Dra. Cable):

Nós estamos sob controle, Tally, graças à operação. Largados à própria sorte, os seres humanos são uma praga. Eles se multiplicam sem controle, consomem todos os recursos naturais, destroem tudo em que botam as mãos. Sem a operação, os seres humanos sempre se tornam Enferrujados.
- Na Fumaça isso não acontece.
- Pare para pensar, Tally. Os Enfumaçados desmatavam suas terras, matavam animais para comer. Quando chegamos, eles estavam queimando árvores.
- Não eram muitas.
- E se existissem milhões de Enfumaçados? Bilhões deles, num curto espaço de tempo? Fora das nossas cidades controladas, a humanidade é uma doença, um câncer num corpo chamado mundo. (...)

Este é um ponto muito positivo desse livro, e da série como um todo: o de trazer à tona temas que muito dizem sobre o mundo e a sociedade em que atualmente estamos inseridos, e assim provocar questionamentos da parte dos leitores. Ressalto, ainda, que o livro fala a um público amplo, que vai desde os pré-adolescentes (se é que este termo ainda pode ser considerado hoje em dia) até os jovens adultos (principalmente, mas não necessariamente detendo-se neles), com uma linguagem simples e um enredo suficientemente maduro para agradar a toda essa faixa. Fazer com que tais tipos de reflexões e ideias entrem em ebulição na cabeça dos mais jovens é realmente um ponto mais que positivo e que não pode passar despercebido, principalmente em tempos em que Big Brother é tido como entretenimento – e tem audiência.

O livro revela algumas surpresas, achados que não comentarei para não estragar leituras ainda não começadas ou concluídas (apesar de que acho difícil que alguém que visita o blog ainda não tenha lido Perfeitos, mas ainda assim...).

Os conflitos e a confusão de sentimentos que atingem a protagonista é algo interessante – e angustiante. A culpa que carrega por se considerar a causa da queda da Fumaça, os sentimentos por Zane e David, a amizade conflituosa e cheia de mágoas com Shay, a tal da “cura”. E mesmo em um turbilhão de acontecimentos, a força de Tally se destaca. Mesmo sendo parte de um grupo de jovens com ideais semelhantes, nos deparamos com a desistência de Péris em determinado momento, provando que sair da zona de conforto requer força e determinação, principalmente quando se vive em um mundinho perfeito (e egocêntrico), onde não há motivação para lutar por um ideal maior que o próprio indivíduo.

Perfeitos é um livro para se deliciar do começo ao fim (e para querer morrer de curiosidade novamente em relação à continuação). Para pensar, para torcer pelos planos de Tally e seus amigos e, quem sabe, para nos curarmos nós mesmos desta capa que nos cobre os olhos e nos impede de enxergar o que realmente importa.

Título: Perfeitos
Autor(a): Scott Westerfeld
Publicação original: 2005


LEIA A RESENHA DE FEIOS
LEIA A RESENHA DE ESPECIAIS

6 de maio de 2010

Feios

FEIOS me chamou a atenção, primeiramente, pelo título. Postei anteriormente a sinopse aqui no blog, mas não aguentei de curiosidade e tive que encaixar o livro na minha fila de leitura – furando a fila, diga-se de passagem. Eu sei, a resenha está imensa; os pensamentos começam a surgir e as palavras borbulham, é difícil controlar! Por isso, agradeço desde já quem tiver a paciência de ler até o fim!

Tally Youngblood é feia. Não, isso não significa que ela seja alguma aberração da natureza. Não. Ela simplesmente ainda não completou 16 anos. Em Vila Feia, os adolescentes ficam presos em alojamentos até o aniversário de 16 anos, quando recebem um grande presente do governo: uma operação plástica como nunca vista antes na história da humanidade. Suas feições são corrigidas à perfeição; a pele é trocada por outra, sem imperfeições ou – nem pense nisso – espinhas; seus ossos são substituídos por uma liga artificial, mais leve e resistente; os olhos se tornam grandes; e os lábios, cheios e volumosos. Em suma, aos 16 anos todos ficam perfeitos.
Tally mal pode esperar pelo seu aniversário. Depois da operação, vai finalmente deixar Vila Feia e se mudar para Nova Perfeição, onde os perfeitos vivem e se divertem (o tempo todo).
Uma noite, ela conhece Shay, uma feia que não está nem um pouco ansiosa para completar 16 anos. Pelo contrário: Shay pretende fugir dos limites da cidade para ir viver na Fumaça, um grupo/comunidade de fugitivos, e sobreviver retirando seu sustento da natureza.
Para Tally, isso é uma maluquice. Quem iria querer ficar feio para sempre ou se arriscaria a voltar para a natureza e queimar árvores para se aquecer, em vez de viver com conforto em Nova Perfeição e se divertir à beça? Mas, quando sua amiga desaparece, os Especiais, autoridade máxima desse novo mundo, propõem um acordo a Tally: se unir a eles contra os Enfumaçados ou ficar feia para sempre. A escolha de Tally irá mudar o mundo ao seu redor, mas, principalmente, ela mesma.

Confesso que as primeiras páginas não foram tão interessantes e animadoras quanto eu esperava. Até cheguei a ter a sensação de que seria tudo “adolescente demais”. Realmente me pareceu um livro mais voltado a adolescentes, mas não é nem um pouco restrito a esse público. Conforme ia avançando na leitura, a história ganhava mais corpo e me atraía mais.

O cenário é futurista e nos deparamos com objetos inimagináveis, como anéis de interface e pranchas voadoras, permitindo que a imaginação voe alto ao ler cada linha. Algumas passagens, no entanto, podem parecer um pouco confusas. Refiro-me aos acontecimentos durante as viagens dos personagens, que algumas vezes mostram-se meio difíceis de serem imaginados, dando a sensação de que a imagem que fazemos não é exatamente o que o autor quis dizer com a respectiva descrição. Mas são só detalhes, nada que atrapalhe a leitura. Aliás, devo dizer que a leitura é bem simplificada e nada cansativa; o mundo no qual os personagens estão inseridos é acompanhado por explicações simples e coerentes acerca do funcionamento das coisas.

Gostei dos personagens principais, porém fiquei com a sensação de que a trama não me permitiu que os conhecesse muito bem. Não sei se foi só uma sensação, mas senti que faltou algo em relação a eles, talvez sentimentos e pensamentos mais elaborados, não sei. Algumas coisas que pensei a princípio depois se mostraram errôneas, e ao final não consegui formar uma opinião concreta a respeito de cada um deles. Imagino que nos próximos volumes da série haverá mais da essência dos personagens. Mas este foi só um comentário bem particular, não se trata exatamente de um ponto negativo, foi uma impressão que tive e não sei se é provável que mais alguém compartilhe dela.

melhor característica do livro, a cereja do bolo, são as reflexões que ele provoca e as múltiplas questões que ele desperta. Até que ponto a evolução realmente significa evolução? Por um lado, o evoluído mundo mostrado no livro é altamente sustentável, as necessidades parecem ser sempre satisfeitas, e não há motivo aparente para guerras, desentendimentos ou sentimentos medíocres. Apesar de tantas vantagens, tudo se torna obsoleto com imensa facilidade, desde os mais simples objetos até sentimentos e relações, e inclusive as próprias pessoas. Se algo não tem mais utilidade, é descartado. O desapego é tanto que as pessoas não se importam em perder seus traços de nascença, se isso lhes garantir a perfeição. Auto-estima é algo inexistente e, sem possuir uma base sólida, construída através de valores e confiança, as pessoas passam a apoiar-se no status, na aparência, no “ter” na pele de um falso “ser”. E será que tudo isso está só nas páginas do livro?

Outro ponto interessante que podemos notar (e pensar sobre) é a questão da alienação. Em um pequeno diálogo entre Tally e Shay, isso é bem evidente:
– É tudo tão grandioso – murmurou Tally.
– É isso que ninguém percebe lá de dentro – disse Shay. – Como a cidade é pequena. Como eles têm de manter a pequenez de todos para que permaneçam presos.
Os perfeitos (e os feios na ansiosa espera por tornarem-se perfeitos) são manipulados de forma a acreditar que só existe um modo de vida – perfeito, por sinal –, e que não há nada diferente daquilo que conhecem. O mundo se restringe aos limites do que é conhecido por eles. E quando há alienação não há poder de escolha; a existência de possíveis opções é ignorada por todo mundo, ou quase. Pensando nisso, é possível comparar Feios com o filme A Vila, guardadas as devidas proporções. No filme dirigido por M. Night Shyamalan, uma comunidade vive isolada, com seus costumes, tradições, hierarquias e um modo de vida um tanto ultrapassado. Um pequeno grupo representa a autoridade máxima lá dentro, criando artifícios baseados no medo para que a comunidade e o modo de vida sejam intocados, ocultando de todos os habitantes (portanto, mantendo-os alienados) o fato de que fora da comunidade existe um mundo muito mais avançado, uma realidade totalmente diferente da vivida por eles. Essa comunidade do filme parece estar em uma época distante (tipo séculos passados) e ignora completamente que, na verdade, está inserida em um mundo como o atual.

Também é possível perceber em Feios alguma semelhança com o Mito/Alegoria da Caverna , de Platão, que conta mais ou menos o seguinte:
Existem alguns prisioneiros em uma caverna, acorrentados nela desde o seu nascimento. Eles estão presos de tal forma que tudo o que enxergam são sombras projetadas na parede diante deles. As sombras são reflexo de uma fogueira localizada atrás, na parte superior. Como tudo o que os prisioneiros conhecem são as sombras, eles acham que aquela é toda a realidade que existe. Um dos prisioneiros consegue se soltar e sair da caverna. Fica encantado com a realidade, percebendo que foi iludido completamente pelos seus sentidos dentro da caverna. Agora ele estava diante das coisas em si, e não de suas sombras. Diante do conhecimento, retornou à caverna e contou para os demais prisioneiros o que havia visto. Eles não acreditaram, e preferiram continuar na caverna, vendo e acreditando que o mundo é feito de sombras.
O Mito da Caverna é uma metáfora da condição humana perante o mundo. E aí entra a questão da essência X aparência. Em um resumo bem esdrúxulo, a realidade estaria no mundo das ideias (essência), porém a maioria dos indivíduos vive na ignorância, no mundo ilusório das coisas sensíveis (aparência), das imagens. Desta forma, as coisas que nos chegam através dos sentidos (tato, visão, audição, etc), são apenas as sombras das ideias. Quem estiver preso apenas ao conhecimento das coisas sensíveis não poderá alcançar o mundo das ideias (conhecimento inteligível). No livro, Tally e Shay conseguem sair da “caverna”, representada pela crença de que a vida em Nova Perfeição é a única realidade existente. E então surgem em nós, leitores, as perguntas: “o que fazer com a nova realidade descoberta? Como ‘abrir os olhos’ dos demais?”.

O livro também nos faz questionar sobre até que ponto as autoridades são absolutas e podem/devem interferir nas escolhas de cada indivíduo. A questão da manipulação... E os padrões impostos por meios externos (a mídia, por exemplo)... E a sociedade de massa... E a ideia de sermos observados todo o tempo... Etc, etc... Enfim, o livro dá margem a discussões variadas e consegue exitosamente unir entretenimento e reflexões mais profundas de forma simples e leve. Feios é para os leitores que querem ir além, enxergar o que está implícito na trama, fazer comparações e questionamentos; mas Feios também é para os que desejam apenas uma leitura descompromissada, leve e divertida. É um livro que pode ser lido e encarado de formas distintas. Inclusive, comparam-no a 1984, de George Orwell; embora ainda não o tenha lido, achei interessante a comparação.

Feios certamente fará com que os leitores fiquem instigados a ler o próximo livro da série (a menos que o leitor não tenha gostado mesmo do livro). Seja pelas tantas questões que parecem ser deixadas em aberto acerca da própria trama e dos personagens, seja pelo final que “não parece um final” (e confesso que deu uma raivinha por ter terminado justo naquela hora)... A história não é concluída neste primeiro volume, o que pode ser um tanto frustrante, mas, nesse caso, só nos resta esperar pelo próximo livro da série.

Título: Feios
Autor(a): Scott Westerfeld
Publicação original: 2005

LEIA A RESENHA DE PERFEITOS
LEIA A RESENHA DE ESPECIAIS

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