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10 de fevereiro de 2012

Resposta Certa [David Nicholls]

Primeiramente, aviso que li a edição portuguesa do livro, intitulada Uma Questão de Atração. Este foi o primeiro livro de David Nicholls, mas começou a ganhar a atenção das editoras estrangeiras somente após o sucesso estrondoso de Um Dia. Ele ainda não foi lançado no Brasil, porém vi que ele está entre os lançamentos de 2012 da Intrínseca. Atualizando: ele já foi lançado no Brasil e aproveitei para atualizar o post com a capa e o título brasileiros.


Década de 80. Brian Jackson é o típico nerd, além de ser fã de Kate Bush e de gostar de jogar Scrabble. Ao ingressar na universidade, em meio a todas as mudanças que isso acarreta em sua vida, ele se depara com a possibilidade de participar do Desafio Universitário*, um famoso concurso de TV (uma espécie de disputa entre universidades, em que seus alunos mais brilhantes devem responder a questões dos mais variados tipos). Mas não é só isso. Brian apaixona-se por Alice Harbinson, aspirante a atriz e bastante disputada entre os garotos da faculdade. Apesar dos obstáculos, Brian tentará de tudo para conquistá-la.

*University Challenge, concurso televisivo muito célebre na Inglaterra nos anos 80.

Como prometem os testemunhos na capa e contracapa portuguesas, o livro é realmente hilário e difícil de largar antes de chegar ao fim. E isto se deve, em minha opinião, não somente ao enredo em si, mas aos personagens. Estes são realmente peculiares!

Capa portuguesa
A narrativa é muito fluida, é o tipo de leitura em que a gente não vê as horas passarem enquanto lê. Repleto de situações cômicas, Resposta Certa pode até não ser um livro inesquecível, mas vai certamente divertir. Acredito que o fato de Nicholls escrever também para TV e cinema faz com que sua narrativa tenha ritmo e que seus personagens sejam naturalmente marcantes.

Não posso não falar do protagonista, Brian Jackson. Céus, acho que nunca me deparei com um personagem tão deslocado e desajeitado como ele! É o tipo de garoto que sempre mete os pés pelas mãos, que fala as coisas erradas nas horas mais erradas ainda. Enfim, vi nele uma enorme falta de senso de oportunidade. Inclusive, foram vários os momentos em que o personagem me fez sentir “vergonha alheia” – e este não é um sentimento tão frequente em mim, quando se trata de livros. Porém por vezes é possível compreender esse jeito do personagem. E adiciono que o achei até fofo em alguns momentos.
Garoto Nota 10 tem roteiro
do próprio David Nicholls
Quanto aos demais personagens, no geral são bem caracterizados (diria até caricatos, o que deixa tudo mais engraçado) e explorados na história. Merece destaque a personagem Rebecca Epstein, toda rebelde e politizada. Já Alice, bom, ela é a típica vadia, sem mais.

Detalhe interessante: no início de cada capítulo tem uma “pergunta e resposta” no estilo do que seria o Desafio. E o interessante é que, de alguma forma, essa pergunta tem qualquer relação com o respectivo capítulo.

A comparação com Um Dia é inevitável, até porque foi o primeiro livro do autor que a maioria (senão todo mundo) leu. E, claro, Um Dia é um livro e tanto. Resposta Certa não envolve tanto o leitor quanto Um Dia, mas também é uma ótima leitura. Sugiro não colocar altas expectativas, mas ainda assim recomendo fortemente o livro.


Curiosidade: existe um filme baseado no livro, cujo roteiro foi escrito pelo próprio David Nicholls. O filme, de 2006, leva o mesmo título do livro (no Brasil chama-se Garoto Nota 10) e a direção é de Tom Vaughan.

Título: Resposta Certa
Título original: Starter for Ten
Autor(a): David Nicholls
Editora: Intrínseca
Edição: 2012
Ano da obra: 2003
Páginas: 352

27 de novembro de 2011

O Escafandro e a Borboleta [Jean-Dominique Bauby]


Em 8 de dezembro de 1995, um acidente vascular cerebral mergulhou brutalmente Jean-Dominique Bauby em coma profundo. Ao sair dele, todas as suas funções motoras estavam deterioradas. Atingido por aquilo que a medicina chama de “locked-in syndrome” (literalmente, trancado no interior de si mesmo), ele não podia mexer-se, comer, falar e nem mesmo respirar sem a ajuda de aparelhos. Em seu corpo inerte, só um olho se mexia. Esse olho – o esquerdo – é o vínculo que ele tem com o mundo, com os outros, com a vida. Com esse olho, ele pisca uma vez para dizer “sim”, duas para dizer “não”. Com esse olho, ele chama a atenção de seu visitante para as letras do alfabeto que lhe são ditadas, formando assim palavras, frases, páginas inteiras... Com esse olho, ele escreveu este livro: todas as manhãs, durante semanas, foi memorizando as páginas antes de ditá-las e de corrigi-las, depois.
Do interior da bolha de vidro de seu escafandro, onde voam borboletas, ele nos envia cartões-postais de um mundo que só podemos imaginar. Quando só restam palavras, nenhuma palavra é demais.
Jean-Dominique Bauby nasceu em 1952. Jornalista, tinha dois filhos e era redator-chefe da revista Elle francesa. Faleceu dez dias depois da publicação do livro, em 1997.

Desde que vi o filme, de mesmo título e dirigido por Julian Schnabel (2007), tive uma vontade louca de ler o livro. E não me arrependi.

Cartaz do filme - imperdível
Apesar do contexto trágico em que foi escrito, O Escafandro e a Borboleta não é um livro para se debulhar em lágrimas – pelo menos, isso não aconteceu comigo. A partir da condição do autor e de suas narrações a respeito do cotidiano visto de dentro do seu escafandro, somos inseridos em um rico processo de auto-reflexão. Narrado em primeira pessoa, o livro traz uma grande lição de vida embutida nas entrelinhas. Contudo, ao contrário do que muitos possam vir a pensar, não chega nem perto do piegas e não contém excessos de sentimentalismo.

Uma característica interessante é que os capítulos são meio que “independentes” entre si; em cada um deles (que, em muitos momentos, assemelham-se a crônicas), um aspecto diferente é abordado sob a ótica – genial, eu diria – do autor. Desta forma, a leitura não se aproxima, em nenhum momento, do tédio e não tem enrolações de nenhuma espécie. Mesmo em um contexto denso e considerando seu triste estado, Jean-Do tem um senso de humor incrível. Por vezes, utiliza da ironia e do sarcasmo, revestindo seu sofrimento em uma roupagem mais “leve”. Ainda assim, nunca deixamos de notar que o desespero existe e é grande. Importante: o livro não é uma biografia (apesar de eu ter colocado "biografia" como uma das tags, simplesmente por seu fator real), porém tudo o que lemos é real e foi escrito pelo próprio Jean-Dominique, orientando-se pelo alfabeto ditado e usando seu olho para indicar as letras.

Para terminar, O Escafandro e a Borboleta é realmente uma daquelas obras que, em algum momento da vida, todo mundo deveria ler.

Título: O Escafandro e a Borboleta
Título original: Le Scaphandre et le Papillon
Autor(a): Jean-Dominique Bauby
Editora: Martins Fontes
Edição: 2009
Ano da obra: 1997

4 de novembro de 2011

O Bigode [Emmanuel Carrère]



Em uma manhã qualquer, um homem decide raspar o bigode que ele vinha usando há 10 anos. Com ato tão simples pretende mudar um pouco, surpreender a mulher, os amigos. Porém ninguém percebe a mudança; afirmam, ainda, que ele jamais usou bigode. Ele começa, então, a recolher provas da existência do bigode, dando início a questionamentos e confusão, que nos fazem caminhar da realidade ao delírio sem saber de qual lado ficar.

Estamos diante de uma obra, no mínimo, intrigante. O Bigode, de Emmanuel Carrère, nos mostra um protagonista muito bem elaborado, porém, e por conta do próprio enredo, há a constante sensação de ausência da última peça de um quebra-cabeça. E é daí que vem o ponto alto do livro: o leitor não consegue desgrudar das páginas, tomado pela ânsia de entender o que se passa com o ex-bigodudo e o mundo ao redor dele.

O leitor é arrastado pelo redemoinho psicológico que envolve a trama. As questões são muitas, e colocamos à prova – junto com o protagonista – a veracidade dos fatos e a integridade psicológica dos personagens. Inclusive não descartamos a possibilidade de alguma conspiração contra nosso pobre protagonista.

O livro é narrado em terceira pessoa, mas sempre através do olhar do protagonista; é como se tudo nos fosse contado sob a perspectiva do personagem central – há momentos em que nos sentimos dentro de sua mente, inclusive. Os demais personagens têm seu papel no enredo, mas nada tão crucial. Agnes, a mulher do protagonista, tem algum destaque na trama, mas ainda assim, tudo – e todos – gira em torno do grande conflito que envolve o personagem principal, o homem que raspou o bigode.

A leitura é super fluida e o livro tem um ritmo acelerado. O aspecto psicológico (questionamentos, hipóteses perante os fatos) domina a narrativa. Merecem destaque as descrições presentes no livro, cruas e diretas, porém absolutamente carregadas de força, ou ainda demonstrando uma calmaria singular.

Não posso deixar de mencionar que o mais interessante desta leitura é tentar compreender o que a figura do bigode representa. Muito além de ser apenas um tufo de pelos, o bigode nos remete à identidade do personagem. Indo um pouco além, diria que esta identidade representada pelo bigode está mais próxima de ser aquilo que a sociedade moldou no personagem, um papel que ele representa para que as expectativas da vida cotidiana sejam atendidas. Um papel que todos nós representamos e do qual, muitas vezes, nos tornamos indissociáveis. Raspar o bigode seria mais do que uma simples fuga para o personagem do livro, seria libertar-se das pressões e cobranças – parar de andar conforme o fluxo para recuperar vontade própria e ir de encontro ao indivíduo real por trás do “disfarce” de todos os dias. Notamos, porém, um despreparo interno da parte dele em relação a esta libertação, uma visível impossibilidade de desvincular-se do papel que lhe foi atribuído na sociedade. A partir daí, a confusão mental, o possível delírio, encontra lugar para instalar-se, dada a busca desorientada do personagem por sua própria identidade – a real.

Nem preciso dizer que esta é uma leitura super recomendada. As 140 páginas, que já não são muitas, têm tudo para serem vorazmente devoradas por aqueles que apreciam conflitos e incertezas quanto à realidade – na literatura, claro.

Curiosidade: o livro teve uma adaptação para o cinema feita pelo próprio autor, também cineasta. La Moustache - que leva o mesmo nome do livro - foi premiado no Festival de Cannes de 2005.

Título: O Bigode
Título original: La Moustache
Autor(a): Emmanuel Carrère
Editora: Rocco
Edição: 2002
Ano da obra / Copyright: 1986

4 de outubro de 2011

Bonequinha de Luxo [Truman Capote]

É difícil falar deste livro sem evocar o tão célebre filme de mesmo título (originalmente, Breakfast at Tiffany’s, dirigido por Blake Edwards, 1961), que mostra uma imagem imortalizada de Audrey Hepburn.


A história gira em torno de Holly Golightly, garota vinda do interior para tentar a sorte em Nova York. Encantadoramente fora do convencional em seus hábitos, sua malícia “espevitada” e espontaneidade atraem os mais diversos tipos, em especial o escritor Paul Varjak (a quem ela chama de Fred).
O livro traz também 3 contos do autor: A casa das flores, O violão de diamantes, e Uma recordação de Natal.

Bonequinha de Luxo garante uma leitura muito prazerosa e fluida. É o tipo de livro que mantém o leitor envolvido por horas a fio. Uma pitada de humor, outra de sarcasmo, e mesmo uma pincelada de drama não óbvio, são ingredientes que se mesclam e tornam o livro mesmo especial aos olhos de quem o lê.

Holly é uma personagem única (e indissociável de Audrey Hepburn – quem viu o filme não dará outra cara a Holly que não seja a de Audrey) e naturalmente hilária em seus modos. Aliás, todos os personagens têm algo que os torna um pouco cômicos, mesmo que seja apenas em alguns momentos. Holly traz consigo a imagem da mulher, de certa forma, à frente de seu tempo, tentando sobreviver na realidade hostil de Nova York. Garota de programa, ela utiliza seus relacionamentos de forma a levar a vida como pode.

Capa atual, da
Companhia das Letras
Entre as cenas do filme que encontrei descritas no livro, destaco a parte em que Holly e Paul (ou Fred, como preferirem!) roubam máscaras de uma loja. Porém, adianto que o livro não é idêntico ao filme e, já que a comparação é inevitável, aproveito para dizer: o livro é ótimo, mas o filme me encantou mais – e o principal motivo é, sem dúvidas, Audrey Hepburn (ok, deu para perceber que eu a admiro, mas quem viu este ou outros filmes dela há de concordar comigo que ela é única). Recomendo fortemente o livro, principalmente aos fãs do filme. Aos que se interessarem pela leitura e que não conhecem o filme, leiam o livro e assistam ao filme depois; garanto que não se arrependerão!

Bonequinha de Luxo foi o primeiro livro que li do autor Truman Capote, e foi suficiente para atiçar ainda mais minha curiosidade em relação a seus outros livros.
Quanto aos 3 outros contos presentes no livro, todos trazem personagens bem peculiares, o que me agradou bastante. Uma recordação de Natal merece destaque pela singeleza; uma história delicada e bela.

Para terminar, a edição que li é de 1988, da L&PM. A edição mais atual é da Companhia das Letras, e acredito que inclua os 3 contos também. Sobre a capa, gosto de ambas, mas essa carinha meio retrô – com um toquezinho kitsch até – da antiga me faz preferi-la!

Título: Bonequinha de Luxo
Título original: Breakfast at Tiffany’s
Autor(a): Truman Capote
Editora: L&PM
Edição: 1987-1988
Ano da obra / Copyright: 1958

23 de setembro de 2011

Harry Potter à l’École des Sorciers [J.K. Rowling]

Este review não será como os outros: é totalmente desnecessário dizer algo a respeito da série Harry Potter. Todo mundo conhece, todo mundo já leu, todo mundo sabe muito bem os aspectos positivos e os motivos que nos fazem grandes fãs dos livros de J.K. Rowling.
O post de hoje – dedicado a falar da edição francesa do primeiro livro da série – será, então, totalmente voltado aos estudantes de francês que desejam ler algo para praticar o idioma (e quem estiver pensando em estudar algum outro idioma... empolguem-se com a ideia e aventurem-se no mundo francófono: garanto que ler HP em francês vale a pena! ^^ ).

Então, voilà... Harry Potter à l’École des Sorciers é a edição francesa do nosso Harry Potter e a Pedra Filosofal. Para o nível intermediário-avançado, não é uma leitura que considero difícil. Diria que flui naturalmente, sem grandes problemas. Ainda assim, nos deparamos com palavras com as quais não estamos familiarizados, e nessas horas o dicionário vem bem a calhar (mas não é imperativo, já que é bem possível compreender a maioria destas palavras apenas pelo contexto).

De forma mais concreta, diria que a leitura de Charlie et la Chocolaterie (A Fantástica Fábrica de Chocolate), já resenhado anteriormente, foi mais simplificada se comparada a Harry Potter à l’École des Sorciers. Ainda assim, a diferença de nível está longe de ser gritante. No site da editora Gallimard Jeunesse, o livro aparece como recomendado para crianças a partir de 9 anos de idade.

SINOPSE:
Le jour de ses onze ans, Harry Potter, un orphelin élevé par un oncle et une tanta qui le détestent, voit son existence bouleversée. Un géant vient le chercher pour l’emmener à Poudlard*, une école de sorcellerie ! Voler en balai, jeter des sorts, combattre les trolls : Harry se révèle un sorcier doué. Mais quel est le mystère qui l’entoure ? Et qui est l’effroyable V..., le mage dont personne n’ose prononcer le nom ?

*Na versão francesa, Hogwarts se chama Poudlard, o professor Snape se chama Rogue,... Particularmente, não gostei destas modificações.
Nova capa francesa,
menos infantil

Para complementar: a editora tem um site dedicado ao HP. Glossário, mitos relacionados aos personagens, jogos e papeis de parede, entre outras coisas, podem ser encontrados lá. É uma ferramenta bastante interessante para praticar o francês, ainda mais por estar relacionada ao universo do nosso querido e imortal Harry Potter. Vale a pena conferir:
http://www.harrypotter.gallimard-jeunesse.fr/

Sobre a capa: gosto desse estilo de ilustração mais simples e infantilizada das capas francesas de HP. Ainda, a Gallimard Jeunesse está relançando toda a série com novas capas, mais “adultas”, além de uma caixa para guardar a coleção. Porém preciso dizer... As nossas capas são muito mais lindas! O tipo de papel e o acabamento fosco tornam as capas brasileiras ainda mais atraentes, a meu ver.

Título: Harry Potter à l’École des Sorciers
Título original: Harry Potter and the Philosopher’s Stone
Autor(a): J.K. Rowling
Editora: Gallimard Jeunesse, coleção Folio Junior
Classificação: a partir de 9 anos
Páginas: 322
Edição: 2010
Ano da obra / Copyright: 1997

26 de julho de 2011

Dublinenses [James Joyce]

Primeira obra que leio de James Joyce. Inclusive li que Dublinenses é uma boa pedida para quem quer conhecer um pouco do autor e começar a se aventurar em suas obras. É um livro de leitura mais fácil, ao contrário de Ulisses e Finnegans Wake – tidos como bastante complexos.


Dublinenses foi publicado originalmente em 1914 e consiste em 15 contos que retratam a vida e os habitantes de Dublin, sua cidade natal. Segundo o próprio autor, os contos formam uma espécie de história moral da Irlanda, e são narrados ao leitor através de uma abordagem realista.

Os contos mostram determinados momentos da vida, por exemplo, a juventude e a maturidade, além de proporcionarem um retrato da vida em sociedade, uma crítica de seus costumes. Há forte presença de características morais e comportamentais da Irlanda de então, sendo elas o alcoolismo (isso eu pude ver com meus próprios olhos, é fato: o irlandês gosta de encher a caneca, sim! =P ), o aspecto violento na vida familiar e a rigidez no catolicismo. O nacionalismo é notadamente presente, assim como o ressentimento em relação à Inglaterra. É interessante pontuar que os contos são narrados de maneira a permitir que observemos o que se passa, mas sem “pensar” ou “sentir” por nós, há certa neutralidade.

A leitura é bastante agradável e flui com facilidade. Os personagens são muito humanos, e a narrativa nos leva a embarcar no interior mais íntimo de cada um deles, aspecto que muito me agradou. Situações conflituosas mostram-se presentes em quase todos os contos e é interessante ver como os personagens lutam – ou não – para mudar determinada condição.

Os contos tratam de aspectos do cotidiano, como se observássemos a vida dos personagens durante certo período de tempo. E assim como começam, eles terminam, muitas vezes sem um “desfecho” propriamente dito. Um espelho da própria vida, que continua seguindo seu curso mesmo que nossa observação tenha sido interrompida.

Cada conto me agradou de maneira peculiar. Mas tenho dois deles como meus favoritos: Um caso doloroso e Os mortos (o mais famoso dentre todos do livro).
Divido com vocês um trechinho que chamou minha atenção no conto Um caso doloroso:
Concordaram em romper relações. Todo vínculo, disse ele, é um vínculo para o sofrimento.

Cartaz de Os Vivos e
Os Mortos


Curiosidade: o conto Os mortos teve uma adaptação para o cinema. Trata-se do filme Os Vivos e os Mortos (título original: The Dead), dirigido pelo norte-americano John Huston em 1987. Este foi o último filme do diretor e pai da atriz Anjelica Huston, que nele interpreta o papel de Gretta Conroy.

Gostei muito da leitura de Dublinenses e a recomendo fortemente a quem tiver interesse em conhecer um pouco da obra de James Joyce.





Título: Dublinenses
Título original: Dubliners
Autor(a): James Joyce
Editora: Civilização Brasileira (selo da Editora Record)
Edição: 2006 (11ª)
Ano da obra / Copyright: 1914

15 de junho de 2011

Um Dia [David Nicholls]


Tudo começa em uma sexta-feira, 15 de julho de 1988. Emma Morley e Dexter Mayhew mal se conheceram e a chegada da vida “pós-universidade” parece se encarregar de separá-los. Eis o ponto de partida para uma forte e complicada relação de amizade cheia de altos e baixos, em que os acontecimentos são narrados durante o período de 20 anos, sempre no mesmo dia – 15 de julho – de cada ano.

Devo começar dizendo que estamos diante de um livro magnífico. Um Dia nos presenteia com personagens construídos com excelência, diálogos sagazes e um enredo com o qual é impossível não se envolver. Cada capítulo refere-se ao dia 15 de julho de cada ano (uma estrutura que considerei genial) e isso contribui para que sempre haja “movimento” na história, além de mostrar a ação do tempo sobre a vida e os próprios personagens. Simplesmente não há passagens cansativas, não há marasmo; o livro consegue prender do começo ao fim.

Em primeiro plano temos o relacionamento entre duas pessoas e, de forma paralela, somos mergulhados nas expectativas dos personagens em relação à própria vida. Sucessos, fracassos, desilusões, projetos, motivações, tudo isso permeia cada acontecimento narrado, e como na vida real, esse conjunto torna-se crucial na determinação dos caminhos de cada personagem. Aliás, considero o enredo bastante realista, um retrato de algumas fases da vida em que imagino que todos compartilham muitos dos sentimentos (e frustrações, e convicções,...) narrados. Durante a leitura, enxerguei a mim mesma em muitas partes, sob vários aspectos.

Os personagens são, a meu ver, o ponto mais alto do livro. Dexter é o tipo que demora a amadurecer, que leva a vida no imediatismo, e para quem o que é tangível tem mais valor. Muitas vezes deixa-se dominar pela arrogância e pelo desejo por status. Emma é geniosa, intelectual e de opiniões fortes, e não é exatamente uma pessoa muito fácil de lidar. Pessoalmente, acho o personagem de Emma fascinante em todos os seus aspectos; mesmo quando quer ser chata (e consegue perfeitamente!), ela revela traços de uma personalidade marcante, ainda que a falta de autoconfiança se mostre muito presente e acabe por prejudicá-la em vários momentos.

Um Dia me emocionou bastante (e veja bem, não sou do tipo que se emociona facilmente com livros). Também me “assustou” um pouco ao mostrar como a vida passa tão rápido sem que percebamos – uma verdade à qual normalmente não damos muita atenção no dia-a-dia. Se o que você procura é uma fofa e delicada história de amor e amizade, esse não é o livro mais indicado (ainda que a capa o sugira de maneira irresistível). Mas se você quer algo mais real – tanto para o bem como para o mal –, mas nem por isso menos surpreendente, Um Dia tem tudo para ser aquele livro que vai ficar na sua memória por um bom tempo (e provavelmente vai te fazer pensar e questionar algumas coisas na sua própria vida).

E como todo mundo já deve saber, a versão cinematográfica de Um Dia, dirigido por Lone Scherfig e com Anne Hathaway (adoro ela!) e Jim Sturgess nos papéis principais, tem estreia prevista para julho nos EUA. Não preciso nem comentar que aguardo ansiosamente para conferir essa história na telona!

Título: Um Dia
Autor(a): David Nicholls
Editora: Intrínseca
Edição: 2011
Copyright: 2009

23 de maio de 2011

Charlie et la Chocolaterie / A Fantástica Fábrica de Chocolate

O post de hoje traz um livro com uma história MUITO conhecida por todos, seja pelo próprio livro ou pelas 2 versões cinematográficas dele. Trata-se de A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Roald Dahl. Mas a leitura na qual me baseio ao escrever a resenha é a versão francesa do livro – Charlie et la Chocolaterie – que revela-se também um ótimo material para estudantes de língua francesa.

Mr. Willy Wonka est le plus incroyable inventeur de chocolat de tous les temps. Son usine, la chocolaterie Wonka, doit être un endroit vraiment magique !
L’extraordinaire histoire du jeune Charlie Bucket commence le jour où il gagne l’un des cinq tickets d’or permettant de visiter la mystérieuse fabrique du confiseur. Mais il est bien loin d’imaginer les folles aventures qui l’attendent...

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Ninguém sabia o que acontecia dentro daquela fábrica de chocolate. Tinha gente trabalhando nela, claro, mas ninguém entrava e ninguém saía. Só saiam os doces e os chocolates, bem embrulhadinhos, prontos para serem vendidos. Um dia, os portões da fábrica se abriram para cinco felizardos ganhadores do Cupom Dourado - e o mistério se desvendou.
O leitor é convidado a conhecer o rio de chocolate, a grama de açúcar mentolado, os caramelos de cabelo e mil outras delícias - tudo isso na companhia do incrível Sr. Wonka, o dono da Fantástica Fábrica de Chocolate.


Apesar de ser um livro claramente voltado ao público infanto-juvenil, ele tem tudo para agradar aos adultos também – em especial os que consideram o primeiro filme parte essencial de sua infância.

O livro fala sobre valores e comportamento, tudo muito bem encaixado nas características das personagens infantis que, de tão caricatas, chegam a ser hilárias. Aliás, todas as personagens do livro possuem essa característica caricata (também por tratar-se de um livro infanto-juvenil) e sempre fica muito claro quem é mocinho e quem é vilão. Willy Wonka é uma atração à parte; assim como nos filmes, no livro ele tem algo de levemente sarcástico, alguma malícia não óbvia, mas claro que em nível muito menor do que vemos nas versões cinematográficas. É difícil de saber se o colocamos na coluna dos bonzinhos ou na dos malvados, já que ele tem características de ambas. Eu diria até que ele é o único personagem verdadeiramente adulto (e real) do livro; mesmo os outros adultos (os pais e avós de Charlie e os pais das demais crianças) mostram sinais de uma personalidade mais simplificada, mais simples de ser compreendida.

O texto fácil e claro faz com que o livro possa ser lido em um único dia (pelos mais ávidos e com tempo). Além disso, a edição francesa que li (da Gallimard Jeunesse) traz as ilustrações de Quentin Blake, que ilustrou também outras obras de Roald Dahl. Seus traços simples ganham a simpatia do leitor e proporcionam um aspecto ainda mais lúdico à obra. Um super ponto positivo!

Algo que me surpreendeu um pouco foi perceber que o segundo filme (a formidável versão de Tim Burton, de 2005) é mais fiel ao livro que o primeiro filme, dirigido por Mel Stuart em 1971. Apesar disso, eu sempre preferi o filme antigão, que nos mostra um Willy Wonka muito mais irônico, e por vezes até cruel. Sem falar que os Oompa Loompas da primeira versão e suas musiquinhas são muito mais “cool”.  ;-)

Por falar nas musiquinhas... SIM, elas aparecem no livro!! Achei particularmente genial e, com certeza, é um dos pontos altos do livro.

Em suma, é um livro encantador, divertido e que traz importantes mensagens. Um livro mágico, como só Roald Dahl pode conceber. Penso que todo mundo deveria lê-lo em algum momento da vida.

Sobre a leitura do livro em francês, devo dizer que é excelente para a prática do idioma. Eu o recomendaria principalmente aos estudantes de nível intermediário, que já possuem algum conhecimento dos tempos verbais, para uma leitura mais rica (no site da editora, o livro é indicado à faixa etária dos 9 aos 13 anos). A leitura é simples, e é possível de ser feita mesmo sem o auxílio do dicionário (muitas palavras podem ser perfeitamente compreendidas pelo contexto). Para quem tiver interesse, acredito que o livro possa ser encomendado na Livraria Cultura ou na Saraiva.

Título: Charlie et la Chocolaterie
Autor: Roald Dahl
Editora: Gallimard Jeunesse (www.gallimard-jeunesse.fr)
Edição: 2007


Para alimentar um pouquinho a nostalgia...


Apesar de preferir a versão mais antiga, também gosto bastante da versão de Tim Burton (que, aliás, está entre meus diretores preferidos).


Título: A Fantástica Fábrica de Chocolate
Autor(a): Roald Dahl
Publicação original: 1964

6 de agosto de 2010

Lolita [Vladimir Nabokov]

A mais famosa obra do russo Vladimir Nabokov, Lolita é um best-seller polêmico. Ao menos o era na época de seu lançamento, em 1955. Claro que hoje causa menos impacto, mas a falta de pudor e o aspecto imoral da obra são características impossíveis de ser ignoradas.

O livro nos traz Humbert Humbert (é assim, repetindo mesmo) narrando em primeira pessoa sua obsessão por meninas púberes (entre 8 e 14 anos), às quais ele denomina “ninfetas”. Após uma série de insatisfações na Europa, Humbert, então um homem de meia-idade, muda-se para os EUA, e acaba por hospedar-se na casa de Charlotte Haze. A partir do momento em que conhece a filha de 12 anos de Charlotte, Dolores Haze, Humbert desenvolve uma grande paixão e obsessão pela menina.

O protagonista nos fala abertamente de seu lado pedófilo, de forma até “natural”, o que pode espantar um pouco os desavisados. Mas, ao contrário do que podem pensar, não considero a narrativa como sendo vulgar, e palavras de baixo calão não são utilizadas. A franqueza, essa sim dá as caras em todos os momentos, já que Humbert detalha seus atos, pensamentos e opiniões.

(...) ao longo de toda uma vida de pedofilia, já adquirira uma certa experiência, havendo possuído visualmente incontáveis ninfetas salpicadas de sol nos parques e me espremido, com depravada cautela, nos cantos mais quentes e apinhados de ônibus repletos de escolares.

Em primeira pessoa, Humbert dirige-se ora ao leitor ora ao júri (do crime do qual ele é acusado). É um protagonista com o qual é impossível haver uma identificação da parte dos leitores por razões óbvias, mas ao mesmo tempo é inevitável torcer para que ele fique bem, de alguma forma. Humbert sofre bastante, e é claramente notado algum desvio de ordem psicológica em sua personalidade; suas adoradas ninfetas perceptivelmente representam a menina Annabel por quem Humbert se apaixonou ainda criança, e ele parece buscá-la em cada garota que cruza seu caminho.

Humbert não se sente atraído por mulheres adultas; ainda que reconheça a beleza de algumas, constantemente refere-se a elas de forma repulsiva. Sente também notável aversão por garotas universitárias. No trecho abaixo vemos um exemplo de como ele se refere – de forma um tanto machista, inclusive – às mulheres com quem saía ("satisfazendo" suas necessidades sexuais):
As fêmeas humanas que me era permitido manusear eram apenas agentes paliativos.

Lolita me pareceu uma obra bastante completa, na maior parte do tempo envolta em uma atmosfera densa, mas com direito a pequenas aberturas através das quais o espírito do protagonista parece inundar-se de felicidade – efêmera e um tanto questionável, porém sincera.

Sendo o próprio Humbert quem narra o romance, a personagem de Lolita fica restrita à visão dele. Somente sabemos dela o que Humbert nos conta, e é particularmente interessante como não conseguimos enxergar Lolita como uma “criança” de 12 anos (eu, pelo menos, não consegui). Apesar de ter lá seus momentos infantis, a meu ver, a garota assemelha-se mais a uma adolescente ou jovem adulta que alterna momentos de malícia, rebeldia e inocência conforme suas necessidades e interesses pessoais. Mas isso é o que Humbert nos permite – ou nos direciona – a enxergar. Ele pinta uma Lolita cínica, até interesseira, que mostra aversão a atitudes que sugerem romantismo e que parece brincar com os sentimentos dele o tempo todo. Apesar disso, não descarto a hipótese de Lolita ser apenas uma criança travessa, por vezes confusa com a série de acontecimentos em sua vida durante a puberdade, tendo que lidar com a descoberta do sexo e de sentimentos tão novos na vida de qualquer menina de sua idade. Ao mesmo tempo, acredito que a falta da figura paterna e o aparecimento de Humbert, a princípio como namorado de sua mãe, a faz projetar nele sentimentos que teria por seu pai.

Apesar de finalizarmos a leitura com uma sensação de não conhecermos direito quem é Lolita – não sabemos o que ela pensa nem o que motiva seus atos –, acabamos nos flagrando sensibilizados por um Humbert triste, incompleto e que busca incansavelmente por alguma peça perdida em sua vida.

Lolita é uma obra imperdível, capaz de fazer com que nos deparemos com opiniões e sentimentos conflitantes acerca das personagens e acontecimentos. Não é possível odiar completamente o homem que relata as tantas situações repugnantes do livro, mas de igual forma é impossível defendê-lo. Esse clássico de Nabokov me faz pensar que a relação entre Humbert e Lolita, além de possuidora de peculiar beleza, assemelha-se à vida de uma forma geral: contraditória, difícil de ser julgada, e irremediavelmente incompreendida em sua totalidade.

Em tardes particularmente tropicais, na pegajosa intimidade da sesta, eu gostava de sentir o frescor da poltrona de couro contra minha nudez maciça enquanto a tinha em meu colo. Lá ficava ela, como qualquer criança, a enfiar o dedo no nariz enquanto lia as seções menos exigentes do jornal, tão indiferente a meu êxtase como se estivesse sentada sobre um objeto qualquer – um sapato, uma boneca, o cabo de uma raquete de tênis – e fosse preguiçosa demais para afastá-lo.

Título: Lolita
Autor(a): Vladimir Nabokov
Publicação original: 1955

17 de maio de 2010

Crônica de uma Morte Anunciada

O anúncio da morte de Santiago Nasar marca o início de Crônica de uma Morte Anunciada. Tudo começa com o casamento (sem amor) de Bayardo San Román e Ângela Vicário. Ela, não sendo virgem, é aconselhada por suas amigas a fingir a pureza inexistente, porém acabou não o fazendo e foi devolvida pelo marido na primeira noite. Interrogada pelos irmãos a respeito de quem teria sido o responsável por desvirginá-la, Ângela, sem pensar muito, entrega o nome de Santiago Nasar, e assim acaba por escrever a sentença final do rapaz.

A fim de devolver a honra a sua família, os gêmeos Pedro e Pablo Vicário decidem matar Santiago Nasar com as facas de abater porcos, e o anunciam incansavelmente a cada um que cruza seu caminho, na esperança de que alguém os impeça de cometer o crime. O anúncio da morte provoca preocupação em alguns, mas também descrença em outros e, dentro de poucas horas, toda a comunidade já sabe que matarão Santiago Nasar, com exceção dele próprio. No entanto, ainda que todos soubessem da desgraça que ocorreria, ninguém realmente impediu a morte.

Apesar de conhecermos a trágica sentença de Santiago Nasar logo na primeira página de Crônica de uma Morte Anunciada, a narrativa é tão instigante que torna impossível largar o livro antes de chegar ao final. Os acontecimentos são contados com uma velocidade feroz – assemelhando-se a uma produção jornalística – por um narrador que deseja desvendar a história juntando as peças de um quebra-cabeça. Ele colhe depoimentos das pessoas da comunidade e, tal como ocorre em uma investigação, existe a divergência. Muitos se lembravam do dia como uma “manhã radiante”, já outros insistiam no tempo ruim e céu sombrio.

Desde o momento em que Ângela Vicário nos revela o nome de Santiago como sendo aquele que a desvirginara, o narrador carrega a dúvida (e nós, leitores, também) sobre se Santiago seria mesmo o autor do ato ou se, culpando-o, Ângela na verdade encobria o nome de um possível amante. Os infelizes acontecimentos ecoaram por muitos anos na vida de Bayardo San Román e Ângela Vicário, fazendo-se presentes em forma de solidão; mas, também, acabaram por revelar para ambos uma luz no fim do túnel.

O momento em que os gêmeos Vicário matam Santiago Nasar é realmente singular, mas não vou revelá-lo por completo, de chofre, aos possíveis futuros leitores do livro. Assim, atenho-me a destacar o momento em que Pablo Vicário lhe deu uma facada no ventre e “os intestinos completos afloraram como uma explosão”. Alucinado, Santiago Nasar caminha “amparando com as mãos as vísceras penduradas” e, ao ser perguntado sobre o que lhe havia passado, ele apenas responde: “Me mataram (...)”.

É interessante como a obra nos mostra preconceitos e comportamentos demasiado arcaicos (se pensarmos nos dias de hoje) tão cravados na comunidade que acabam sendo normalmente aceitos, inclusive pelos vitimados, levando a que o crime adquira o papel de consequência irremediável e até necessária. Ao haver tanta gente avisada da morte e curiosa quanto aos últimos momentos de Santiago Nasar, é de admirar que ninguém o tenha visto lá pelos finais de seu trajeto para alertá-lo. Em resposta, o autor nos coloca uma frase, mais como uma reflexão, com a qual finalizo este texto: “A fatalidade nos faz invisíveis”.

Título: Crônica de uma Morte Anunciada
Autor(a): Gabriel García Márquez
Publicação original: 1981

18 de abril de 2010

As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore (Livro 4)

As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore, o último livro da saga, revela-nos uma Camelot e uma Avalon em decadência. Talvez a palavra “decadência” não seja a mais adequada, mas o que podemos perceber é que o mundo mostra-se em constante mudança, nada mais é como antes havia sido, e a velocidade dos acontecimentos intensifica-se mais a cada instante.

Morgana segue agindo conforme a vontade da Deusa, com o objetivo de concluir sua tarefa e, assim, realizar os planos de Viviane. E, ainda, Morgana lamenta não ter agarrado o poder que outrora esteve em suas mãos, o de ter a consciência do rei, tornando-se poderosa por trás do trono a fim de evitar que Artur sofresse toda a influência de Gwenhwyfar. Assim, Morgana faz o que está ao seu alcance para impedir que Artur siga traindo Avalon, ainda que suas escolhas lhe tragam mais sofrimento e angústia. É neste livro que acontece o aparecimento do Graal, fazendo com que tanto nós, leitores, quanto os próprios personagens, não saibamos ao certo se foi um milagre que veio para o bem ou para o mal. A Távola Redonda, repleta com os cavaleiros e companheiros de Artur, acaba por tornar-se uma imagem efêmera que, no decorrer do livro, deixa-nos com sentimentos demasiado nostálgicos.

Apesar de toda a sua beleza, As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore é um livro bastante triste e revelador. Acompanhamos o trágico destino dos personagens e sentimo-nos impotentes, não no sentido de ação, mas sim por afinal concordarmos que não haveria outro caminho a ser tomado.

Algumas passagens dos primeiros capítulos me deixaram um pouco confusa; não conseguia visualizar inteiramente o que o texto propunha. Cheguei inclusive a reler algumas páginas para melhor construir uma imagem mental do que estava sendo narrado. Também, o final de Artur e Gwydion (ou Mordred) deixou a desejar. Já era esperado desde o início que ambos se enfrentariam, mas quando o momento finalmente acontece, é brevemente descrito, sem maiores detalhes. Ainda assim, não acho que esses dois pontos que acabei de mencionar tenham interferido negativamente na obra; apenas deixo-os aqui como mais uma de minhas impressões.

Também devo comentar que neste livro é possível conhecer mais e verdadeiramente a essência dos personagens. Algumas opiniões que construímos no início da saga provavelmente se modificarão. Gwenhwyfar, que logo ganhou meu desagrado e antipatia, revela-se aqui uma mulher forte e admirável, apesar de seu fanatismo como cristã – me revolta a forma como ela se culpa e se pune por tudo! Artur é, de verdade, um homem nobre e digno de ser amado até seus dias finais. De Morgause, conhecida por sua extrema ambição, nos é mostrado seu lado mais perverso, e chego a me perguntar se algum dia realmente amou alguém em sua vida. Morgana é esplêndida, tanto em suas qualidades como em seus defeitos, e é a personagem que mais admirei em toda a obra.

Ao ler o primeiro volume eu já suspeitava que esta seria uma obra inesquecível para mim. Agora tenho definitiva certeza! A obra me encantou de tal forma que já a considero uma de minhas leituras preferidas e que mais me marcaram. Recomendo-a a todos e que se deixem envolver pelo universo místico de Avalon e Camelot. Certamente não irão se arrepender!

Título: As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore (Livro 4)
Autor(a): Marion Zimmer Bradley
Publicação original: 1982

LEIA TAMBÉM:
As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia (Livro 1)
As Brumas de Avalon – A Grande Rainha (Livro 2)
As Brumas de Avalon – O Gamo-Rei (Livro 3)

15 de abril de 2010

Alice no País das Maravilhas / Através do Espelho e o que Alice Encontrou Por Lá

Apesar de ter considerado Alice no País das Maravilhas (Walt Disney) como um dos meus filmes preferidos quando criança (e até hoje sigo gostando!), nunca havia lido a obra original de Lewis Carroll. E agora que a li, posso dizer que me causou um impacto bastante positivo.

Neste livro, na verdade, estão as duas histórias protagonizadas por Alice: Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice Encontrou Por Lá. Nonsense e surreal são duas palavras que, de fato, definem a obra. Vemos em Alice uma menina corajosa, inteligente e racional, a quem as coisas mais fantásticas simplesmente vão acontecendo, sem muita lógica nem explicação. Uma atmosfera que flutua entre sonho e realidade é uma característica sempre presente. Embora alguns personagens sejam mais “fixos” e estejam presentes no decorrer da história, muitos outros personagens surgem e desaparecem de forma veloz, porém sempre com algo a ser dito – quer seja entendido ou não.

Para quem não conhece, em Através do Espelho e o que Alice Encontrou Por Lá, Alice atravessa para o outro lado do espelho e lá encontra um mundo diferente, com muitos conceitos invertidos e acontecimentos imprevisíveis, tendo como tema o jogo de xadrez. Já no conhecido Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Alice cai em uma toca de coelho e é transportada para um mundo fantástico, repleto de personagens inusitados. O livro não é de todo igual à história contada no famoso desenho da Disney. Alguns trechos e diálogos não estão no filme, além de outros detalhes, por exemplo, o conceito de desaniversário, que no livro só aparece na história “Através do Espelho...”.

Trecho de Aventuras de Alice no País das Maravilhas:
“Tome mais um pouco de chá”, a Lebre de Março disse a Alice, de maneira muito sincera.
“Como ainda não tomei nenhum”, Alice respondeu num tom ofendido, “não posso tomar mais.”
“Você quer dizer que não pode tomar menos”, falou o Chapeleiro; “é muito fácil tomar mais do que nada.”

Trecho de Através do Espelho e o que Alice Encontrou Por Lá:
“Gostaria de comprar um ovo, por gentileza”, disse timidamente. “Como os vende?”
“Cinco pence por um... Dois pence por dois”, a Ovelha respondeu.
“Então dois custam menos que um?” perguntou Alice surpresa, pegando a bolsa.
“Só que, se comprar dois, tem de comê-los”, disse a Ovelha.
“Nesse caso, quero um, por favor”, disse Alice, pondo o dinheiro no balcão. Pois pensou consigo mesma: “Os dois não devem ser grande coisa.”
(...)
Assim foi ela, espantando-se mais e mais a cada passo, pois todas as coisas viravam árvore tão logo as alcançava, e ela estava certa de que o ovo faria o mesmo.

O livro diverte. A cada capítulo a curiosidade se faz mais e mais presente, já que é totalmente impossível prever que personagem estranho aparecerá e o que acontecerá a seguir. Apesar de ser classificado como infanto-juvenil (e em várias passagens ser bem evidente o lado infantil), não é de todo um livro só para crianças. A obra traz em si alguns simbolismos e pode ser interpretada de diversas maneiras. Diversas passagens sugerem a existência de referências e conceitos matemáticos (Lewis Carroll, além de escritor, foi também matemático). Trocadilhos e referências da época também estão presentes, porém são praticamente impossíveis de serem entendidos hoje em dia, além de só fazer sentido na língua inglesa. Se tiver interesse em saber mais (principalmente sobre as tais referências matemáticas), visite a página da obra na Wikipédia.

Esta edição da Editora Zahar é realmente obrigatória de se ter na estante. Além de ter as duas histórias – clássicos da literatura –, traz os textos na íntegra e ilustrações originais de John Tenniel.


Outra edição que também merece destaque é a da Cosac Naify (lançada em outubro de 2009). Contém somente a história Alice no País das Maravilhas, texto integral com tradução de Nicolau Sevcenko. O grande charme desta edição da Cosac Naify são as ilustrações, feitas por Luiz Zerbini (artista plástico paulista), que nos mostram cenários feitos de cartas de baralho com recortes que revelam os personagens, tudo feito em forma de maquete e fotografado com iluminação teatral. Lindo!

Agora só falta esperar mais um pouquinho para conferir no cinema a fantástica produção de Tim Burton + Walt Disney. Como admiradora de Tim Burton e fã incondicional de tudo o que é Disney, mal posso esperar!

Título: Alice – Aventuras de Alice no País das Maravilhas / Através do Espelho e o que Alice Encontrou Por Lá
Autor(a): Lewis Carroll
Publicação original: Aventuras de Alice no País das Maravilhas – 1865 / Através do Espelho e o que Alice Encontrou Por Lá – 1872

*Imagens das ilustrações: blog Cosac Naify

5 de abril de 2010

As Brumas de Avalon - O Gamo-Rei (Livro 3)

Continuando a saga, As Brumas de Avalon – O Gamo-Rei parece ter o objetivo de preparar as coisas para o desfecho final, que ocorrerá com o quarto e último livro (O Prisioneiro da Árvore). Acontecimentos importantes nos são apresentados aqui, porém suas consequências ainda estão por vir.

Os tempos são de paz. Tendo conseguido a vitória na luta contra os saxões, Artur revela-se cada vez mais um rei cristão, sofrendo enorme influência de Gwenhwyfar. Seu distanciamento de Avalon provoca o descontentamento de Morgana e Viviane, já que o Grande Rei deve honrar o juramento que fez e ser digno de continuar levando na bainha a poderosa Excalibur.

Gwydion, filho de Morgana, é criado no reino de Lot e, posteriormente, é educado em Avalon. O livro, então, nos apresenta uma importante questão: o que acontecerá ao Gamo-Rei quando o jovem gamo estiver adulto? E Morgana, por sua vez, questiona em seus pensamentos: “Se Galahad (filho de Lancelote e Elaine) vai ser rei, é meu filho então o Merlim, o sucessor escolhido em vida?”.

A morte de Viviane, a consolidação da rivalidade entre Morgana e Gwenhwyfar, e o posto de Senhora do Lago ocupado por Niniane (filha de Taliesin), são alguns dos acontecimentos importantes deste terceiro livro. A situação de Avalon não é das melhores, pois se perde cada vez mais entre as brumas, afastando-se da terra dos homens e temendo tornar-se tão distante dos ciclos solares e lunares quanto o reino das fadas.

A meu ver, o ápice do livro está no renascimento da sacerdotisa em Morgana. A Deusa volta a manifestar-se nela, que retoma etapa por etapa até estar novamente preparada para seu regresso a Avalon. Finalmente, Morgana compreende os planos que Viviane tinha para si, planos que antes era muito jovem e tola para entender. Ainda que à custa de muito sofrimento, Viviane lhe dera algo valioso que ela, Morgana, simplesmente jogara fora. Seria, então, tempo de retomar os planos de Viviane.

Apesar de eu ter dito no início que este é um livro que “prepara o terreno” para os acontecimentos finais, devo fazer aqui um complemento: a leitura continuou instigante e quase não fui capaz de largar o livro até tê-lo terminado. Justamente o contrário do que em geral ocorre em determinado ponto de uma saga, quanto é tomada pela característica de preparação/transição, fazendo com que o leitor sinta-se entediado e não tenha paciência para chegar ao final. No caso de As Brumas de Avalon, não me foi necessária a paciência, pois tenho lido com crescente empolgação cada parágrafo desta grandiosa obra.

Título: As Brumas de Avalon – O Gamo-Rei (Livro 3)
Autor(a): Marion Zimmer Bradley
Publicação original: 1982

LEIA TAMBÉM:
As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia (Livro 1)
As Brumas de Avalon – A Grande Rainha (Livro 2)
As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore (Livro 4)

28 de março de 2010

As Brumas de Avalon - A Grande Rainha (Livro 2)

Logo no início de As Brumas de Avalon – A Grande Rainha, nasce o filho de Morgana no Norte, junto a Morgause e Lot, sendo por eles criado como um filho adotivo – mais como uma estratégia de Morgause, já que ela e o marido tinham a ambição de que um de seus filhos herdasse o trono de Artur.

Neste livro, porém, o destaque vai para o desenvolvimento da personagem de Gwenhwyfar, que é a escolhida para casar-se com o Grande Rei Artur por conta de seu dote, sem que entre eles houvesse amor (nunca se haviam visto antes do casamento). Artur recebeu sua noiva com bondade e surpreendeu-se com sua beleza. Entre eles nasceu um grande afeto. Gwenhwyfar reconhecia a bondade do marido e o retribuía sendo uma esposa atenciosa; no entanto, seu coração de mulher pertencia a outro: Lancelote. Este, por sua vez, também a amava com todo o seu ser, e mantinha-se em um denso conflito por ser o melhor companheiro de Artur (a quem era verdadeiramente leal) e, ao mesmo tempo, amar sua esposa.

Gwenhwyfar representa a verdadeira figura do cristianismo, sempre submissa, recatada e amedrontada. Seu medo era tanto que buscava a segurança de muralhas e paredes e temia ficar exposta aos campos abertos e ao céu, imenso sobre sua cabeça. Sempre muito religiosa, temia o castigo divino e, pior, martirizava-se a si mesma por seus pensamentos “impuros” em relação à Lancelote. Podemos notar o quão intenso é esse martírio quando, mesmo com a compreensão do padre, ela pensa que teria se sentido melhor e mais livre (!!) se ele a tivesse censurado e lhe imposto penitências pesadas.

As atitudes e pensamentos de Gwenhwyfar ao longo do livro fizeram com que eu desenvolvesse uma enorme antipatia por ela. E também pena. A personagem sofre em demasia por não ter o homem amado e sente-se humilhada por não conseguir conceber um filho de Artur. No entanto, Gwenhwyfar tem uma visão de mundo muito limitada, presa às suas verdades e totalmente intolerante às diferenças. Mas também é necessário compreender que isso se deve à forma como foi educada.

Fica evidente o aspecto tirano e intolerante do cristianismo, por exemplo, na parte em que lemos a respeito de Gwenhwyfar: “com Artur a seu lado e a sua bandeira da cruz flutuando sobre o acampamento de Artur, ela sentia amor e tolerância para com todos (...)”. Assim sendo, uma vez que o cristianismo exerce seu domínio, realmente revela-se tarefa fácil ter amor e tolerância ao próximo – ainda mais quando este está sob seu poder incontestável.

Também preciso dizer que achei particularmente adorável quando Morgana vai parar no país das fadas. Lá não é possível ver o sol e nem a lua, e o tempo flui como num sonho. O que parecia ter sido dias foram anos, na verdade. Anos de juventude, festas e prazeres. Encantador! Só lamentei não ter podido ser eterna a presença de Morgana nesta terra, embora fosse mesmo impossível por conta do papel essencial de Morgana em toda a história.

Posso seguramente afirmar que este segundo volume de As Brumas de Avalon superou as minhas expectativas. A leitura continuou envolvente e gostosa, tal como foi minha experiência com o primeiro volume. E o final, bom, o livro termina com um acontecimento que eu esperava ansiosamente desde os primeiros capítulos e, confesso, não imaginei que fosse ocorrer exatamente da forma como ocorreu – ainda mais surpreendente do que eu esperava. Gostei bastante! Mas esse é apenas um “final”, assim mesmo, entre aspas, já que ainda restam outros dois volumes para completar a obra...

Título: As Brumas de Avalon – A Grande Rainha (Livro 2)
Autor(a): Marion Zimmer Bradley
Publicação original: 1982

LEIA TAMBÉM:
As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia (Livro 1)
As Brumas de Avalon – O Gamo-Rei (Livro 3)
As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore (Livro 4)

22 de março de 2010

As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia (Livro 1)

Há cerca de cinco anos despertou em mim uma imensa vontade de ler os volumes que compõem As Brumas de Avalon. Porém, sem um motivo muito consciente (talvez fosse por causa de outros livros que me apareciam de forma repentina), sempre acabava por postergar a compra e a leitura desta obra. Então, graças a uma promoção no Submarino (aliás, lá sempre encontro promoções muito interessantes!), comprei de uma vez os 4 volumes por um preço para lá de atraente.

As Brumas de Avalon reconta a lenda do rei Artur sob a perspectiva feminina (sacerdotisas de Avalon e as mulheres de Camelot). A tentativa de unificação da Bretanha contra a invasão dos saxões e os conflitos entre o cristianismo e os cultos pagãos se fazem muito presentes como base para toda a trama.

No livro 1, intitulado A Senhora da Magia, acompanhamos a vida de Igraine (irmã de Viviane, Grã-sacerdotisa de Avalon, conhecida como a Senhora do Lago), que foi dada em casamento ainda muito jovem a Gorlois, Duque da Cornualha. Desta união nasceu Morgana, única filha do casal. Ao lado de Gorlois, Igraine passou por momentos conflituosos e de infelicidade, porém mantinha-se resignada. Fica bem claro durante o livro o papel exercido pela mulher. De um mundo que não ouvia a opinião de suas mulheres e as mantinha submissas participava Igraine, mesmo tendo crescido em Avalon e cultivasse em seu íntimo o amor pela Deusa, sentia gratidão por seu marido haver deixado que criasse Morgana – ainda que não fosse o filho homem que ele tanto desejava.

As coisas mudam de rumo quando Avalon impõe a Igraine a necessidade (ou o destino) de casar-se com Uther Pendragon e ter um filho seu, que no futuro seria coroado rei e salvaria a Bretanha, unificando seus povos para combater os invasores. Igraine, no início, rejeitou seu destino, mas acabou sendo tomada por um imenso amor por Uther e cumpriu o seu dever quando da morte de Gorlois. Desta forma, deu a Uther um filho, Gwydion – ou Artur, conforme seria batizado mais tarde. Igraine torna-se cada vez mais religiosa, como uma verdadeira cristã, enquanto seus filhos são criados longe de si. Morgana é educada em Avalon para tornar-se sacerdotisa da Deusa, e por fim chegará o dia em que Artur tomará posse do trono, tornando-se Grande Rei da Bretanha.

Sempre tive curiosidade acerca da lenda do rei Artur, e As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia me surpreendeu. O misticismo e a emoção são características marcantes da história, cujas mulheres ocupam posição central – e essencial. Se por um lado os homens exerciam o domínio e as mulheres eram meros adornos e provedoras de filhos (levadas a passeios no mercado enquanto seus maridos reuniam-se para discutir assuntos de extrema importância para o futuro do povo), para os povos de Avalon a situação era outra. Lá, as mulheres desempenhavam o papel de grandes sábias; portadoras da Visão, nada era feito sem seu aconselhamento. Eram os verdadeiros instrumentos da vontade da Deusa.

Na obra, vemos o conflito entre conceitos tidos como certos e errados, já que, como mencionei antes, a relação entre cristãos e pagãos era demasiado tempestuosa; o que era virtude para o primeiro grupo tornava-se blasfêmia aos olhos do outro, e vice-versa. O cristianismo é relacionado à crença em um deus morto que amedronta e castiga, e não aceita outros deuses e deusas, impondo seu deus como único e absoluto. Para os cristãos, os pagãos são gente ligada à bruxaria e ao demônio. Os povos de Avalon, por sua vez, afirmam que todos os deuses são um deus e todas as deusas são apenas uma deusa, não importando os nomes que lhe são dados, e acreditam na justiça a todos os homens, qualquer que seja o deus que adorem.

Recordando algumas passagens memoráveis, derreti-me quando finalmente Uther vai ao encontro de Igraine na Cornualha, e juntos eles passam sua primeira noite; foi algo belo de se ler. Merece igual – ou maior – destaque todo o ritual pagão para a ascensão de um novo rei. É emocionante e de uma beleza incalculável e até incompreendida, dependendo dos olhos de quem vê. Mas prefiro não entrar em maiores detalhes para não turvar o misto de sensações que terão os possíveis leitores.

Também acho válido mencionar o quanto a narrativa corre de forma envolvente. A autora soube expressar muito bem toda a carga emocional das personagens; os pensamentos das mulheres se fazem presentes com frequência, de forma a permitir que o leitor capte cada nuance de seus sentimentos. Inclusive, o livro inicia e finaliza com reflexões de Morgana, personagem fundamental na história e espetacular em todas e cada uma de suas características. O caminho da barca com seus remadores silenciosos, a cortina de névoa que encobre a mística Avalon, abrindo-se e revelando sua magnitude, os juncos, o círculo de pedras sobre o Tor, os sacrifícios do preparo de uma sacerdotisa... Ler sobre todas essas coisas arrepia, é como sentir na pele os mistérios que permeiam a história e, de fato, acreditar no que está ali descrito. Inexplicável.

As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia é um livro que merece ser lido e sentido em toda a sua plenitude. Certamente as mulheres se identificarão com os pensamentos e atitudes de algumas personagens, e desenvolverão sentimentos dos mais variados com relação aos homens da trama. Tendo lido o primeiro volume, com outros três me esperando para que eu os devore, sinto que esta será uma daquelas obras das quais jamais me esquecerei.

Título: As Brumas de Avalon – A Senhora da Magia (Livro 1)
Autor(a): Marion Zimmer Bradley
Publicação original: 1982

OBS: mais adiante, resenharei os outros três volumes de As Brumas de Avalon (ainda não concluí a leitura!). Aguardem!

LEIA TAMBÉM:
As Brumas de Avalon – A Grande Rainha (Livro 2)
As Brumas de Avalon – O Gamo-Rei (Livro 3)
As Brumas de Avalon – O Prisioneiro da Árvore (Livro 4)

19 de fevereiro de 2010

O Amor nos Tempos do Cólera: uma obra-prima de verdade!

Definitivamente, uma vez lida, não tenho como deixar passar em branco uma obra de Gabriel García Márquez. Por isto, dedico este post ao livro O Amor nos Tempos do Cólera, que li recentemente e que me mantém encantada até os presentes minutos.

Para os amantes de uma boa história de amor, o livro é um prato cheio. Florentino Ariza, um rapaz puro e simples, apaixona-se ainda na juventude por Fermina Daza, jovem altiva e de gênio bastante forte. Após iniciarem um breve romance através de cartas, seguido de uma viagem de Fermina Daza para visitar sua prima Hildebranda (imposta por seu pai com o objetivo de deixar para trás o romance de juventude), Fermina Daza acaba por rejeitar Florentino Ariza de forma repentina ao retornar de viagem, pois percebe uma discrepância entre a imagem idealizada que nutria e a realidade do homem que encontrou frente a si. Casa-se então com o célebre doutor Juvenal Urbino, o que lhe rende o ingresso à alta sociedade e uma vida estável e de paz.

Já Florentino Ariza, cada vez mais distante de sua amada, preenche sua vida com relações passageiras, enquanto escreve cartas de amor encomendadas por terceiros, cartas que foram capazes de unir jovens casais enquanto seu autor permanecia só em seu inferno privado. Se nas cartas de amor Florentino Ariza colocava todo o seu ser e obtinha êxito, no ofício já não teve a mesma sorte: suas cartas comerciais eram demasiado líricas e assemelhavam-se a cartas de amor. Contudo, Florentino Ariza destacou-se pela perseverança. Ter Fermina Daza converteu-se em seu projeto de vida – o fato de ser casada e com filhos nunca foi obstáculo – e, a partir disto, reuniu força e motivação que o levaram a tornar-se responsável pela Companhia Fluvial do Caribe e, consequentemente, uma figura pública de importância inquestionável. Após meio século de espera febril (51 anos, 9 meses e 4 dias, para ser mais exata), Florentino Ariza reafirma suas juras de amor eterno na primeira noite da viuvez de Fermina Daza, e prova-nos que o amor é imune ao tempo – ainda que as pessoas não o sejam – e que não há idade para amar.

A deliciosa narrativa de Gabriel García Márquez e o retrato mágico do Caribe do século XIX, assolada pelo fantasma do cólera, são dois pontos mais que positivos deste livro. Somemos a eles os acontecimentos fantásticos tão bem costurados à realidade – e por isso são, de fato, reais – e temos uma obra-prima completa. Não posso citar pontos negativos, pois este livro simplesmente não os tem.

Para os mais curiosos, vale a pena conferir o filme O Amor nos Tempos do Cólera (2007), de Mike Newell, que traz Javier Bardem na pele de Florentino Ariza e Fernanda Montenegro vivendo a mãe do protagonista. No entanto, somente indico o filme a título de curiosidade mesmo, já que não há um aprofundamento na relação entre Fermina Daza e o doutor Juvenal Urbino, e nem confere a carga de sentimentos que nos transmite o livro.

Título: O Amor nos Tempos do Cólera
Autor(a): Gabriel García Márquez

Publicação original: 1985

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